Olgu 6. 61 yaşında Akciğer Ca tanılı hastanın kemik metastazı izlenmeyen kemik sintigrafi görüntüsü (tALP: 61, bALP: 9.3)
3. TARTIŞMA VE SONUÇ
O Projeto para uma psicologia científica data de setembro de 1895, tempo em que Freud estava no caminho de sua descoberta. Neste texto, encontra-se a primeira formulação freudiana do aparelho psíquico. Em 1895 não havia teoria do neurônio, e as idéias freudianas sobre a sinapse são absolutamente inovadoras por serem tributárias da ruptura de continuidade entre duas células nervosas (LACAN, 1985[1955], p.130). O fato de Freud ter originalmente
proposto uma teoria que considerou tal ruptura de continuidade entre os neurônios pode ser tomado como indicativo da sensibilidade freudiana para acolher, mesmo em suas formulações teóricas mais incipientes, considerações concernentes ao papel da descontinuidade no funcionamento do aparelho psíquico. Nesse sentido, pode-se dizer que a inclusão de tais considerações, em suas formulações mais inaugurais, permitiu a Freud criar o solo fecundo sobre o qual a psicanálise veio posteriormente a florescer.
Além disso, há ainda outros elementos que permitem inferir a presença de considerações profícuas sobre o modo de funcionamento do simbólico nas formulações freudianas mais primitivas. Segundo o primeiro esquema freudiano do aparelho psíquico35, as contribuições quantitativas do mundo exterior provêm do sistema φ (phi), sensível à excitação, e tudo que é percepção, e não excitação, ocorre no sistema (gama), sendo que o que vem do mundo exterior provém de φ por intermédio de (psi). Esta interposição do sistema , presente nessa primeira formulação freudiana do aparelho psíquico, pode ser considerada um indício da importância conferida por Freud, desde o início, ao sistema simbólico no funcionamento mental. Ernst Cassirer (1994[1977], p.49) afirmou ser a interposição deste sistema no esquema simples do arco-reflexo, segundo o qual a uma estimulação corresponde uma resposta, a característica capaz de distinguir, de forma radical, o ser humano das outras formas de vida existentes na natureza. Nesse sentido, pode-se dizer que Freud já se encontrava, mesmo nessas primeiras formulações, trilhando o caminho que o conduziu a formular a teoria psicanalítica em toda sua especificidade e correlativo potencial subversivo.
Lacan (1985[1955], p.279-280) chamou atenção para o fato de que a experiência freudiana, desde o Projeto, começou por estabelecer um mundo do desejo, que constitui o mundo da experiência freudiana. Ele enfatizou que “o mundo freudiano não é um mundo das coisas, não é um mundo do ser, é um mundo do desejo como tal” (1985[1955], p.280). Nos anos de 1950, foi constatada, no que se refere à técnica analítica, uma tendência a fazer da relação objetal um molde da adaptação do sujeito a seus objetos. Na perspectiva clássica, há coaptação entre o sujeito e o objeto, mas é em um registro de relações completamente diferente que o campo da experiência freudiana se estabeleceu, pois o desejo é uma relação entre ser e falta. Falta de ser, mais precisamente, sendo que o ser se coloca a existir em
decorrência dessa falta. Nas palavras de Lacan,. “[...] falta de ser através do que o ser existe” (1985[1955], p.280).
O desejo, função que pode ser considerada central na experiência humana, é desejo de nada que possa ser nomeado, e é isso que sustenta toda e qualquer animação. Na falta de ser, o sujeito se dá conta de que o ser lhe falta, e que está em todas as coisas que não sabem que são. Ainda que o sujeito saiba que é, não sabe efetivamente nada daquilo que é. Na perspectiva lacaniana, isso é o que falta em qualquer ser (1985[1955], p.281). As relações entre os seres humanos são estabelecidas para aquém do campo da consciência. É o desejo como inconsciente que estrutura, primitivamente, o mundo humano. Com relação a isso, Lacan afirmou que “o desejo de que se trata, mesmo aquele que se diz não ser elaborado, já está para além da coaptação da precisão. Até mesmo o mais simples dos desejos é muito problemático” (1985[1955], p.285).
No que concerne ao desejo, já em 1895, Freud, ao afirmar a impossibilidade de satisfação por meio do estabelecimento de uma identidade perceptiva com o objeto primário de satisfação, colocou em cheque a correspondência entre o objeto que se apresenta e as estruturas já constituídas no eu. Diante dessa impossibilidade, restaria o recurso ao estabelecimento de uma identidade de pensamento com a experiência de satisfação original. Nesse contexto, toda a atividade de pensamento, por ser considerada apenas substituta de um desejo alucinatório, foi concebida como acesso indireto à realização de desejo. Conforme afirmou Lacan (1985[1955], p.130-131), Freud, dessa maneira, distinguiu, radicalmente, duas estruturações da experiência humana: a da reminiscência, que supõe uma harmonia entre o homem e seu mundo objetal; e a da repetição, da conquista e estruturação do mundo através de um esforço de trabalho. O que se apresenta ao ser desejante coincide, apenas parcialmente, com o que já lhe proporcionou satisfação, e, por isso, ele se coloca a buscar e a repetir indefinidamente sua procura. É somente pela via de uma repetição que o objeto é encontrado e estruturado. Reencontrar o objeto equivale a repetir o objeto, com a ressalva de que o sujeito nunca encontra o mesmo objeto. Por essa razão, ele vive a engendrar objetos substitutivos.
A função da repetição, portanto, estrutura o mundo dos objetos. O mundo humano é aberto a uma multiplicidade de objetos que, em sua função radical de símbolos, não guardam mais relações imediatas com objetos, já que tudo é mediado pela função simbólica. A redescoberta do objeto, via repetição, é condição estrutural da constituição do mundo objetal
no homem. Contudo, apesar de enfatizar a questão da relação objetal, já nesse momento tão incipiente de sua teorização, Freud não considerou ainda a referência ao outro, também essencial para a estruturação do objeto. Nesse contexto, a descoberta do narcisismo adquiriu, para Lacan, todo o seu valor pelo fato de não ter sido percebida por Freud nesse momento. No que concerne à presença dessas duas tendências no funcionamento do aparelho psíquico, uma restitutiva e outra repetitiva, Lacan afirmou que
O organismo, já concebido por Freud como uma máquina, tem tendência a retornar ao seu estado de equilíbrio – é o que o princípio do prazer formula. Ora, numa primeira abordagem, esta tendência restitutiva, no texto de Freud, se distingue mal da tendência repetitiva que ele isola, e que é o que ele introduz de original. Perguntamo-nos, pois, o seguinte – o que distingue estas duas tendências? [...] Freud retorna perpetuamente a uma noção que parece escapar-lhe sempre. Ela resiste, mas ele não se detém, ele busca a todo custo manter a originalidade da tendência repetitiva. Sem dúvida alguma, algo lhe faltou da ordem das categorias ou das imagens para que ele conseguisse fazer-nos senti-la convenientemente (1985[1955], p. 106).
Ao longo das quatro etapas do pensamento freudiano, delimitadas por Lacan no
Seminário II (1985[1955], p.137), as dificuldades e os impasses com que Freud se deparou
foram reproduzidos, a cada vez, em uma disposição modificada. As mesmas antinomias persistiram sob formas transmutadas, e Lacan as perseguiu a fim de permitir o surgimento da autonomia da ordem própria daquilo com que Freud se defrontou e se esforçou por formalizar. Trata-se da ordem simbólica, em suas estruturas próprias e em seu dinamismo, em sua forma particular de intervir, a fim de impor sua economia autônoma à vivência do ser humano. Lacan designou a originalidade da descoberta freudiana através disso: Freud localizou e delimitou, na experiência humana, um ponto exterior que não está no homem, mas alhures. À medida que sua obra se desenvolveu, ele se viu constantemente convocado a restaurar esse ponto excêntrico. E Lacan procurou reencontrar, no texto freudiano, as etapas de tal progresso (1985[1955], p.150).
Por ocasião do Projeto, Freud definiu o princípio de prazer como um princípio de constância. Com relação a essa pretensa função homeostática, Lacan indagou: “por que será que o sistema recalcado se manifesta com [...] insistência? Se o sistema nervoso é destinado a alcançar uma posição de equilíbrio, por que será que não consegue?” (1985[1955], p.87). Freud, no Projeto, tentou mostrar que o cérebro funciona como órgão tampão entre o homem e a realidade – como órgão de homeostasia, portanto. Mas ele tropeçou no sonho, e se deu conta
de que o cérebro é uma máquina de sonhar. Conforme salientou Lacan (1985[1955], p.101- 102), aí Freud pôde reencontrar a idéia de que é no nível mais inconsciente que o sentido e a fala se revelam. Ele descobriu o funcionamento do símbolo como tal, e a revolução do seu pensamento, que teve lugar com A interpretação dos sonhos (1900), deve-se a isso. Era preciso que ele se posicionasse diante dessa descoberta, aceitando-a ou desconhecendo-a. Isso constituiu uma virada tal que Freud não pôde saber, naquele momento, o que estava acontecendo. Foi necessário um percurso de cerca de 20 anos para que ele pudesse retomar suas premissas e, assim, tentar reencontrar o que essa descoberta do símbolo funcionando como tal significava no plano energético. Para Lacan, foi isso o que impôs a Freud a elaboração inédita do além do princípio do prazer e do instinto de morte. Além da referência do homem a seu semelhante, há constituição de um terceiro termo, onde, a partir de Freud, encontra-se o eixo da realização do ser humano.