Através de uma breve investigação sobre a história de colonização do Ceará, e do Nordeste de um modo geral, é possível observar que o povoamento da região Nordeste se iniciou no século XVI com a chegada dos europeus colonizando o litoral e com as "entradas" e migrações pastoris para os sertões. Inicialmente, o litoral do Nordeste tornou-se foco de cobiça dos colonizadores, principalmente após a implantação da produção açucareira que abrangia de Paraíba até a Bahia. No decorrer do período colonial, por volta do século XVII, foi desenvolvida a pecuária extensiva no sertão, que abastecia de couro e charque o comércio da região, dando margem à exploração de outras extensões de terras. A ausência de solos férteis e a escassez sazonal dos recursos hídricos do litoral transformaram o sertão no foco do crescimento econômico por um período (MENDES; LIMA; CORIOLANO, 2004; DANTAS, 2003; PINHEIRO, 2002; MAIA, MOURA, SOUSA, MEIRELES, 2010).
O território do Ceará não era uma “terra de ninguém”. Era um território indígena ocupado por diversas etnias índigenas, entre elas os Potyguara, os Jenipapo-Canindé, os Anacé e os Jaguaribara (ARAGÃO, 1994). Os índios do Nordeste eram um conjunto étnico e histórico integrado pelos diversos “povos adaptativamente relacionados à caatinga e historicamente associados às frentes pastoris e ao padrão missionário dos séculos XVII e XVIII” (DANTAS, SAMPAIO E CARVALHO, 1992 apud OLIVEIRA, 1997, p.51). Os grupos indígenas compunham o tipo humano e cultural do caboclo ou sertanejo (ARRUTI, 1995).
Apesar das resistências encontradas no litoral cearense, o domínio deste território era fundamental para os colonizadores, pois este apresentava uma posição estratégica para conquistar outros territórios. Com esse argumento foram criadas importantes vilas como Aquiraz (1699), Fortaleza (1726) e Aracati (1748). Aquiraz foi uma importante sede administrativa da capitania (capital) do Siará Grande até o ano de 1726, quando a capital foi transferida para Fortaleza (MENDES, LIMA, CORIOLANO, 2004; PINHEIRO, 2002).
Nestas vilas, os colonizadores – portugueses religiosos e militares – pacificavam a região como um todo, incorporando alguns grupos indígenas na sociedade e economia regional, mediante um controle intercultural, religioso e político disciplinador, propiciando condições para o desenvolvimento econômico local. Nos relatórios dos presidentes de província e em outros documentos oficiais o colonizador utilizava a expressão “índios
misturados”, referindo-se ao povo indígena incorporado à nova dinâmica da sociedade (OLIVEIRA, 1997).
A presença colonial instaura uma nova relação da sociedade com o seu território, ocasionando inúmeras modificações socioculturais (OLIVEIRA, 1993), o que transforma a realidade de vida do povo indígena, que eram os únicos habitantes do país (então os donos de fato da terra) até a invasão dos europeus.
O colonizador só conseguiu o domínio sobre as terras e sobre uma parte do povo indígena, após um verdadeiro etnocídio e genocídio. Eles tentaram destruir a cultura dos indígenas dominando a língua e a religião (MENDES; LIMA; CORIOLANO, 2004).
A partir do século XIX os grupos indígenas do Nordeste brasileiro passaram a ser tratados tanto pelo Estado quanto por alguns pensadores sociais como entidades extintas (ARRUTI, 1995). Apesar disso, atualmente algumas tribos representantes dos povos indígenas ainda sobrevivem no Nordeste brasileiro. Muitos historiadores e estudiosos da história indígena desmitificam a ideia contada pela história dominante, de que os indígenas do Nordeste foram completamente extintos (OLIVEIRA, 1997; AMORIM, 1970; ARRUTI, 1995). Até os dias atuais a comunidade indígena do Nordeste luta para ser reconhecida como um grupo composto de índios, e não de meros remanescentes.
A partir dos séculos XVIII e XIX, após a consolidação das vilas e o crescimento populacional, as comunidades pesqueiras ou povos do mar (muitas de origem indígenas) foram formando seus núcleos por todo o litoral cearense. A posse da terra pelas comunidades litorâneas cearenses deu-se então com referência à ancestralidade, como a dos povos indígenas.
Em resumo, o processo de ocupação do Ceará foi construído em meio ao conflito entre os indígenas – que utilizavam o território para reproduzir seus modos de vida – e entre aqueles que o viam como um meio de produção lucrativa – os colonizadores. Este processo de ocupação e povoamento do litoral terminou por misturar as etnias, que derivam da presença de indígenas, de negros escravizados e de europeus.
A área litorânea do leste do Ceará, especificamente Aquiraz e suas proximidades, começaram a ser exploradas com maior intensidade a princípio do século XVII. A praia do Iguape, que está localizada há mais ou menos 5 km da praia do Batoque foi um importante porto de embarcações durante o período colonial, atraindo os estrangeiros para descanso e conserto de embarcações. Nesta localidade, foi instalada a primeira Câmera Municipal do Ceará, em 1699, sendo posteriormente transferida para Aquiraz no século XVIII. No início do
século XVII, a área que incluía as praias que fazem parte do município de Aquiraz ainda não eram ocupadas intensivamente. A importância do Porto de Iguape influenciou a ocupação por colonos e suas fixações, como também a intensificação da exploração dos recursos naturais na região (SILVA, 1987).
Após a diminuição da população indígena do litoral – sem deixar de considerar que alguns grupos resistentes de indígenas persistiram no território, mas outros foram eliminados ou desagregados tendo suas aldeias transformadas em vilas de colonização (PINHEIRO, 2002) –, a zona costeira cearense passou a conter terras minimamente ocupadas. Existiam algumas ocupações coloniais, mas no geral eram poucas em comparação aos 573 km de extensão do território costeiro, limitada a oeste com o estado do Piauí e a leste com o estado do Rio Grande do Norte. Para estas terras pouco habitadas, com o passar dos anos, grupos de pessoas de outras localidades foram sendo atraídos a ocupar, interessados principalmente na proximidade com o mar (que facilitaria na alimentação através da pesca), na facilidade da água e na possibilidade de realizar pequenas atividades de agricultura e criação de animais de pequeno porte.
A vila de Aquiraz teve sua importância no processo de colonização, sendo um importante centro econômico por meados do século XVIII. Os distritos de Aquiraz foram se desenvolvendo e sendo ocupados por grupos de famílias, que praticavam principalmente a agricultura (algodão, banana, caju, mandioca, feijão), a pecuária (de bovino, suíno e avícola) e a pesca de subsistência. Com relação a Fortaleza, a ocupação efetiva como capital e centro principal das atividades econômicas só foi acontecer de fato no século XIX, graças ao porto e ao desenvolvimento da cultura do algodão, pois anteriormente o destaque era para Aquiraz, Aracati, Sobral, Camocim, Viçosa e Icó (MENDES, LIMA, CORIOLANO, 2004).