2.4. ÇEK%ML% F%%LLERLE KURULAN %K%LEMELER
2.4.2. Tasarlama Kiplerinde Çekimlenmi Fillerle Kurulan %kilemeler
Em Espingardas e Música Clássica focaliza-se um dos mais questionados períodos da História de Portugal – o da ditadura salazarista, fase de pleno florescimento da estética literária denominada de Neo-Realismo. O percurso existencial e ético, nesse período, assentava-se na relação Deus x Homem x Natureza, em que se refletia o poder da Igreja e do Estado que darão as cartas por muito tempo, em Portugal, e cujas diretrizes se devessem respeitar como os dogmas do Concílio de Trento, de 1565, inclusive nas questões de sexo e de família. Para mais, o salazarismo que perpassa pela narrativa, nas figuras de algumas personagens repressoras, levando à tortura de dois operários, é o alto preço que uma nação agrária, defasada em relação ao contexto do sistema ocidental industrializado em que se inseria, teve de pagar para alcançar o nível de desenvolvimento concernente. Há fatos que aqui cabe relevar, como se fará, a seguir:
- em 1961 e, em 1962, o grande crescente movimento emigratório para a França, com conseqüências negativas e positivas para a vida rural de Portugal, como a escassez da mão-de-obra e a alta do nível de vida no campo, o que leva a equiparar o salário rural ao industrial; rádio e televisão influenciaram costumes e hábitos do povo, transmitindo música clássica para camuflar fatos de política de guerra; crescia o desnível de produção entre os setores, num país que continuava na economia eminentemente agrícola.
- a política Ultramarina do período de governo de Salazar segue novos rumos e Goa é incorporada à Índia, como se vê nos acontecimentos que vêm à tona, em Espingardas e Música Clássica:
É meio-dia. Perdeu-se o aviso Afonso de Albuquerque, atacado por um cruzador e um contratorpedeiro indianos que, a cinco milhas de distância, fazem fogo sobre o navio de guerra português. Há um cargueiro inglês, mas com bandeira panamiana, o Rangers, que recebe uma perfuração na linha de água. Quarenta e cinco minutos de luta... É tudo. Vão-se seguir os vinte e quatro estudos de Chopin, tocados por Nikita Magalov (TORRES, 1989, p. 138).
Vale mostrar como ficam asseguradas a plausibilidade e a verossimilhança desta narrativa do século XX, dadas as correlações contínuas entre ficção e realidade estabelecidas pelo narrador, que as vai temperando com o humor e a fantasia, recuperando eventos daqueles dias críticos da invasão de Goa por Neruh, com as respectivas repercussões no cenário internacional e especificamente na ONU para onde a questão transitou, propiciando a campanha antiportuguesa, talvez pelos que tinham sobretudo interesse em enfraquecer Portugal na Europa, ou pelos que lhe queriam arrancar a África, com o argumento de que a África deveria pertencer aos africanos. Havia os que alegavam um racismo, com o fim imediato de apossar- se das Províncias, quer fosse pelas riquezas que os territórios africanos ofereciam, quer fosse para ocupar vazios de influências idealistas, por considerarem a autodeterminação um direito sagrado de toda e qualquer sociedade humana.
Nesse clima de conquistas, também ideológicas, do Mundo, a ONU opera como central propaladora de uma imagem externa contrária a Portugal e
seus interesses. Sabe-se que a partir da Conferência de Berlim, do Século XIX, haviam se acentuado as ambições de outros países sobre as Províncias Ultramarinas de Angola e de Moçambique e que ao tempo se ancoraram em movimentos de opinião, originados em certos meios imperialistas europeus para demonstrar que Portugal não estava apto a ocupar aqueles territórios, para desenvolver neles uma política de fomento, que nem os próprios portugueses praticavam.
A guerra de 1914-18 e a ação portuguesa pela sua soberania na África puseram fim a essa fase da história, pois, durante a guerra civil espanhola reacendeu-se a campanha antiportuguesa e, na segunda guerra mundial, suspendeu-se a maioria das atividades políticas e os serviços prestados à causa dos Aliados pelo Governo de Lisboa. Desfeita a aliança e celebrado o Tratado do Atlântico Norte, de que Portugal foi signatário, iniciou-se a guerra fria e retomou-se a campanha soviética contra os países capitalistas e imperialistas.
Portugal foi acusado de não possuir instituições democráticas, de perseguições intolerantes, de não conceder direitos aos trabalhadores, de manter a imprensa sob severa vigilância, (fatos denunciados na narrativa de Espingardas e Música Clássica) e de favorecer os interesses capitalistas internacionais. A União Indiana havia ignorado a sentença do Tribunal Internacional de Justiça, que reconhecia em Goa os direitos portugueses e, desse modo, voltou-se violentamente contra o governo de Portugal, que sucessivas vezes apelou para a decisão de ordem internacional, nunca
observada por Nova Delhi. Passou, então, por agressor, acusado de permanecer em Goa como ameaça à integridade de seu território.
Um outro impasse, visível na obra Espingardas e Música Clássica, refere-se à província de Angola: a história oficial demonstra que, a 15 de março de 1961, invasores adentraram a fronteira do Congo ex-belga, assassinando várias pessoas, entre brancos, negros e mestiços, com o argumento de que lá existia uma rebelião pela liberdade. O Ultramar precisava ser defendido, porque ali se encontravam milhares de portugueses que confiavam no país e queriam permanecer sob a tutela do governo lusitano. Isto, na opinião abalizada de José Manuel Fragoso (1970, pa 36), Embaixador de Portugal, no Brasil, à época da política das possessões ultramarinas. Para o diplomata, (revista Portugália, s/d: n. 23), foi pena que não houvessem atentado tanto quanto se deveria, para a declaração do delegado indiano, no Conselho de Segurança da ONU, quando ao refutar a delegação portuguesa e também a outras, declarou que Goa, Damão e Diu seriam absorvidas pela Índia, com ou contra a Carta das Nações Unidas, com o Conselho de Segurança ou contra ele.
O fato está registrado em Espingardas e Música Clássica, no fragmento a seguir: “Nehru ordenou ontem a invasão de Goa. E em três horas, a avaliar pelo nome das povoações, lembra-se que estive lá de serviço três anos, aquilo já se encontrava quase tudo no papo dos monhés” (TORRES, 1989, p. 59-60).
O respeito ao documento e às instituições, como a ONU, em que se depositariam esperanças de paz e de segurança universais, poderia ter levado a evitar tantos transtornos, o que não ocorreu no episódio, pelo processo de
tomada de Goa, e a campanha contra Portugal encerrou seu primeiro turno com as contravenções. Logo, vê-se que o processo de internalização de fatos históricos que caracteriza a narrativa de Alexandre Pinheiro Torres modeliza-os artisticamente no mundo da representação, como resultado do diálogo da literatura com a história, conforme elucidam outras passagens da narrativa: “A verdade é que há uma data de homens aqui do concelho, ainda em idade militar, que recebeu uma ordem para se apresentarem no dia 26, depois do Natal, no Distrito de Recrutamento n. 6 do Porto” (TORRES, 1989, p. 65).
Os primeiros anos da ditadura, em Portugal, foram marcados por várias manifestações populares, enquanto o poder central, com seus desdobramentos, permanecia na mão dos militares cuja organização mostrou- se sui generis: uma força de comando operava de baixo para cima, por Tenentes que forjavam a política, de modo que quem possuía mais autoridade não era quem ostentava maior número de galões. Daí derivava também que divergências políticas fossem consideradas um atentado à ordem pública e que, qualquer contato com homens que anteriormente houvessem estado no poder, fosse supeito. Assim, a guerra colonial aberta começou em novembro de 1961, com um grande massacre de angolanos, no norte de Portugal.
No Brasil, tanto Jânio Quadros quanto João Goulart alhearam-se do processo colonial português. O primeiro voto contra esse colonialismo deu-se a 31 de julho de 1963, quando o Brasil, no Conselho de Segurança da ONU, disse sim a um projeto de resolução que convidava Portugal a reconhecer imediatamente o direito à autodeterminação e à independência de seus territórios ultramarinos.