BULGULAR VE TARTIŞMA
5.2 Tartrazin Adlı Gıda Boyasının Tayini
”Eche veinte centavos en la ranura”
Na primeira parte deste estudo, será tratada a cidade de Buenos Aires. Raúl González Tuñón foi um dos melhores observadores e amantes dessa urbe: bairros, personagens típicas dos locais mais marginalizados dessa cidade, como o porto, predominam em sua poesia. O autor, ao mesmo tempo que aborda o cosmopolitismo, observa atentamente o que ocorre na cidade argentina, bem como no mundo.
Raúl González Tuñón é um poeta citadino, pois trata sua própria cidade e as de outros países. Seus temas preferidos foram “os submundos portenhos”, o que levou Jorge Luis Borges a considerá-lo conforme Nora Domínguez (In: Zanetti, 1980/1986:128) “o outro poeta suburbano”, na dedicatória de Luna de enfrente. Embora haja muitos temas que coincidam com os da produção de Borges como, por exemplo, a valorização dos bairros, dos armazéns, dos instrumentos musicais, a poesia de Raúl González Tuñón, durante muito tempo esteve marginalizada: ele não conseguiu, como a maioria dos poetas, um significativo reconhecimento em vida.
O poema “Eche veinte centavos en la ranura”, de sua autoria e que compõe El
violín del diablo (1926), é uma sensível retratação do porto de Buenos Aires e de suas
personagens típicas, construídas no poema através de arquétipos37 e alegorias38, formando um mundo de metáforas.
Em “Eche veinte centavos en la ranura” o autor flutua entre o real e o sonho. Por meio do real ele regressa à infância criando assim dois grandes campos semânticos, que, nesse poema, formam parte das imagens poéticas de uma cidade: circo e porto. Esses campos semânticos figuram como alegorias da vida. Para entendê-los é necessário lançar mão do conhecimento de mundo, assim teremos suporte para comprovar que ambos despertam em cada um de nós sensações e recordações similares:
A pesar de la sala sucia y oscura de gentes y de lámparas luminosa
si quiere ver la vida color de rosa eche veinte centavos en la ranura. Y no ponga los ojos en esa hermosa que frunce de promesas la boca impura.
Eche veinte centavos en la ranura si quiere ver la vida color de rosa. El dolor mata, amigo, la vida es dura,
37 [arquétipo] modelo de seres criados; padrão; exemplar; que serve de modelo; original. In: Dicionário Brasileiro
da Língua Portuguesa (1993).
38 [alegoría] [sirve] para expresar poéticamente un pensamiento, a partir de comparaciones o metáforas [y] se
establece una correspondencia entre elementos imaginarios. Tomadas literalmente, las alegorías ofrecen un sentido insuficiente, pero éste se [completa] con el sentido del contexto. In: BERISTÁIN (1992).
y ya que usted no tiene hogar ni esposa si quiere ver la vida color de rosa eche veinte centavos en la ranura
O poema “Eche veinte centavos en la ranura”, divide-se em seis partes. Na primeira, o poeta se dirige ao leitor tentando persuadi-lo a fugir do real e entrar num mundo de fantasias, na “vida color de rosa” (vv. 3, 8 e 11). Há um jogo de antíteses, como claro x escuro no primeiro e segundo verso, puro x impuro no sexto e sétimo verso, além de duas grandes metáforas nucleadoras do poema, que são: vida cor de rosa x vida dura. Essas metáforas harmonizam toda a composição poética, imprimindo um sentido explícito. Feita a leitura da estrofe, percebe-se também a representação sutil de um ambiente de luxuria, onde se encontram mulheres livres do porto, cafetões e outros tipos:
Lamparillas de la Kermesse, títeres y titiriteros, volver a ser niño otra vez y andar entre los marineros
de Liverpool o de Suez.
Na segunda parte do poema há uma nítida regressão por parte do poeta ao mundo infantil, que se comprova principalmente no verso “volver a ser niño otra vez”. Surge ao final um novo espaço lírico que será predominante em toda a obra, o porto. A criação desse espaço poético é comprovada através de um recurso muito utilizado pela poesia tuñoneana, denominado nomeação. Nesse caso a nomeação se deu pela citação de “Liverpool o de Suez”, que apesar de serem lugares distantes da realidade argentina, conseguem estabelecer um clima de familiaridade, pois ambos são portos:
Teatrillos de utilería. Detrás de esos turbios cristales
Paraísos artificiales.
Na terceira parte o poeta, através de metáforas, retoma o porto de
modo realista: um lugar onde se tira proveito, onde as futilidades
predominam, nada é tão nítido nesse local, até mesmo os cristais, que lá
se encontram, não são claros e escondem um mundo sem luz, escuro,
onde trabalham mulheres escravizadas que por meio da sedução criam a
ilusão desse falso paraíso:
Cien lucecitas. Maravilla de reflejos funambulescos ¡Aquí hay mujer y manzanilla! Aquí hay olvido, aquí hay refrescos.
Pero sobre todo mujeres para los hombres de los puertos
que prenden con alfileres sus ojos en los ojos muertos.
No debe tener esqueleto el enano de Sarrasani, que bien parece un amuleto
de la joyería Escasany. Salta la cuerda, sáltala, ojos de rata, cara de clown
y el trala-trala-trálala ritma en tu viejo corazón. Estampas, luces, musiquillas,
misterios de los reservados donde entrarán a hurtadillas los marineros alucinados.
Y fiesta, fiesta casi idiota y tragicómica y grotesca. Pero otra esperanza remota
de vida miliunanochesca...
A quarta parte foi dividida em quatro estrofes. Na primeira, o poeta retrata o porto, agora não mais distante da realidade argentina, por se tratar do próprio porto de sua cidade. Entretanto, esse ambiente poético, que é tão característico de algumas cidades, não tem nada de belo à primeira vista. González Tuñón revela literalmente todo cotidiano de impureza, promiscuidade e mistério que envolve o porto:
Cien lucecitas. Maravilla de reflejos funambulescos
O primeiro verso inicia com uma expressão luminosa, mas os reflexos que são produzidos por essa luz não iluminam, não trazem vida, somente escuridão e morte. No porto existem mulheres, bebidas, esquecimentos, recordações e marinheiros que procuram essas mulheres desesperançadas para se satisfazerem. Tudo isto é expresso pelo autor através de um sublime jogo de metáforas que dá mais amplitude à imaginação do leitor.
Na segunda estrofe, González Tuñón cria uma atmosfera circense, ao trazer à tona seus pensamentos de criança, relembrando o circo que um dia viu nesse lugar. Para atribuir a essa parte um caráter verossímil, o autor emprega palavras que simbolizam lugares reais nessa sociedade, como “Sarrasani e Escasany”. Esta é mais uma das características da poética tuñoneana, e se denomina auto-referência. Além de utilizar o vocábulo “clown” da língua inglesa para manter a rima e o vínculo com a imagem do circo, também emprega, nessa parte, a carnavalização das personagens, embora o anão e o palhaço sejam verdadeiros arquétipos.
Na terceira e quarta estrofe, o poeta volta à realidade e continua retratando esse ambiente periférico portenho. Ainda sobre um olhar pessimista, ele deixa subentendido todo o “poder” que a vida marginal exerce nos homens, criando um ar misterioso ao redor desse espaço. Lugar este onde nem tudo é revelado, onde a sedução impera e cria uma falsa ilusão de felicidade, através de festas que iludem os homens, levando-os a uma vida de prazeres.
Na quarta estrofe, a intertextualidade apresenta-se através da expressão “vida miliunanochesca”, uma alusão ao livro das Mil e uma Noites, enfatizando ainda mais essa vida de prazeres que é o sonho da maioria dos seres humanos. A imagem criada neste momento do poema é um cenário vivo mentalizado a partir de referenciais, como bordéis, prostíbulos e lugares semelhantes a esses. Nesses lugares ocorrem festas
fúteis e grotescas, onde, muitas vezes, os homens por um momento feliz de prazer levam, como presente para suas mulheres, enfermidades. Percebe-se nesse momento que o autor com a artifício da linguagem conseguiu produzir uma imagem bem definida, capaz até de revelar um aspecto social.39 Embora o ambiente seja repudiado pela sociedade, por seu papel negativo, é a partir dessa negatividade que se espelha o poema:
¡Qué lindo es ir a ver la mujer
la mujer más gorda del mundo! Entrar con un miedo profundo pensando en la giganta de Baudelaire...
Nos engañaremos, no hay duda, si desnuda nunca muy desnuda, si barbuda nunca muy barbuda
será la mujer
Pero ese momento de miedo profundo... ¡Qué lindo es ir a ver
la mujer,
la mujer más gorda del mundo!
Na penúltima parte, o autor retorna ao circo e imagina certa personagem desse lugar. Só que agora ele trata essa personagem de forma grotesca. O autor novamente joga com a intertextualidade quando cita “la giganta”, elemento também da composição poética “A giganta” de As Flores do Mal, do poeta francês Charles Baudelaire 40. Esse elemento, por sua vez, cria um elo entre sonho e fantasia, imprimindo um pouco de erotismo à obra, já que nesse poema um homem passeava pelo corpo desnudo da giganta.
Em toda essa parte há a alusão à personagem do circo, “la mujer más gorda del mundo”, que causa curiosidade e espanto em todos os homens. Assim, pode-se
39 LYNCH (1997) p.5.
afirmar que essa mulher por despertar imaginação e fazer parte da fantasia circense é mais um dos arquétipos tuñoneanos.
Y no se inmute, amigo, la vida es dura, con la filosofía poco se goza. Si quiere ver la vida color de rosa. Eche veinte centavos en la ranura
Na última parte o autor volta a se dirigir ao leitor e, mais uma vez, o convida a entrar nesse mundo de sonho e fantasia, onde tudo é alegre e perfeito. O poeta afirma que com discurso pouco se aproveita a vida e que para vivê-la intensamente é necessário experimentá-la, senti-la, deixar-se levar por ela sem medo. A vida cor de rosa que González Tuñón vem oferecendo ao longo do poema é uma fuga do real para o imaginário do prazer.
Pode-se concluir que o poeta criou “Eche veinte centavos en la ranura”, como já afirmamos, apoiado em duas grandes metáforas nucleadoras41 “vida cor de rosa” e “vida dura”, nas quais se inserem outras, como o porto e o circo. O autor empregou muitas metáforas nesse poema por acreditar, certamente, na força semântica dessa figura de linguagem, a metáfora, um elemento capaz de unir o real e o sonho. O porto simboliza a “vida dura”, pois o trabalho é árduo, as pessoas que circulam são na maioria marginalizadas, quase tudo de mais baixo e promíscuo se encontra no porto. Já o circo simboliza a vida de sonho e fantasia, de brincadeiras e esperanças, “vida cor de rosa”, que leva o homem a retornar a sua infância e sonhar com uma vida melhor. Tanto o porto quanto o circo surgem como imagens da cidade e, em algum momento, vistas aos olhos sensíveis de um autor, podem se transformar em poesia, sendo
41 [Metáfora nucleadora] [Las] metáforas ligadas a los elementos primitivos y a la experiencia común, se prestan de
una manera peculiar al proceso de rejuvenecimiento de la imagen por el empleo de otra metáfora tomada del mismo campo semántico. In: LE GUERN (1985).
configuradas como alegorias da vida, por fazer parte das fantasias que cada indivíduo guarda em sua memória.
Em cada um desses espaços poéticos encontramos pessoas comuns a esses lugares, que servem portanto para caracterizá-los: no porto, estivadores, marinheiros, mulheres livres; no circo, palhaços, anões, mulheres barbudas... Todas essas personagens não só se constituem como arquétipos, mas também como alegorias da ilusão, visto que através delas o homem pode viver o real ou regressar à infância e sonhar em ser feliz...
“Poetango de la belle époque”
A poesia “Poetango de la belle époque” a ser analisada a seguir, foi extraída do livro La veleta y la antena de 1971, a penúltima obra poética de Raúl González Tuñón. Tanto A la sombra de los barrios amados (1957), como La veleta y la antena constituem uma etapa de síntese da obra tuñoneana. Como afirma a escritora Nora Domínguez:(1980/1986:130)
… en esta etapa conviven en una situación de equilibrio el llamado poeta social y el más individual. Es, tal vez, su etapa más homogénea; en las anteriores había en todos los casos un libro que descollaba sobre los otros, aquí no se puede hacer esa distinción.
Em La literatura resplandeciente (1976), seu único livro teórico, González Tuñón desenvolve, como afirmado anteriormente, o conceito de realismo romântico, o qual, segundo ele, deve estender toda poesia, porém este conceito se fortalecerá nesta etapa de conjunção entre fantasia e consciência, que são os espaços a que nos remetem La veleta y la antena. Raúl González Tuñón utiliza o substantivo realismo
acrescentando a ele o qualificativo romântico. Para o autor houve realistas românticos em todas as épocas. O escritor argentino afirma:
Eso que tiene el arte auténtico: la realidad (no su copia, mediocre, además, y de inspiración libresca) el hecho humano y el artista que lo interpreta, lo desentraña, lo explica, lo muestra, lo da vuelta, si se quiere, lo inventa, pero siempre real, humano y aún demasiado humano. Y absolutamente en proyección universal. (De “El camino” en
Hay alguien que está esperando, 1952)
Em “Poetango de la belle époque”, percebe-se a presença desse conceito mesclado ao surrealismo. O título do poema sugere esse realismo romântico. O eu- lírico, para marcar seu envolvimento total com a poesia, joga com as palavras numa apreciável junção de poeta + tango, criando assim um neologismo que nomeia o poeta como um cantor e, no caso de González Tuñón, um cantor da cidade. Essa identificação com a música é revelada pelas palavras do próprio autor quando afirma: “porque no soy un químico del verso sino un cantor, en el sentido más neto de la palabra”.42
Em quase toda sua obra percebemos a marca da musicalidade, tanto que muitas de suas poesias foram transformadas em canções, especialmente em tangos, como é o caso de “Eche veinte centavos en la ranura”, “Juancito Caminador”, “La Libertaria” e muitas outras.
Este poeta-cantor do poema também faz menção à corrente a qual pertence, ou seja, apresenta sua filiação literária, no caso La belle époque. Esta foi uma época na história da França, que começou no fim do século XIX e durou até a Primeira Guerra mundial. A belle époque foi considerada uma era de ouro da beleza artística e intelectual, marcada por profundas transformações culturais, que se traduziram como novos modos de pensar e viver o cotidiano. Ao se intitular “poetango de la belle
époque” o sujeito do poema atribui a seus versos todo aquele período áureo da arte literária. Ele evoca para sua poesia todo o glamour que rodeia esta época de inovação, emblematizando e embelezando, desta forma, sua lírica.
O poema está divido em duas partes, cada parte com três estrofes de versos díspares. Na primeira parte o sujeito poético revela uma cidade com seus locais e personagens típicas. São imagens aludidas a uma cidade que se modificou, abandonando o encanto do antigo para ceder passagem ao novo, ao moderno. Na segunda parte o eu–lírico se dirige diretamente à cidade e, em meio aos relatos de experiências passadas neste ambiente urbano, ele renova a esperança de futuros cantos poéticos.
La noche de la razzia los herreros cantaban y quedaron después de la tormenta súbita
la sombra vigilante del árbol esquinero y el silencio insolente del arrabal herido.
… Sin embargo, Raúl, ¿no te acordás? tenía su encanto, eh, la belle époque, mirada desde el ángulo de nuestra adolescencia
implacable y ansiosa.
Nos quatro primeiros versos, da primeira estrofe, dessa primeira parte, o poeta indica uma mobilização perante o objeto de sua observação (a cidade), não somente o pensamento, a verbalização (linguagem – ideologia) do poeta, mas também os mecanismos (consciente-inconsciente) de sua percepção. Esses dados de sua percepção informam muito pouco sobre sua visão poética, porém indicam a presença de uma atitude receptiva, mobilizadora e, sem dúvida, sensível aos estímulos do real concreto.
Nos versos acima o autor descreve um acontecimento situando tempo (“la noche”) e espaço (“arrabal”). Por meio de metáforas, deixa expresso conscientemente os problemas sociais que ocorrem nesse ambiente citadino: “sombra vigilante” /
“arrabal herido”. Também mostra a preocupação da população, aqui representada pelos ‘herreros’, que vivem nos subúrbios, atentos a possíveis tribulações.
Ainda se pode entender esses versos como se o poeta estivesse mergulhado no sub-consciente e de lá fosse arrancado ferozmente, para logo a seguir refletir sobre o real. Esta interpretação seria possível se comparada a este momento literário do eu- poético com o próprio momento do autor. Como já foi citado, o início da obra tuñoneana está marcado pelo surrealismo, depois esse estilo é sobreposto por um estilo mais social, mais tenaz e, nas suas obras posteriores, o escritor retoma de dentro de sua memória o fabuloso e inquietante mundo dos sonhos.
Uma das características da poética de Raúl González Tuñón é o emprego de citações e referências. É o que se verifica no quinto verso da estrofe: (... Sin embargo, Raúl, ¿no te acordás?), quando o eu-lírico utiliza, apesar de ter alterado o pronome pessoal tú para vos, um verso do poema “España en el corazón”: “Raúl, te acuerdas?” elaborado pelo escritor chileno Pablo Neruda (2004:118) em homenagem ao autor argentino. Essa intertextualidade adotada estabelece uma interação entre o texto original e o que o cita, revelando um novo objeto de leitura.
Com referência ao mesmo verso, a pontuação adotada no início é um recurso muito recorrente na poética tuñoneana, pois segundo seu criador, permite que a imaginação do leitor, a partir do que já leu, crie suas próprias inferências, construindo assim uma significação individual. Esse apelo para a recordação do autor feito pelo eu- lírico, sendo uma forma de personificação, reforça a vinculação do gosto de ambos por um mesmo estilo de época; ao mesmo tempo, marca um saudosismo, uma nostalgia por aquela época que tanto assombrava aos jovens escritores do mundo, sedentos daquela “nova arte”.
Absorvido pelo inconsciente43, o eu-poético perambula por esse ambiente oculto, voltando seu olhar para antigos espaços e formando imagens aparentemente desconexas do mundo real.
Por sobre los exilios y las muertes, los gobiernos volteados y el último tranvía que dobló hacia la vaga estación del ocaso veo ahora en la gris esfumatura de la distancia,
que es el tiempo,
el íntimo esplendor de la Vuelta de Rocha con su perfil de patio, con su siempre domingo.
La tarima del trío musicante en Barracas palpitando en el ritmo grave y cordial de un tango
y ese Bar y Billares saliendo a la vereda donde una vez Aieta sacó viruta al fueye junto al cine Buen Orden cuyo antiguo esqueleto
cayó luego de haber proyectado en su sábana la última película del hondo cine mudo.
Nesses versos o sujeito do poema emerge num túnel do tempo e recorda fatos e locais que estiveram presentes em sua vida em algum momento anterior. Cita a sucessão de governos fracassados que se estabeleceram na Argentina, explicitando como foi o término dos mesmos “exilio y muertes”. E como representante do último sopro de imaginação, que conduz o processo criador até a nostalgia, o “tranvía”. Esse condutor ao chegar a alguma estação, qualquer ponto, permite que o eu-lírico vislumbre, através do tempo, a época esplendorosa de um local familiar “perfil de pátio”, extremamente vivaz, que era a “Vuelta de Rocha”. Este ambiente portenho era conhecido por seus vários eventos de domingo e, principalmente, pelas apresentações de tango.
43 [Inconsciente] o psquismo não é redutível ao consciente e [...] certos “conteúdos” só se tornam acessíveis à
No poema há uma identificação do bairro “Vuelta de Rocha” através da recordação. A partir da observação do sujeito-poético se conhece esse espaço urbano. Contudo esse olhar é um olhar mais maduro, um olhar do viajante. González Tuñón já havia percorrido diversos países e vivenciado inúmeras culturas, logo, o seu olhar havia se transformado, e sua cidade agora era vista com outros olhos. Conforme o sociólogo Sérgio Cardoso: “[...] o distanciamento das viagens não desenraiza o sujeito, apenas diferencia seu mundo”44. González Tuñón, apesar de ter conhecido várias localidades, nunca deixou de ser o mais legítimo portenho e admirador do tango.