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A importância e o interesse gerados por um acontecimento são, de acordo com Mauro Wolf, os critérios substantivos da notícia10, isto é, os critérios que mais proximidade estabelecem com os atributos próprios dos acontecimentos. Que atributos seriam esses? São os valores portados pelos acontecimentos os quais lhe possibilitam condições de serem noticiados: os valores-notícia. Trata-se da bagagem própria que cada evento porta consigo e que, sob a égide dos critérios substantivos do jornalismo, classifica ou desclassifica o acontecimento como noticiável.

Os valores-notícia são “um componente da noticiabilidade”. Tais valores, embora apareçam listados, destacados e individualizados, “operam na prática de modo complementar” e funcionam “em maços”. (WOLF, 2005, p. 202) Além do mais, são valores que permeiam todo o processo de produção informativa e se ajustam completamente à rotina do trabalho jornalístico de forma a facilitá-la ao invés de complicá-la. De acordo com Wolf, os valores-notícia

devem permitir uma seleção do material, feita apressadamente, de modo quase ‘automático’, caracterizada por um certo grau de flexibilidade e comparação, que seja defensável postmortem e, sobretudo, que não seja suscetível de muitos obstáculos. (WOLF, 2005, p.204-205)

10 Para Mauro Wolf, a importância da notícia é determinada por quatro variáveis: “grau e nível hierárquico dos indivíduos

envolvidos no acontecimento noticiável” - em outras palavras, seu grau de poder, sua visibilidade (capacidade de reconhecimento em sociedade), sua extensão e seu peso social -; “impacto sobre a nação e sobre o interesse nacional” – seu potencial de influência ou de incidência sobre os interesses do país -; “quantidade de pessoas que o acontecimento (de fato ou potencialmente) envolve” e “relevância e significatividade do acontecimento em relação aos desenvolvimentos futuros de uma determinada situação” – é quando a avaliação se torna mais adaptável às circunstâncias de momento nas quais o fato se acha inserido e “o elemento do interesse dá lugar a uma avaliação mais heterogênea, mais aberta às opiniões subjetivas, menos vinculadora para todos”. (WOLF, 2005, p. 208-213)

Os valores-notícia, ainda que apresentem “uma forte homogeneidade” dentro do campo jornalístico, possuem, de acordo com Mauro Wolf, uma “natureza dinâmica”. Isso quer dizer que os valores-notícia são reajustados e redefinidos em função das necessidades sociais e da capacidade dos aparatos informativos responder a elas. (WOLF, 2005, p.205)

Valores-notícia e critérios substantivos encontram-se entrelaçados e incorporados à qualidade dos acontecimentos ordinários e, conseqüentemente, às notícias por eles desencadeadas. Um nomeia o outro. Um referencia o outro. Os fatos requisitam os critérios substantivos para possuírem noticiabilidade e se tornarem notícia. Por sua vez, os valores-notícia só são assim nomeados por intermédio dos critérios substantivos de noticiabilidade. Assim, ao se buscar explicar um, é imprescindível lançar mão do outro.

Há que se ponderar que quanto maior a quantidade de valores-notícia de um acontecimento referendados pelos critérios substantivos, maior a sua autonomia em relação aos demais critérios de noticiabilidade, pois a importância social de que ele se reveste o torna menos vulnerável às avaliações e pontos de vistas dos profissionais da mídia, bem como às condições de natureza operacional impostas pelos veículos de informação para a sua transformação em notícia. Certamente que o caráter substantivo de um fato está sempre relacionado a um determinado horizonte social.

De acordo com Nelson Traquina, os valores-notícia valorizados pelos critérios substantivos são: a morte; a notoriedade (o nome e a posição da pessoa em sociedade são importantes como fatores de noticiabilidade); a proximidade (tanto geográfica quanto cultural); a relevância (qual o impacto que o acontecimento tem sobre a vida das pessoas); a novidade; o tempo (enquanto atualidade, enquanto demarcação de uma data significativa e enquanto duração/persistência do acontecimento); a notabilidade (capacidade de o acontecimento ser visível ou tangível às pessoas, podendo ser registrada na quantidade de pessoas envolvidas no fato; na inversão, ou melhor, no modo de contrariar o normal; no insólito ou na capacidade de surpreender as pessoas; nas falhas e nos acidentes; no excesso ou na escassez); o inesperado; o conflito ou a controvérsia; a infração (violação ou transgressão das regras); e o escândalo. (TRAQUINA, v.II, 2005, p. 79 -85)

A imprensa brasileira local, regional ou nacional noticia todos os dias as declarações do seu presidente da república pelos mesmos motivos que a imprensa italiana, japonesa ou francesa assim não procede rotineiramente com o presidente brasileiro, mas com os seus, respectivamente. Em princípio, tudo o que um presidente de uma nação fala, dentro ou fora de seu território, possui valor-notícia para a população do país que ele preside e esse valor se baseia em critérios substantivos que são, neste caso, a notoriedade do presidente; a relevância de seu papel público e o grau de proximidade estabelecido entre a sociedade e o seu presidente, pois não se trata de um presidente qualquer, mas do presidente daquele povo em especial.

Diante dos valores-notícia reconhecidos pelo jornalismo através dos critérios substantivos, pode-se dizer então, que tais critérios são os mais consensuais de um acontecimento, uma vez que eles já estão respaldados pelo senso comum de uma determinada sociedade. Não é necessário que a imprensa nacional raciocine sobre a noticiabilidade da fala ou da atitude de seu presidente da República. Ela o noticia sempre e com o destaque que a população brasileira espera de seus meios de comunicação na cobertura noticiosa de seu presidente.

Assim também ocorre com vários outros fatos que são acontecimentos noticiáveis para além dos critérios de noticiabilidade da imprensa. Ou, explicando melhor, são fatos que normalmente não necessitam que a imprensa os selecione. Eles se impõem por si mesmos à cobertura informativa dos veículos midiáticos. E qualquer negligência da mídia, nesses casos, pode custar a sua credibilidade junto ao público.

Ao comportarem valores em si mesmos que são respaldados e endossados, consensualmente, pela sociedade, os critérios substantivos são também os mais duradouros de um acontecimento. Sim, porque se eles carregam consigo o senso comum de uma sociedade, eles não mudam da noite para o dia e nem mudam homogeneamente. Essa durabilidade dos critérios substantivos é o que garante um elevado grau de conservadorismo dos valores-notícia através dos tempos.11 Assim, os acontecimentos ricos em valores-notícia reconhecidos pelos

11 Uma compilação realizada por Nelson Traquina sobre o que foi notícia em três épocas distintas – as primeiras décadas do

século XVII, os anos 30-40 do século XIX e os anos 70 do século XX – demonstrou que os valores-notícia das notícias não variaram significativamente ao longo dos anos. TRAQUINA, v.II, 2005, p. 63-69.

critérios substantivos atravessam os anos sendo, em maior ou menor grau, noticiados pela imprensa.

Os valores-notícia dos acontecimentos contemplados pelos critérios substantivos do jornalismo são os responsáveis em grande medida pela sua noticiabilidade e esses valores são mais endossados pela imprensa na sua interação com a sociedade do que propriamente criados por ela. O que a imprensa faz com muita habilidade é superestimar ou subestimar, valorizar ou desvalorizar o caráter substantivo de um fato de acordo com o seu formato midiático (se é jornal, rádio, tv, etc.), de acordo com o seu público, com os veículos que lhe fazem concorrência, de acordo com a sua estrutura física e sua capacidade de cobertura e mesmo de acordo com a sua linha editorial e ideológica.

2.10.1 Valores – notícia e valores sociais

A compreensão sustentada por essa pesquisa é de que os valores-notícia dos acontecimentos são uma decorrência particular e específica dos valores sociais conferidos aos fatos pela sociedade. Em outras palavras, entende-se aqui que a imprensa reifica o consenso social, reconhecendo-o, atualizando-o e devolvendo-o para a sociedade em forma de produto noticioso, de tal modo que os valores-notícia e os critérios substantivos das notícias reiteram os valores sociais em voga.

Esse atrelamento entre valores-notícia e valores sociais ocorre como uma consequência do lugar ocupado pela imprensa em sociedade: a imprensa está no meio das relações sociais nas quais ela tanto interfere como sofre delas interferências. O consenso social é, assim, fruto da atuação e da presença da imprensa na sociedade, sendo, portanto, uma construção ativa e ordinária do corpo social do qual a mídia é parte integrante.

A imprensa tende a conferir noticiabilidade aos fatos que, de alguma forma, já são valorizados pelo senso comum social o qual, com isso, pode reconhecer os valores – notícia da imprensa. Assim é que os critérios de noticiabilidade utilizados pelos jornalistas na sua função diária de produzir notícias são expedientes próprios da imprensa para responder às necessidades, aos costumes, à moral, aos valores, à cultura, e também aos desejos, às fantasias, às

curiosidades, aos medos, às inseguranças, enfim, de uma sociedade. Revelar esses critérios é desvendar a conversa que ela estabelece, rotineiramente, com o corpo social.

O próximo capítulo vai tratar de evidenciar essa inter-relação jornalismo/sociedade mediante a desconstrução noticiosa das 15 principais reportagens publicadas pelo jornal Estado de Minas, no ano de 2004, sobre o tema da exploração sexual infanto-juvenil.

Todas as reportagens selecionadas para essa pesquisa abordam um assunto que confronta a sociedade consigo mesma; traz à luz o que, em princípio, não deveria ser mostrado, revela um mundo que seria preferível que não saísse da escuridão.

A exploração sexual de crianças e adolescentes é um problema social que evidencia uma inadequação do funcionamento social. O que todos nós gostaríamos é de que não houvesse crimes desse tipo em nossa sociedade. E a tendência da coletividade é afastar de si qualquer ameaça à sua condição de harmonia e bem-estar.

Por que será que reportagens dessa natureza são produzidas pela imprensa? Por que o jornal Estado de Minas despendeu cinco páginas nobres de seu Caderno Gerais e destacou uma equipe de nada menos que seis repórteres – na capital e no interior do Estado – para confeccionar uma grande reportagem –

Infância Roubada – que fala de uma realidade feia, bruta e que escancara as mazelas sociais? Por que o jornalismo ousa revelar o que a sociedade prefere esconder e, assim mesmo, a imprensa se sustenta como uma instância social autorizada, respeitada e credível perante a coletividade?

Perguntas como essas norteiam as investigações travadas nesse trabalho e as análises efetuadas no capítulo seguinte, as quais, sem dúvida alguma, não esgotam o fazer jornalístico, tampouco os seus propósitos e meandros, mas oferecem uma modesta contribuição para os jornalistas pensarem o seu ofício e a sociedade em geral conhecer um pouco do modo como o jornalismo funciona. Sejam todos bem vindos, então, a essa terra estranha e fascinante cunhada muito apropriadamente de newsland.

3 A NOTICIABILIDADE AO ALCANCE DOS OLHOS: AS FICHAS NOTICIOSAS

3.1 ASPECTOS DA DIAGRAMAÇÃO

Benzer Belgeler