• Sonuç bulunamadı

Antes de refletir sobre as relações familiares estabelecidas pela população cativa de Vitória, convém esclarecer os pressupostos teóricos subjacentes a sua execução. O estudo da família escrava demanda uma reflexão sobre os possíveis significados e percepções dos cativos no que diz respeito ao sentimento de integrar uma família. Para tanto, faz-se importante apresentar os caminhos trilhados por alguns historiadores que se dedicam a essa temática, a fim de demonstrar qual concepção de família norteia o presente estudo.

Sheila Faria, ao refletir sobre a importância que a família desempenhou na montagem e no funcionamento das atividades econômicas coloniais, sobretudo no que tange às ligadas ao mundo agrário, afirma que:

[...] É pela e para a família, não necessariamente a consanguínea, que todos os aspectos da vida cotidiana, pública ou privada, originam-se ou convergem. É a família que confere aos homens estabilidade ou movimento, além de influir no status e na classificação social. Pouco, na Colônia, refere- se ao indivíduo enquanto pessoa isolada – sua identificação é sempre com um grupo mais amplo. O termo “família” aparece ligado a elementos que extrapolam a consanguinidade – entremeia-se à parentela e à coabitação incluindo relações parentais125.

Partindo dessa perspectiva, a historiadora argumenta que o desejo de tecer uniões sob as bênçãos da Igreja permeava a sociedade colonial brasileira como um todo. No que concerne às motivações dos cativos na busca pela legitimação de suas uniões, Sheila Faria postula que o casamento representou uma tentativa de ver respeitada, de acordo com as normas da sociedade em que se viram forçados a viver, sua organização familiar. Nesse sentido, “ao se casar, o escravo e, mesmo, seus descendentes, tinham em vista objetivos específicos, longe de ser o de sacralização de um matrimônio. Buscavam reconhecimento social”126. Para a autora,

a constituição da família cativa resultou, basicamente, da atuação dos próprios

125 FARIA, 1998a, p. 21. 126 Ibid., p. 337.

cativos na busca pela construção de espaços de identidade social, ainda que dentro dos limites impostos pela escravidão. O acesso à família significou a possibilidade de sobrevivência para aqueles que estavam sob o jugo do cativeiro.

Nessa mesma linha de investigação Manolo Florentino e José Roberto Góes destacam a função pacificadora da família escrava em seu papel político na introdução da paz nas senzalas, ou seja, na criação de laços de sociabilidade entre pessoas de procedências diversas, cujas tensões étnicas eram constantemente alimentadas pela reintrodução do estrangeiro provindo do tráfico. O estabelecimento de laços de solidariedade e de parentesco entre os cativos garantia aos senhores a manutenção da paz nas escravarias. Mas também serviam ao escravo que, por meio dos laços de parentesco e de solidariedade em comunidades no interior das senzalas, encontrava o entendimento mútuo para melhor suportar os embates da dura opressão dos senhores127.

Manolo Florentino e José Roberto Góes, ao buscarem traçar as fronteiras do sentir-

se parte de uma família, esclarecem que, na primeira metade do século XIX, as

relações familiares entre os cativos extrapolavam o núcleo familiar consanguíneo formado por pai, mãe e filhos. A roda da família ainda se abria envolvendo outros tipos de parentes consanguíneos imediatos, como tios, tias, avós e avôs, além dos putativos, como madrinhas e padrinhos. Os autores apontam o caráter eminentemente político da abertura do círculo familiar. Este se configurava como uma estratégia dos cativos na busca por alianças políticas no intuito de ampliar as redes de solidariedade e proteção. Nesse sentido, os cativos contavam, inclusive, com ex-escravos, escravos pertencentes a outros senhores e, em casos eventuais, com alguns proprietários128. Os autores afirmam ainda que por mais extenso que tenha sido o escopo da rede familiar cativa, não se deve perder de vista que ela se reconhecia assentada num núcleo primário baseado na consanguinidade e/ou no matrimônio129.

127

FLORENTINO; GÓES, 1997. 128 Ibid., 1997, p. 83.

Robert Slenes, em Na senzala uma flor, discutindo os possíveis significados da família escrava, contesta o argumento de Manolo Florentino e José Roberto Góes segundo o qual a família cativa deve ser considerada como um pilar do próprio escravismo. De acordo com Slenes, embora o estabelecimento de laços familiares entre os cativos tenha aumentado sua vulnerabilidade diante tanto dos ditames senhoriais quanto dos seus próprios anseios e projetos de vida familiar, isso não inviabilizou a possibilidade desses escravos criarem uma comunidade de interesses e sentimentos que se contrapunham às perspectivas e vontades dos senhores. Sob tal perspectiva a família contribuía tanto para a autonomia quanto para a dependência escrava.

Para Robert Slenes as relações familiares constituíram um nexo importante para a recriação das esperanças e recordações dos cativos. O autor ressalta a importância do legado cultural africano na criação e recriação de estratégias de sobrevivência e de padrões culturais entre os cativos e seus descendentes. Ele chama a atenção para o fato de que é comum a quase todas as sociedades africanas organizarem-se em torno da família concebida como linhagem, ou seja, como um grupo de parentesco que traça sua origem a partir de ancestrais comuns. Postula-se, assim, que os africanos trazidos para a região sudeste do Brasil teriam lutado com afinco, dentro de suas possibilidades, para tecer relações familiares tendo em vista a gramática da família-linhagem. Sendo assim, teriam se empenhado em garantir condições mínimas que permitissem a formação e manutenção de novas famílias conjugais, famílias extensas e grupos de parentesco ancorados no tempo. A formação de uma família para os cativos teria representado a possibilidade de acesso à maior autonomia e à posse de casas individuais que lhes permitissem recriar ritos de origem africana.

Hebe Mattos, por sua vez, afirma que a família desempenhou um papel fundamental entre os cativos na busca pela obtenção de espaços de autonomia e de identidade social dentro do cativeiro. A autora chama a atenção para o fato de que as relações comunitárias entre os cativos no Brasil significaram uma possibilidade de distinção frente à imagem mais comumente associada à escravidão: a ausência de vínculos familiares, a promiscuidade e os castigos físicos. Entretanto, os cativos crioulos e africanos não tinham o intuito de traçar as fronteiras de suas identidades para

coincidir com as de sua condição escrava, servindo mais para aproximar os cativos dos homens livres pobres: por meio do parentesco o cativo tinha maiores chances de acesso à roça própria, moradia separada e formação de um pecúlio130.

É preciso salientar que, mesmo sendo possível a construção de uma comunidade entre os cativos, a constituição de famílias e os recursos advindos dessa relação não estavam acessíveis a todos. De acordo com Hebe Mattos, dado o constante desequilíbrio sexual – com predomínio dos homens em relação às mulheres – que marcou, em especial, a estrutura demográfica da população cativa das regiões de

plantation escravista131, os homens tinham menores chances de encontrar uma companheira. Desse modo, as mulheres “constituíam o núcleo de uma elite na comunidade cativa a que se aproximava, através da família, da roça e do próprio distanciamento físico das senzalas coletivas, da experiência de liberdade que lhes era próxima”132.

Para Carlos Engemann os laços familiares constituiriam, antes de tudo, alianças importantes para a sobrevivência física e emocional dentro do cativeiro. O parentesco implicava “uma identificação profunda entre os indivíduos”133. Aparentar-

se aumentava a possibilidade de obter aliados, cuja identificação estava diametralmente oposta ao estrangeiro. Era imprescindível aos cativos a construção do maior número possível de laços parentais no intuito de ampliar as redes de proteção e de ajuda mútua em busca de maiores espaços de autonomia e de melhores condições de vida. O parentesco consanguíneo estabelece a primeira e a mais fundamental das relações sociais: a que se firma entre mãe e filho. Todavia, para além das relações consanguíneas, o parentesco se amplia por meio das relações matrimoniais, bem como pelo compadrio que permitem a multiplicação de alianças sociais e políticas entre os grupos familiares. De forma geral, a proliferação das alianças parentais propicia a formação de uma identidade mais abrangente: a

130

MATTOS, 1998, p. 126.

131 A esse respeito, podemos citar os estudos empreendidos por Manolo Florentino e José Roberto Góes para a região do agro fluminense no Oitocentos e o trabalho de Robert Slenes sobre as regiões de plantation em São Paulo e no Rio de Janeiro no século XIX. Ver: FLORENTINO; GÓES, 1997; SLENES, 1999.

132 MATTOS, op. cit., p. 142. 133 ENGEMANN, 2005, p. 181.

comunidade. O autor assinala ainda que o tempo de convívio constitui uma variável importante para a consolidação das relações parentais, pois a formação de laços familiares tende a potencializar-se na medida em que o tempo avança.

Acompanhando a concepção de família aqui discutida esta pesquisa concebeu a família escrava como uma instituição possível dentro das circunstâncias da experiência do cativeiro. Trata-se de uma concepção de família que extrapola os limites da consanguinidade, estendendo-se aos laços de proteção e de solidariedade construídos por meio do matrimônio e do compadrio cristão, bem como pelas relações consensuais. Dessa forma, busca-se aprofundar o estudo das relações familiares entre os cativos não apenas por meio do resgate e do mapeamento da família ao longo do tempo, mas também através da compreensão dos possíveis significados de sentir-se parte de uma família.