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Em 1938, O Secretariado da Propaganda Nacional (SPN) organizou o concurso da Aldeia mais Portuguesa de Portugal, “visando mostrar, e ajudar a encenar, as tradições populares do país a partir de algumas povoações selecionadas para o efeito”. Em setembro desse ano uma caravana do SPN atravessou o país visitando e avaliando diversas povoações para eleger a “mais portuguesa”. “Transformadas em autênticos frescos da vida campesina, as aldeias foram palco de um vasto conjunto de demonstrações e encenações da arte e dos costumes populares a que os visitantes assistiram deslumbrados”.129

É possível que o concurso criado pela Diamang tivesse tomado como referência aquele organizado na metrópole no final da década de 1930, no entanto, os seus propósitos eram completamente distintos. Enquanto o concurso da Aldeia mais Portuguesa de

127 Relatório Anual do SPAMOI de 1937. P.6. 128 CLEVELAND, Todd. Rock Solid. Op.Cit; P.217.

129 ALVES, Vera Marques. Arte Popular e Nação no Estado Novo. A política folclorista do Secretariado

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Portugal buscava premiar aquelas em que os “costumes populares” estivessem preservados, no concurso da Lunda era o oposto, pois conforme afirma Nuno Porto, “não se trata, nesse concurso, de premiar qualquer aldeia mantida em condições aparentes pré-coloniais, mas, pelo contrário, de premiar a apropriação nativa das aldeias da Companhia segundo as diretrizes do SPAMOI”.130

A Festa da Melhor Aldeia consistia em premiar uma aldeia que era supervisionada pelo SPAMOI. Essas povoações eram destinadas à população de trabalhadores e o prêmio era concedido àquela que apresentasse melhores condições de higiene, salubridade, arborização e manutenção, de acordo com os critérios estabelecidos pelo próprio Serviço de Propaganda e Assistência à Mão de obra Indígena. A ideia era que esses locais passassem por um processo de assimilação dos costumes europeus, uma vez que as premiadas seriam aquelas mais próximas do modelo ocidental de habitação e higiene.

A festa de premiação da melhor aldeia consistia no oferecimento de um prêmio ao soba responsável, que habitualmente contava com peças de vestuário, incluindo muitas vezes uma medalha entregue de forma solene; o erguimento de um mastro simbólico da figura de um boi feita em chapa de ferro; um boi; diversos gêneros alimentícios para a comemoração, que incluía vinho, cerveja e tabaco. Em 1951, a aldeia vencedora foi a do soba Saquemba, da região de Maludi. Segundo consta no relatório das Grandes Festas Anuais desse ano,

O Saquemba, trajando a rigor, revia-se, orgulhosamente na sua aldeia e, sobretudo, na sua bela casa, - com uma porta e uma janela – digna de um grande senhor.No domingo as festas e as danças continuavam. Chegavam assistentes para a cerimônia da colocação do mastro simbólico; chegavam brancos que, também, vinham assistir. Finalmente efetuou-se a implantação do mastro simbólico, no meio do entusiasmo geral. Veio depois o boi verdadeiro, talvez mais desejado do que o do mastro; pelo menos certos olhares e expressões assim nô- lo fizeram suspeitar... O Saquemba, com o seu típico chapéu, no meio dos outros sobas seus convidados, que muito o felicitaram, estava radiante! Depois foi o assalto ao boi, devorado num ápice! Os sobas comeram e beberam; toda a gente comeu e toda a gente bebeu; houve barafunda e confusão!131

Em 1957, a aldeia ganhadora foi a do soba Baraca:

130 PORTO, Nuno. Modos de Objectificação da dominação colonial. Op. cit. P.465. 131Relatório das Grandes Festas Anuais Indígenas de 1951. P.36

77 Pela primeira vez foi escolhida uma aldeia fora da área do Posto de Cambulo, por se atender à circunstância de se encontrarem sete minas na margem direita do rio Luembe, demonstrando, assim, aos sobas que todos eles poderão vir a ser premiados, desde que de tal sejam merecedores.132

Na festa de premiação do referido ano, “não faltaram os sobas mais importantes com seus familiares e amigos, para tomarem parte nos folguedos que caracterizam esta festa, como a corrida de bicicletas, luta de travesseiros e barracas de diversões, tanto ao gosto dos indígenas”.133 Segundo consta no relatório das Grandes Festas Anuais Indígenas do ano de 1957,

Todos os indígenas comeram e beberam do que se lhes ofereceu, mas alguns sobas não deixaram de se mostrar um tanto descontentes com a atitude egoísta, quanto a eles, do soba Baraca que não consentiu em partilhar o boi ... pois o prêmio fora “para ele e só para ele”. Como se sabe, tem sido costume, até agora, o soba vencedor, abater logo ali o boi, esquarteja-lo, assá-lo e come-lo.134

Mesmo com esse contratempo, durante a festa houve “a distribuição de muitos gêneros alimentícios, vinho, tabaco, espelhos, fósforos, sabonetes e 300 rações de carne, e a festa prolongou-se pela noite afora, ao som dos tambores e do alarido do batuque em honra da melhor aldeia de 1957”.135 A escolha de um boi como a premiação principal também não era aleatória, nem por acaso, daí o fato do soba Baraca, vencedor da Melhor Aldeia de 1957, ter impedido de compartilhar o prêmio com os convidados. Esse animal possuía um significado simbólico importante entre as populações de Angola, sendo para muitos povos um símbolo de riqueza e poder dos seus proprietários.136 Na região da Lunda, o significado do boi como símbolo de riqueza está ligado à figura do comerciante, que muitas vezes percorria essa vasta área montado nesse animal. Os songo ficaram conhecidos por materializarem essa relação num tipo de escultura em madeira em que uma figura humana aparece montada em um boi. Essa

132 Relatório das Grandes Festas Anuais Indígenas de 1957. P.14 133Relatório das Grandes Festas Anuais Indígenas de 1957. P.15 134 Relatório das Grandes Festas Anuais Indígenas de 1957. P. 16 135Relatório das Grandes Festas Anuais Indígenas de 1957. P. 16

136 Sobre esse assunto consultar: CARVALHO, Henrique A. D. Expedição Portuguesa ao Muatiânvua.

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estatueta ritual, que era ainda acompanhada por outros elementos como pássaros ligados à fecundidade, era usada para propiciar o comércio com os europeus.137

Figura 2: Detalhe da aldeia do soba Baraca, vencedor do prêmio da Melhor Aldeia de 1957, onde é possível notar nas casas um padrão arquitetônico e a utilização de materiais na sua construção claramente ocidentais. Percebe-se também o padrão de salubridade e higiene desejado pela Companhia. 1957. Arquivo da Diamang. Acervo do MAUC.

Já em 1958, a aldeia vencedora foi a do sobeta Samuafo. Este chefe, auxiliado por seus súditos, “demoliu a antiga aldeia e construiu novas casas, quatro das quais cobertas com chapas de zinco e com os pisos construídos em cimento. O SPAMOI prestou-lhes eficaz assistência, dispensando-lhes pedreiros e carpinteiros e orientando os trabalhos de construção”.138Além do boi, Samuafo recebeu vários artigos de vestuários, tais como capacete, camisa, gravata, meias, um corte caqui para farda, itens que a Companhia sabia que eram bastante desejados por esses homens.

Durante a festa era comum também a distribuição de presentes para os convidados de objetos como espelhos, fósforos e sabonetes, itens aparentemente aleatórios, mas que simbolizam os valores civilizatórios a serem incutidos nas populações locais, como o de higiene. Também não era por acaso que a distribuição da premiação aos sobas se dava sempre na presença dos convidados, dentre eles autoridades da própria Diamang, além

137 Sobre esse assunto ver: BASTIN, Marie-Louise. Escultura Angolana. Lisboa: Electa, 1994. P.152- 153.

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de outros chefes da região. A ideia era mostrar aos outros chefes as muitas vantagens em ser um colaborador não apenas no recrutamento de mão de obra, mas também em colaborar com a concretização de um modelo civilizatório estabelecido pela Companhia, como é o caso da habitação. As chapas de zinco e a utilização do cimento no lugar do barro e da cobertura de fibras vegetais eram, nesse sentido, um importante exemplo do progresso alcançado por esses homens graças, obviamente, às ações da Companhia.

Apesar do SPAMOI realizar o trabalho de convencer os sobas a candidatarem suas respectivas aldeias e premiar esses homens com itens que a Companhia sabia que eram estimados, nem por isso esta era uma tarefa fácil, já que aceitar a candidatura significava cumprir os critérios orientados pela Diamang, o que muitas vezes esses chefes não queriam. As dificuldades em realizar a festa eram tantas que, ao contrário das outras festas anuais, esta não tinha uma data fixa para acontecer, pois “é uma realização que depende, especialmente, do estado do capim para a cobertura das casas e do trabalho dos sobas e seus familiares. Não estando, portanto, unicamente dependente da nossa vontade, esta festa tem de efetuar-se quando possível”.139

No relatório anual do SPAMOI de 1957, há uma tentativa de entender as dificuldades em realizar esse concurso. No documento consta que, enquanto se podia notar melhoria no nível de vida do indígena no que diz respeito ao vestuário, alimentação e também na incorporação de objetos como bicicletas e máquinas de costura, não parecia haver por parte das populações qualquer preocupação com a habitação, que em geral não possuía janela e raramente passava por alguma manutenção ou melhoria. Dentre os fatores que explicariam tal descaso estaria a impossibilidade das pessoas adquirirem materiais para melhorar as casas e também a falta de pessoal para fazer o serviço, pois a maioria dos homens estava comprometida com o trabalho na Diamang. Por isso, a Companhia passou a ceder pedreiros para ajudar nas reformas e a fornecer materiais para as habitações cujos donos demonstrassem interesse.140

O que a Diamang não levou em consideração ao analisar o fracasso na tentativa em adequar as habitações aos padrões estabelecidos pelo SPAMOI por parte dos sobas é que estas aldeias eram controladas e vigiadas com rigor. Muito diferente das aldeias

139 Relatório das Grandes Festas Anuais Indígenas de 1951. P.2. 140 Relatório Anual do SPAMOI de 1957. P.50.

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localizadas nas áreas mais distantes do controle da Diamang, que foram construídas levando em consideração padrões arquitetônicos próprios e que estavam ligadas à história e trajetória dos antepassados e dos próprios moradores. Nesse sentido, Leila Leite Hernandez aponta como o confisco de terras foi uma das maiores agressões às suas cosmogonias, o que nos ajuda a compreender o fracasso da Festa da Melhor Aldeia:

(...) os chefes de terra eram as chefias tradicionais mais comuns exercidas nos “territórios linhageiros”, espaços geográficos constituídos por aglomerados populacionais formados por muitos grupos de familiares com afinidades culturais comuns (tradições, costumes, hábitos, língua e, por vezes, religião). Simbolicamente, o território linhageiro significava o espaço de ligação entre os seres vivos, os mortos e os ainda por nascer. Envolvendo a metáfora de tudo o que já foi realizado e o que virá a ser, encerra um sentido de continuidade que sustenta e reforça o coletivo.141

A pouca adesão dos sobas naFesta da Melhor Aldeia parece ter sido um problema não apenas em um momento específico, mas durante toda a existência do concurso. No relatório da SPAMOI de 1962, ou seja, mais de dez anos após a sua criação, relata-se que:

Relativamente ao que se diz das dificuldades em interessar os sobas, de maneira efetiva, no melhoramento das suas aldeias, e, consequentemente, realizar a Festa da Melhor Aldeia em perfeita concordância com os seus objetivos, reconhecemos que o problema tem certas arestas, e que a ideia é difícil de levar a efeito nos moldes de rigor que seriam para desejar. Mas foi sempre assim; por isso, entendemos que é de manter a tradição. De resto, o caminho indicado apresenta-se em distinguir, sucessivamente, com o nosso auxílio, os sobas que mais o mereçam e dar-se-lhes também um boi para que o “jantar” nesse dia seja mais farto, para habitantes e convidados da aldeia.142

Benzer Belgeler