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Conforme mencionado alhures, no modelo criado por Luhmann, há três categori- as de sistemas autopoiéticos, de acordo com o ambiente em que desenvolveriam suas operações auto-referenciais: o biológico (opera diretamente com o mundo fenomênico), o psíquico (opera pela consciência) e o social (opera mediante comunicações).

Da mesma forma, foi mencionado que o acoplamento estrutural seria a forma de relacionamento entre dois sistemas autopoiéticos, tomados do ponto de vista de um observador localizado externamente ao sistema, que pode verificar como sistemas que reproduzem suas próprias operações põem-se em relação com o ambiente. A evolução dos sistemas autopoiéticos é intimamente referente às relações mantidas entre sistema e ambiente, ou seja, da combinação entre autopoiese e acoplamento estrutural.

O acoplamento estrutural dos sistemas que processam sentido, como os siste- mas da consciência e comunicacionais, ou sistemas psíquicos e sociais, ocorre com exclusão de outros acoplamentos estruturais. Isto porque a comunicação é autônoma em relação ao mundo fenomênico, não havendo ligação direta entre os fenômenos físicos e a comunicação, porque apenas pode se dar por intermédio da consciência.

do ambiente é o filtrado e selecionado pelas estruturas dos sistemas, de acordo com o critério da conveniência dos efeitos a serem produzidos em seu interior. Em suas pala- vras68:

“En el caso del acoplamiento estructural entre sistemas psíquicos y sociales, la tesis fundamental es que los sistemas de comunicación (sociales) están acoplados a la conciencia y a ninguna outra cosa más. La comunicación es totalmente independiente con respecto a lo que acontece en el mundo: como los átomos evolucionan hasta llegar a convertirse en moléculas, o como el viento o las tormentas azotan el mar; o como es la forma visual u óptica de las palabras. Todo ello no juega ningún papel rele- vante para la comunicación, sino solo lo que la conciencia sea capaz de entremediar.(...)La conciencia es la única que puede tener capacidad de percepción y darse cuenta de lo que sucede en el mundo. La comunicación, en cambio, no puede percibir: transcurre en alguna medida en la oscuridad y en el silencio. Dado que es la conciencia la que percibe, se puede decidir a utilizar, en un momento dado, energia motora para hablar o escribir. La comunicación misma no puede ver, ni oír, ni sentir: no tiene ninguna capacidad de percepción.”

A linguagem, assim, permite que haja a interpenetração entre os sistemas psíqui- cos e sociais, atuando como meio para a expressão dos pensamentos, como também, meio para formular as comunicações dos sistemas sociais, pois pela linguagem objeti- va-se a percepção, de acordo com as notas selecionadas em relação ao mundo, sendo redutora de complexidades. A linguagem opera enquanto estrutura altamente seletiva, traduzida em símbolos, que permitem a produção de sentido ser duplicada pelos siste- mas psíquicos e sociais, pois a linguagem opera como seu acoplamento estrutural.

Assim, a evolução de um sistema social dá-se através de um processo em que as irritações não- comunicacionais do ambiente que atuam sobre o sistema social, são

filtradas duplamente pela consciência e pela verificação da possibilidade de comunica- ção. Nas interações mantidas entre os subsistemas sociais, ainda haveria um terceiro filtro, estabelecido pelas linguagens especializadas de cada qual69.

A consciência teria fundamental importância nesse contexto, na medida em que controlaria o acesso ao mundo fora da comunicação, em razão de sua capacidade de percepção, de filtros altamente seletivos que também seriam acoplados a processos neurofisiológicos que, por sua vez, dependeriam do acoplamento de outros sistemas autopoiéticos da vida.

Sob o prisma dessa teoria, constrói-se um modelo no qual visualizamos uma rede de relações entre diversos sistemas, acoplados estruturalmente, de forma que se relaci- onam mutuamente, com total dependência dos acoplamentos estruturais e, ao mesmo tempo, total autonomia de operações, cujo vetor é a diferença entre sistema e ambiente. O acoplamento estrutural entre sistemas de consciência e os sistemas de co- municação é realizado através da linguagem, que opera como veículo para a consciên- cia. Em outras palavras, a função da linguagem é operar como o acoplamento estrutural entre consciência e comunicação, ao mesmo tempo em que a linguagem é requisito para a autopoiese das comunicações, já que possibilita a estabilidade da recursividade de sentido nas operações comunicativas, ou seja, garante a permanência da circula- ção comunicativa.

Deve ser rememorado que Luhmann faz a distinção entre informação e ato de comunicar, pois a informação pode ser apreendida pela percepção ou interpretação de informações, que não sejam transmitidas por forma lingüística, como a linguagem corpo-

69 Sobre esses acoplamentos estruturais, diz Gunther Teubner: “O próximo monstro sistêmico - a diferenciação funcional –revela-se outro pesadelo, porque novamente altera drasticamente a situa- ção. A determinação de esferas de sentido autônomas na sociedade, sua constituição de acordo com cada um dos próprios códigos e programas, e especialmente seu fechamento mútuo permitem a elas um novo modo de lidar com a desconstrução. Um de seus efeitos é a sua imunização em relação a outros mundos de sentido e seus paradoxos. O sistema jurídico permanece indiferente ao paradoxo de Creta, declarando-o um problema que só interessa à lógica. No direito, a desconstrução somente conta mediante o paradoxo do direito, que ameaça a aplicação do código binário lícito/ ilícito.” (Direito, Sistema e Policontexturalidade, p.67).

ral. Apenas haverá comunicação se a percepção converter-se na distinção entre infor- mações ulteriores, podendo ser atribuída a um emitente. O enunciado lingüístico revela a intenção comunicativa, permitindo distingui-la de comportamentos voltados a outros fins. A linguagem viabiliza a comunicação, pois permite a sua compreensão, utiliza de mecanismos de generalizações simbólicas em forma de signos, que permitem a comu- nicação não somente do dato atual, mas também sobre possibilidades. Ademais, é arbi- trária, pois não há conexão entre o signo lingüístico e o conteúdo a que se refere, não havendo um motivo substancial que determine a utilização de determinada seqüência de signos, dissociando-se o conteúdo dos veículos que a transmitem, sendo por essa razão possível à linguagem referir-se a objetos abstratos, como a Justiça. Em outras palavras, não há ligação entre os signos lingüísticos e os objetos denotados, mas sim a univocidade entre informação e ato de comunicar, de forma generalizada.

Para cada enunciado positivo, é possível a formulação lingüística de sua negativa, de sorte que toda comunicação lingüística, implicitamente, possa fazer remissão ao pos- sível enunciado oposto, assumindo a comunicação a forma de diferença entre duas pos- sibilidades opostas. Por essa razão, a linguagem pode comunicar todos os conteúdos, permitindo estabelecer um mecanismo de evolução da sociedade.

Ainda que a linguagem seja a unidade constitutiva da autopoiese da comunica- ção, não conforma por si própria um sistema comunicativo autopoiético, sendo hábil apenas a conformar efeitos secundários na comunicação. Opera como meio pelo qual sistemas autopoiéticos estruturam suas operações e estabelecem a sua reflexividade, mas por si, não realiza operação específica que a diferencie do ambiente.70

70 Diz Luhmann: “En resumen, la teoría debe dejar en claro que el lenguaje no es ningún sistema, porque no posee una forma específica de operación. La operación del lenguaje le adviene o por la comunicación o por una realización de conciencia que introduce en lenguaje la forma del sentido. Es evidente que se pueden efectuar procesos de atribución a la acción en el lenguaje en el sentido de que se sabe a quién se debe preguntar cuando algo no se há entendido, o cuando es necesario adjudicar a alguien responsabilidad, o cuando es menster contradecir a alguien. Todo esto es cierto, pero son fenómenos secundários de la autopoiesis de la comunicación, pero no su unidad elemental, basal, constitutiva.” (Introducción a la teoría dos sistemas, p.213).

Com essa assertiva, não se quer negar que a linguagem seja dotada de sistematicidade e organização, porém não no sentido de um sistema autopoiético, que executa uma função específica, em relação ao seu ambiente. A linguagem é mecanismo do qual se servem os sistemas autopoiéticos de sentido, sendo fundamental para viabilizar o fechamento operacional, pois termos lingüísticos são constituídos como articulações internas dos sistemas psíquicos e sociais.

Segundo Luhmann, haveria uma tendência atual de se traçar um paralelo entre a teoria da cibernética de segunda ordem e a teoria semiótica, em que haveria a fusão de uma semiótica de segunda ordem com cibernética de segunda ordem, em que há obser- vação de observações71.

Na assim denominada de semiótica de segunda ordem, quando se diz que al- guém confere significado, há referência da distinção entre significante e significado, de forma que quem confere significados, o faz de maneira reflexiva, em nível de segunda ordem. A distinção entre significante e significado seria estruturada na forma de re-entry. A tríade semiótica, em que o signo seria composto de significante, significado e significação, compondo-se dos planos sintático (estrutura do signo), semântico (âmbito do designado) e pragmático (direcionado aos utentes da linguagem), seria relida, nos termos da teoria dos sistemas, nos conceitos de Spencer Brown de distinção/indicação e re-entry. Ademais, à Semiótica seriam agregados os conceitos de acoplamento estru- tural, dos efeitos de inclusão/exclusão, do aumento do potencial de complexidade.72

71 Introducción a la teoría dos sistemas, p.215.

72 Sobre a utilização da teoria dos sistemas autopoiéticos para a compreensão da hermenêutica jurídica, José Maria Arruda de Andrade: “Nesse sentido, a teoria biológica autopoiética se filiaria a corrente teórica que pretende romper com a tradição da linguagem como representação e com a noção de que o processo de conhecimento é o de captação de realidades exteriores.

A diferença reside no fato de a teoria autopoiética chegar a tal ponto, sobretudo diante de uma releitura da noção de sistema nervoso, rompendo com a tradição que considerava partícipe de um processo de inputs e outputs. ´O fenômeno interpretativo é a chave central de todos os fenômenos cognitivos naturais, incluindo a vida social. O significado surge em referência a uma identidade bem definida, e não se explica por uma captação de informação a partir do exterior’ [VARELA, 1997:48].” (Interpretação da Norma Tributária, p.145).

Com efeito, frise–se que, de acordo com essa abordagem, a linguagem não guar- da conexões com o ambiente, sendo indiferente às operações que correm no exterior do sistema, além de operar como produtora e reprodutora de diferença, sendo dotada de mecanismos de auto-controle, em que disponibilizaria as palavras relevantes para a pró- xima operação, os possíveis estabelecimento de referências, signos e significados ne- cessários para a reprodução da linguagem.Tudo isso implicará que não há revelação de sentido pela linguagem, pois esta não toca o dado real.

Benzer Belgeler