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A mortalidade cativa, analisada a partir do critério idade, era maior antes dos 10 anos de idade (ver Tabela 6). Dos 560 óbitos coligidos, 226 cativos (ou 40,4%) tinham menos de 10 anos. Destes, 88 morreram antes de completar o primeiro ano de vida.

117

REIS, 1991, p. 275.

118 Relatório apresentado à Assembleia Legislativa Provincial do Espírito Santo no dia da abertura da sessão ordinária de 1864 pelo 1º vice-presidente, Dr. Eduardo Pindahiba de Mattos. Victoria, Typ. Liberal do Jornal da Victoria, 1864. p. 45.

119

Relatório lido no paço d'Assembleia Legislativa da província do Espírito Santo pelo presidente, o exm. senr. Doutor Francisco Ferreira Correa na sessão ordinária no ano de 1871. Victoria, Typ. do Correio da Victoria, 1872. p. 49.

Tabela 6 - Mortalidade de escravos – Vitória – 1859-1887

Fonte: Cúria Metropolitana de Vitória. Livro de Óbitos de Cativos da Catedral. Victoria, 1859-1887.

É importante lembrar que os registros de óbito – no conjunto dos registros eclesiásticos – são os menos confiáveis, já que a morte não precisava necessariamente ser assistida por padres, elemento fundamental em batizados e casamentos. De acordo com Sergio Nadalin, apesar das disposições da Igreja, o estado dos registros e a sua representatividade dependeram muito da boa vontade e do capricho do vigário na elaboração da ata. Além disso, também resultou da importância que a sociedade atribuía a tais informações, pois dela dependia o encaminhamento ou não das comunicações dos óbitos à Igreja. Desse modo, pode- se imaginar que muitas pessoas, em particular os escravos, morreram e foram enterradas sem conhecimento dos párocos120. Esses sub-registros121, por certo, distorcem a análise concernente à mortalidade cativa. Contudo, não se pode maximizá-los122.

Sergio Nadalin também chama a atenção para a necessidade de levar em consideração a ocorrência de sub-registros, principalmente, quando se trata dos registros de falecimento. Na sociedade brasileira colonial as pessoas não davam tanta importância ao assentamento dos que se foram dessa vida. Diante das condições concretas de existência, tais como o número insuficiente de párocos e a distância de muitos povoados da sede da paróquia, torna-se compreensível as

120 NADALIN, 2004, p. 60. 121

“Diz-se, no jargão da demografia histórica, daqueles registros que deveriam ter sido efetivados, mas, por razões diversas (como esquecimento, perda, extravio, seleção etc.) foram perdidos” (NADALIN, op. cit., p. 175).

122 FARIA, 1998, p. 1285. Faixa etária % Menos de 11 anos 226 40,4 11 a 30 anos 168 30,0 31 a 50 anos 96 17,1 Mais de 50 anos 63 11,3 Não refere 7 1,2 Total 560 100,0

razões da existência significativa de sub-registros de óbitos, principalmente de crianças123.

As informações apresentadas pelo presidente de província José Bonifácio Nascente d’ Azambuja em relatório de 24 de maio de 1852 indicam a ocorrência de enterros em cemitérios particulares sem o devido conhecimento dos párocos. Vejamos:

[...] Segundo informão alguns vigarios muitos recem-nascidos deixão de receber o Sacramento do Baptismo, e mesmo sei que ainda são pagãos muitos adultos, de certo por falta principalmente de vigarios em varias Freguesias, não de agora somente, mas de longo tempo; tambem consta das mesmas informações que muitos corpos se sepultão em cemiterios particulares, de que os respectivos Parochos não tem noticia, e até não pequeno numero descansa em lugares não sagrados [...]124.

Não se pode perder de vista que, provavelmente, muitos sepultamentos foram realizados sem o conhecimento dos párocos, o que torna frágil a análise dos dados relativos à mortalidade cativa, haja vista a possibilidade de distorção dos números ora apresentados. No que diz respeito à análise da morte entre os cativos por sexo observam-se números equilibrados: 293 (52,3%) cativos do sexo masculino, ao passo que as mulheres perfaziam um total de 267 (47,7%) mortes. Combinando as variáveis idade e sexo observa-se um relativo equilíbrio das mortes entre os sexos, independentemente da faixa etária analisada (ver Tabela 7).

Tabela 7 - Mortalidade cativa por idade e sexo – Vitória - 1859-1887

Faixa etária Feminino Masculino

% % Menos de 11 anos 106 39,7 116 39,6 11 a 30 anos 82 30,7 88 30,0 31 a 50 anos 36 13,5 43 14,7 Mais de 50 anos 40 15,0 42 14,3 Não refere 3 1,1 4 1,4 Total 267 100,0 293 100,0

Fonte: Cúria Metropolitana de Vitória. Livro de Óbitos de Cativos da Catedral. Victoria, 1859-1887.

123

NADALIN, 2004, p. 45. 124

Relatório que o exm. presidente da província do Espírito Santo, o bacharel José Bonifacio Nascentes d'Azambuja, dirigiu a Assembleia Legislativa da mesma província na sessão ordinária de 24 de maio de 1852. Victoria, Typ. Capitaniense de P.A. de Azeredo, 1852. p. 23.

Outra questão interessante a ser observada diz respeito à origem dos cativos mortos. Dentre os 560 assentos analisados apenas 10 (1,7%) indicam procedência africana. Esse fato reforça a ideia discutida aqui acerca da reduzida influência do tráfico na reposição das escravarias capixabas.

No que tange à condição matrimonial dos cativos adultos (com mais de 15 anos) também é possível identificar que dentre um universo formado por 299 cativos somente 18 (1,6%) eram casados ou viúvos, levando a suspeitar que as uniões entre os cativos se dessem majoritariamente pelo modo consensual. Ao que parece a recorrência ao matrimônio legitimado pela Igreja católica foi baixa indicando um índice significativo de ilegitimidade entre as crianças cativas. Num universo de 189 cativos com indicação de maternidade apenas 11 deles (5,8%) eram frutos de relações legitimadas pela norma eclesiástica (filhos legítimos), enquanto os demais 178 (94,2%) eram filhos naturais. Isso fortalece a argumentação – a ser discutida com mais detalhes no capítulo II - de que a ilegitimidade parece ter sido a tônica nas relações entre os cativos.

A presente reflexão acerca da morte católica entre os cativos em Vitória a partir dos registros de óbito reforça as informações obtidas com base nos inventários post-

mortem. Constatou-se relativo equilíbrio entre os sexos, reduzida presença de

africanos na composição das escravarias capixabas, além da pequena presença de casais legitimados pela norma eclesiástica e o consequente alto índice de ilegitimidade entre os escravos.

3 FAMÍLIAS ESCRAVAS EM VITÓRIA, 1850-1871