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6. TARTI MA VE SONUÇ

A causa, o tempo e o espaço que se desejava estabelecer e legitimar era o Nordeste das tradições, o Nordeste dos engenhos, que vai se tornar o tema principal de uma literatura memorialística e autobiográfica praticada por um grupo de intelectuais arregimentados em vários cantos da região, e, principalmente, no Recife. Inicialmente, o que os unia era a semelhança em sua trajetória de vida. Em sua grande maioria, as vozes que se levantavam em nome da conservação de uma tradição que tinha as formas das velhas ruínas da sociedade patriarcal eram descendentes de famílias que fizeram parte desse passado, unidos pelo desejo de colocar a tradição e a memória familiar a serviço de um projeto maior.

Esse grupo era formado por netos e filhos da aristocracia decadente da região Nordeste, herdeiros do nome e da tradição, dentre eles podemos citar Odilon Nestor, Julio Bello, Morais Coutinho, o poeta Ascenso Ferreira, Alberto Cavalcanti, Luiz Cedro

55, entre outros. Era muito comum, nessas famílias, os filhos mais novos serem

mandados para centro maiores para se tornarem bacharéis em Direito 56. Essa era a primeira formação de muitos dos amantes das ruínas patriarcais. As famílias que já não detinham o poder econômico, devido à decadência do açúcar, procuravam manter o prestígio social investindo na educação dos filhos.

      

55 LARRETA, Enrique Rodrígues; GIUCCI, Guilhermo. Gilberto Freyre, uma biografia cultural: a formação de um

intelectual brasileiro – 1900-1936. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.

56 Para entender o processo de formação da intelectualidade brasileira ver: MICELI, Sérgio. Intelectuais à Brasileira.

O bacharelado era quase sempre o caminho escolhido pelo peso da tradição que carregava e por oferecer uma formação humanística 57, o que acabou possibilitando a entrada desses homens para uma elite intelectual que, por pensar a sociedade, poderia também interferir em sua conformação, como no caso dos regionalistas-tradicionalistas, que buscavam repensar a região Nordeste tendo como base o mundo patriarcal. Por isso ser muito comum encontrarmos advogados formados nas primeiras décadas do século XX que jamais exerceram a profissão, tendo se tornado escritores, jornalistas, professores, historiadores, geógrafos ou tudo isso ao mesmo tempo, como o caso de José Lins do Rego, Nilo Pereira, Mauro Mota, Gilberto Osório de Andrade, entre outros. Esse processo evidenciou a substituição do poder econômico pelo das relações sociais, permitindo que muitas dessas famílias tivessem seus nomes perpetuados pela ascendência que tiveram no passado e pelo investimento na formação intelectual de seus filhos.

O próprio Gilberto Freyre pertenceu a uma família que descendia de senhores de engenho e que muito se esforçou para manter seus estudos fora do país. A luta pela memória da tradição do passado era silenciosamente movida por um desejo de reencontrar um lugar na sociedade. Aquelas famílias já não faziam parte de uma elite econômica, mas o prestígio e as relações que sobraram dos tempos nobres e fastigiosos em que o açúcar movia toda uma sociedade permitiram que se tornassem uma elite tão influente quanto a que detinha o dinheiro, por estar muito próxima do poder. Era muito comum intelectuais serem nomeados para ocupar cargos públicos, principalmente, na conjuntura política que se instaurou com o Estado Novo, em que os intelectuais eram parte significativa do staff do governo 58. Muitos puderam manter seus estudos por meio das ligações que mantiveram com o poder público, como Nilo Pereira, para quem o primeiro emprego foi o cargo de arquivista na Assembléia Legislativa de Natal, em 1926, aos dezessete anos de idade, concedido pelo então governador do Rio Grande do Norte, José Augusto Bezerra de Medeiros. Assim, ele pôde manter-se enquanto realizava os primeiros estudos. Nos anos posteriores, também esteve inserido no quadro dos intelectuais que fizeram parte do Estado Novo 59.

      

57 VENANCIO FILHO, Alberto. Das arcadas ao bacharelismo: 150 anos de ensino jurídico no Brasil. São Paulo:

Perspectiva, 2004.

58 Ver: CAVALCANTI, Lauro (Org.). Modernistas na repartição. 2. ed. Rio de Janeiro: Ed. da UFRJ, MINC -

IPHAN, 2000.

Nilo segue uma trajetória comum aos intelectuais brasileiros que se formaram na primeira república: filho de família pobre e tradicional do interior, segue para a capital para iniciar os estudos, demonstra inclinação para as letras, inicia-se no jornalismo, parte para centros maiores para formar-se em Direito, aproxima-se pouco a pouco da vida pública, exercendo diversos cargos até se envolver diretamente com a política, exercendo sempre e paralelamente as atividades de professor, jornalista e escritor. Essa foi a trajetória que o aproximou dos regionalistas e de Freyre. Os intelectuais das primeiras décadas do século XX estavam à frente do poder e da sociedade, dizendo-lhes que caminhos seguir. No caso de Nilo Pereira essa afirmação ganha ainda mais força já que ele foi um dos ideólogos do Estado Novo em Pernambuco.

O poder, para esses intelectuais, estava na palavra, na escrita, – para os regionalistas, na memória, transformando-se em porta-vozes de uma realidade social e histórica vivenciada por eles, “Uma vez que cada ser humano espelha o mundo e os mundos nos quais nasceu, viveu e vive” 60, pois “escrevendo sua história ele acaba fornecendo um testemunho aos outros”, fornecendo elementos para a reconstituição de contextos culturais, modos de sentir e interpretar e descrever experiências vividas por um grupo. Por isso se faz tão necessário o entendimento do papel da escrita memorialística no âmbito do movimento regionalista, no processo de constituição do Nordeste da tradição. Por isso esse gênero de escrita foi eleito por Gilberto Freyre o veículo legítimo de disseminação e consolidação do ideário regionalista e tradicionalista, tendo ele estimulado a produção de livros como Menino de engenho,

Memórias de um senhor de engenho, e até mesmo de Imagens do Ceará-Mirim, o livro

de memórias publicado por Nilo Pereira já no final da década de 1960, período em que a amizade e identidade intelectual entre os dois já tinham bases solidificadas.

A década de vinte, segundo o historiador Durval Muniz, “é a culminância da emergência de um novo regionalismo, que extrapola as fronteiras dos Estados, que busca o agrupamento em torno de um espaço maior, diante de todas as mudanças que estavam destruindo as espacialidades tradicionais” 61. Esse novo regionalismo tomava como referência, como centro do país, o espaço de onde se fala, apontando as práticas realizadas em cada lugar como os elementos diferenciadores do espaço maior que se

       60 OLMI, Alba. Memória e memorialismo.

denominava de região. Caía por terra a antiga divisão entre Norte e Sul que delimitava o país. A crise vivenciada pelos produtores que ocupavam o antigo Norte, desde o século XIX, que se viam subjugados frente à industrialização do Sul, impunha uma necessidade urgente da organização e legitimação do Nordeste como uma unidade política, econômica e cultural. Essa necessidade de organização e legitimação acaba por aproximar as diferenças existentes entre cada estado que formaria a região Nordeste, o que garantiria a unidade desejada.

No nordeste brasileiro, região surgida, segundo Durval Muniz, como um espaço simbolicamente instituído, assentado no discurso da tradição e da saudade, materializado a partir de símbolos e discursos que além de criar uma identidade para a região delimitava também suas fronteiras, o movimento regionalista aparece como um veículo de resgate e preservação da tradição dos costumes e valores que deram forma à região. Na verdade, o espaço instituído como região Nordeste era um pedaço do antigo norte, que desde a primeira década do século XX lutava para se definir como região, firmando-se no discurso da diferenciação em relação ao Sul.

As sementes do regionalismo-tradicionalista lançadas no início da década de 1920 por nomes como Aníbal Fernandes, Mário Melo, Luís Cedro, Mário Sette 62, entre outros, germinaram com vigor na intelectualidade nordestina. O ideólogo do regionalismo tradicionalista, que organizou e fortaleceu as vozes dispersas que reclamavam as tradições perdidas, nunca deixou que elas atrofiassem, inspirando diversas obras de caráter regionalista e nostálgico. Segundo ele, “intelectuais e artistas de gerações já posteriores à dos ‘Regionalistas’ do Recife [...] se ergueram revolucionàriamente a favor de uma valorização de temas regionais” 63, como Lula Cardoso Ayres, Mauro Mota, entre outros.

Naqueles anos em que a cidade do Recife foi sacudida pelo regresso do jovem Gilberto Freyre e pelo movimento regionalista também teve início a amizade entre o pernambucano e o escritor José Lins do Rego, fator decisivo na vida intelectual do autor de Menino de engenho. Segundo Durval Muniz, José Lins fez na literatura aquilo que Freyre vinha fazendo na sociologia. As idéias regionalistas de Freyre são materializadas na literatura de José Lins e de um grupo de nordestinos ciosos dos valores da sociedade

      

62 AZEVEDO, Neroaldo Pontes de. Modernismo e regionalismo: os anos 20 em Pernambuco. 2. ed. Recife: Editora

Universitária da UFPE, 1996.

dos engenhos. Na introdução de Mauro Mota à segunda edição do Livro do Nordeste, de 1979, promovida pelo Arquivo Público estadual de Pernambuco, do qual ele era diretor, o jornalista e poeta pernambucano, ao se referir aos efeitos do movimento regionalista de Freyre, afirma que

Sem esses rumores para acordar paisagens, costumes, canaviais, águas, chãos, cores e cheiros, talvez não tivessem existido os romances do ciclo de cana-de-açúcar de José Lins do Rego, as

Memórias de um senhor de Engenho, de Júlio Belo, os poemas de

Ascenso Ferreira, os estudos sócio-antropológicos de Gonçalves Fernandes e René Ribeiro, a pintura da primeira fase de Cícero Dias, e a atual de Lula Cardozo Aires 64.

Mauro Mota, que também era amigo de Gilberto Freyre, continua enumerando os nomes e trabalhos nordestinos que sofreram influência direta do regionalismo de Freyre. Ele afirma, no entanto, que o grande mérito do amigo foi o impulso, o incentivo dado a essas vozes que já clamavam pela conservação das tradições do Nordeste, ou seja, ele apenas organizou vozes dispersas de forma que dessem forma a uma unidade inteligível e sólida. Antes de Mauro Mota, o próprio Freyre se instituiu como líder do movimento regionalista, adotando o método de enumerar os nomes em torno dele como uma estratégia de auto-afirmação 65, assim como Mota o fez no trecho anterior. No entanto, ele se apressa em dizer que Freyre não foi o criador do desejo de preservação das tradições nordestinas, mas o animador desse sentimento:

Não é que esses escritores e artistas pernambucanos ou de formação pernambucana ficassem silenciosos ou inativos sem o impulso que os conduziu a uma temática regional. Nem que, por recebê-lo, contorcessem ou perdessem a expressão individual. É que, recebendo- o, mantiveram-se mais fiéis às fontes do Recife e da Região 66.

Ele afirma ainda, referindo-se à controvérsia que envolve o Manifesto

Regionalista de Gilberto Freyre, que o Livro do Nordeste talvez tenha sido o verdadeiro

manifesto, surgido um ano antes do evento de 1926. Podemos firmar que era a primeira materialização da união de esforços em prol do regionalismo freyreano e nordestino, a primeira grande mostra do mundo que se queria despertar do sono dos mortos. A sociedade dos engenhos, seus costumes, paisagens e tradições aparecem em cada texto

      

64 MOTA, Mauro. Introdução. In.: FREYRE, Gilberto (org.). Livro do Nordeste. 2. ed. Recife: Arquivo Público,

1979.

65 Ver: FREYRE, Gilberto. Manifesto regionalista. 4. ed. Recife: Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais –

MEC, 1967.

ali publicado como um alerta àqueles que permitiam que esse mundo sucumbisse, verdadeiros manifestos.

Em um dos artigos de Freyre publicados naquele livro, intitulado “Vida social no Nordeste - aspectos de um século de transição”, podemos ouvir as palavras de alerta do jovem que regressava à sua terra decidido a recuperar os costumes e tradições que julgava por lá ter deixado antes de embarcar para os Estados Unidos, em 1918. Para Freyre, “Comparando o Nordeste de 1825 com o de 1925 tem-se quase a impressão de dois paizes diversos. A propria paizagem, o proprio physico da região, alterou-se profundamente. E’ outra, a crosta. Outra, a physionomia” 67. Mostrava ainda seu ressentimento em relação às usinas que tomavam o lugar dos engenhos e às avenidas que rasgavam a velha cidade do Recife: “Perdeu a paisagem aquelle seu ar ingênuo dos flagrantes de Koster e de Henderson para adquirir o das modernas photografias de uzinas e avenidas novas” 68. O Nordeste do açúcar se transforma então no mundo da

infância, o mundo que precisava ser preservado, inspiração de uma literatura memorialista, confessional e regionalista.

Benzer Belgeler