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A agressão, na época, já não é socialmente aceita, não faz parte das boas maneiras e contradiz o direito. Boas maneiras e direito são termos que nos remetem às idéias de moral e asco. Além disso, a repressão social à violência ocorre em um período extremamente produtivo, a Renascença, que atribuiu ao período que a antecede o termo “médio” para indicar que, além do obscurantismo, serviu apenas para separar os clássicos dos renascentistas. Moral, asco, repressão e produção intelectual e artística são termos que merecem destaque.

A descrição da psique do homem moderno está intimamente vinculada a esses termos. Os entraves das pulsões são descritos como asco, vergonha e exigências de ideais estéticos e morais. As pulsões que são desviadas de seus fins podem se orientar para novas metas, tornando-se poderosos componentes para todas as realizações culturais, o que também recebe o nome de sublimação. (Freud, [1905], p. 166). Não se pode afirmar que tais processos só ocorreram a partir de então, mas as novas instituições revolucionaram a

interioridade daqueles que viviam sob suas condições, generalizando uma nova forma de ser humano.

A pulsão agressiva aproxima-se da noção mais geral de barbárie. Freud, antes de usar o termo pulsão de destruição, descreve uma pulsão não elementar e não exclusivamente subordinada à sexualidade. Ele a denominava “pulsão de saber” e a considerava uma forma sublimada de dominação (Idem, p. 182).

Ainda nos “Três ensaios”, uma nova força do recalque é descrita: a compaixão (Idem, p. 217). Para compreender o mecanismo da compaixão, ou piedade, deve-se recorrer a um outro escrito de Freud, “Os instintos e suas vicissitudes”, no qual afirma que os sentimentos de piedade não podem ser descritos como sendo o resultado de uma transformação do instinto que ocorre no sadismo, mas carecem da idéia de uma formação de reação contra esse instinto (Freud, [1915a], p. 150). A pulsão sádica, correspondente à idéia de dominação, está na base da formação reativa que dá origem à compaixão. A formação reativa é um contra-investimento de um elemento consciente, de força igual e de direção oposta ao investimento inconsciente (Laplanche e Pontalis, p. 200). O que significa que elementos conscientes participam do processo de recalque da agressividade. A formação reativa pode dar origem à exigência de justiça, de tratamento igual para todos (Freud, [1921], p. 152).

Pode-se avançar ainda mais na composição dos elementos que constituem o recalque, que são fundamentais na formação do caráter. Numa descrição do quadro da neurose obsessiva, que pode servir de modelo para a compreensão da normalidade segundo critérios da própria psicanálise, pode-se verificar a relação entre a tendência sádica, a formação reativa e o sentimento social. Uma tendência sádica pode ser reprimida e não resultar em sintoma, mas sim numa formação reativa que intensifica seu oposto. Nesse ponto, porém, o reprimido volta como ansiedade social, ansiedade moral ou auto- censura (Freud, [1915b], p. 181).

Além das forças que compõem o recalque e da formação de um sentimento social, falta um elemento que dê algum significado à aceitação dessa restrição, que parece ser justificável também por sua racionalidade, por

sua possibilidade de prover o indivíduo. A identidade nacional parece ser o termo que representa esse elemento, já que se encaixa muito bem no contexto. As identificações existentes na nova sociedade não podem ser explicadas apenas pelo limite da agressividade e pela compaixão. Robertson Smith, citado por Freud em uma nota de rodapé, afirma que essas identificações repousam no reconhecimento da posse de uma substância comum (Freud, [1921], p. 139), que estabelece um contato afetuoso entre os que a compartilham, defletindo o desejo entre amigos e admiradores mútuos, o que resulta em sublimação, no “amor paulino” (Idem, p. 174).

A relação entre a organização social e o caráter foi indicada pelo próprio Freud. Ao comentar o desenvolvimento da civilização, afirma,

... podemos caracterizar esse processo referindo-o às modificações que ele ocasiona nas habituais disposições instintivas dos seres humanos, para satisfazer o que, em suma, constitui a tarefa econômica de nossas vidas. Alguns desses instintos são empregados de tal maneira que, em seu lugar, aparece algo que, num indivíduo, descrevemos como um traço de caráter (Freud, [1930], p. 117).

Se Freud realmente está descrevendo a civilização moderna, como afirma Birman, a leitura freudiana sobre o sujeito na cultura é uma elaboração psicanalítica sobre os impasses do sujeito na modernidade (p. 10); os traços exigidos por essa modernidade, como parcimônia (ato de poupar), ordem e limpeza, as quais podem ser intensificadas até se tornarem acentuadamente dominantes e produzirem o que se chama de caráter anal (Freud, [1930], p. 117).

A racionalidade descrita por Weber pode ser ilustrada, nessa abordagem psicodinâmica, como expressão do domínio da pulsão de destruição. O instinto de destruição, moderado e domado, e, por assim dizer, inibido em sua finalidade, deve, quando dirigido para objetos, proporcionar ao ego a satisfação de suas necessidades vitais e o controle sobre a natureza (Idem, p. 144). Essa afirmação corrobora a tese da sublimação da pulsão de morte, se entendermos que o controle sobre a natureza reforça e coincide com o “novum organum” de

Francis Bacon, o “primeiro dos modernos e último dos antigos”, “inventor do método experimental”, “fundador da ciência moderna e do empirismo”, segundo Diderot (Bacon, 1999, p. 5).

O estabelecimento da moral é constituído por dois movimentos: a frustração do instinto agressivo e ser amado. Este último fator dirige a agressividade para dentro do indivíduo, criando a instância moral do superego. Em uma fase intermediária, o estado de “má consciência”, o indivíduo só sentirá culpa na presença da autoridade, apesar de já haver conhecido os valores de bem e mal como correspondência ou não do amor pela pessoa de quem depende. O superego, portanto, só se estabelece, quando a autoridade é internalizada.

Benzer Belgeler