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Porque não lhes é mais permitido agir supremamente com a preocupação fatal de se destruir por seu semelhante, porque a riqueza inerte deles os freia e aprisiona; os homens de hoje o instinto enfraquecido, perdem, mesmo se conservando vivos, até a poeira de seus nomes.

René Char

Na sociedade de soberania, o poder exercido sobre os potenciais revoltosos crianças e jovens filhos de escravos reafirmava a imposição de castigos físicos públicos. O suplício no tronco marcava a pele de quem desrespeitava a lei do senhor e exibia aos outros escravos o inevitável depois de um simples desacato ou da cisma de seu proprietário. Na sociedade disciplinar, a tecnologia de exercício do poder opera pela lógica de confinamento dos corpos para extração de produtividade econômica e docilidade política, compondo uma anatomia política do corpo. As crianças enviadas para fábricas no começo do século XX ou para as intuições para internação de jovens nos governos ditatoriais ou democráticos vivem efeitos dessa continuidade produtiva. A prisão moderna chega e expressa, enfim, sua positividade, como imagem do medo a ser evitada pelos cidadãos normais (Foucault, 2002b).

Hoje, as ruas não parecem ser mais o lugar das revoltas, das insurreições. Caminhado ou rodando de carro, ônibus, metrô pelas ruas de uma metrópole como São Paulo é possível dizer que a cidade carcerária da sociedade disciplinar, metamorfoseou- se em cidade campo de concentração, da sociedade de controle?

Nas ruas do centro velho da cidade de São Paulo, crianças, jovens e pessoas maduras vagam como mortos-vivos entre policiais, algemas, armas, câmeras, arame farpado, concertinas, seguranças privadas dos prédios, bares e baladas funcionando dia e noite. Nada pode parar. Segundo Zygmunt Bauman (2005) compõem o lixo humano, as vidas desperdiçadas; segundo eles mesmos, são fodidos jogados nas calçadas, entupidos e entorpecidos pelo crack e a cachaça barata que circula aos montes. A esses desempregados, a maioria composta de egressos do sistema penal, destinam-se os programas de redução de danos, os pastores do Estado com suas fichas e formulários, os pastores evangélicos e católicos franciscanos que pregam entre os maltrapilhos, as

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políticas de revitalização urbana, tocadas por parcerias público-privadas que prometem acabar com mau-cheiro e o aziago para recuperarem o potencial financeiro dessa zona da cidade, inspirados em projetos estadunidenses e em outros exemplos de cidades modernas e seguras dos chamados países emergentes38.

Em meio a esse emaranhado de controles e parafernália eletrônica, as pessoas seguem apressadas e desatentas com seus celulares e aparelhos eletrônicos do momento enfiados nos ouvidos, desviando e esbarrando, desculpando-se ou menosprezando umas às outras, enojadas com o lixo humano das ruas ou mesmo muito apressadas para sentirem nojo.

Entre as favelas com seus becos, vielas e cantões as pessoas sobrevivem em meio a ação policial, os projetos sociais, a atuação de ONGs e o governo das empresas do tráfico. Entregam suas vidas aos pastores da ocasião venham eles na pele de líderes das igrejas pentecostais (a ostentação do luxo cafona nas periferias), na pele dos líderes de posses ou grupos de rap (como o mais ilustres deles, Mano Brown), na pele dos líderes comunitários (da vida real ou da novela), na pele do bem intencionado estudante universitário (mesma que ele esteja apenas trabalhando ou comprando alguma coisa), na pele do policial militar comunitário (mesmo que ele esteja armado), na pele do chefe do tráfico (mesmo que ele vá levar alguém à execução mais tarde), na pele do pastor da comunidade científica com os respingos ordinários da linguagem policial-acadêmica, enfim, uma pluralidade de pastores para todos os gostos, que mantém cada um no seu devido lugar e amando o lugar onde nasceu, dissolvendo potenciais singularidades.

Quando explode um motim, este é rapidamente acomodado, a convocação à colaborar com o ajuste da desordem vem imediatamente. O distúrbio abre caminho para que as lideranças-polícia do local ajam de imediato para sua contenção com novas- velhas políticas de controle formal ou informal. Assim, o governo, com policiais- assistentes sociais, ONGs, com projetos financiados por empresas e chefes do tráfico com autoridade reconhecida pela comunidade, não demoram em suprir a insatisfação

38 Evidências dessas ações são as recomendações regulares que circulam na imprensa para revitalização

do centro, combinando ação comunitária, investimentos privados e forte repressão policial sobre a área no entorno da estação da Luz do Metrô e da CPTM. Essas propostas estão de certa maneira sintetizadas na crônica “Entre o Bronx e a cracolândia” Gilberto Dimenstain, Folha de São Paulo, 04/01/2009, Caderno Cotidiano, p. C2 ou em “SP prevê para fevereiro ações para acelerar projeto ‘Nova Luz" na Cracolândia’,

Agência Estado, em http://noticias.uol.com.br/ultnot/agencia/2009/01/27/ult4469u36582.jhtm, consultado em 27/01/2009.

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dos “desordeiros” que, com a bagunça, dizem os especialistas, apenas expressam sua dupla condição de vítima, carentes, a um só tempo, de direitos e de assistência social39. E cada habitante, por não ter o que fazer, para defender o local e/ou por amor a quem manda entrega-se ao tumulto, à agitação, ao movimento. É preciso fazer algo, é preciso dizer algo. E fazer parte. Falar ao repórter, escrever na redação da escola, atender ao chamado do comando. Vivendo em tediosa e lucrativa “situação de risco”, pessoas alimentam ONGs, governos e empresas legais e ilegais para ocupar e eliminar corpos, corações e mentes. Entre assistências, polícias, fardas, tiros, fogo e tumulto, alguns pedem mais polícia de farda, outros querem a polícia da comunidade, governos e empresas complementam com polícia social: todos são policiais, todos querem polícia. Em meio ao pânico da tediosa guerra, seus soldados-alvo anunciam: “normal, tô acostumado”. De cima abaixo e de baixo para cima, seguem obedientes por amor, temor e costume. Matam e morrem; violentamente40.

No centro ou na periferia, as ruas da cidade, em um século, passaram de espaço do desgoverno e dos desgovernados, alvo das ações de governo e da repressão policial que começava pelas regulações e reclusões das crianças, para lugar governado por seus próprios habitantes distribuídos entre a pluralidade de pastores que fazem o sistema funcionar. E mais uma vez, isso se faz a partir da regulação e policiamante das condutas de crianças e jovens. O projeto Pró-Menino é apenas um frame desse DVD que compõe a história de caridades e crueldades da república que insiste em encarcerar e conter crianças e jovens projetando neles o perigo e o medo, sem querer notar suas potências de liberdade e revolta.

Contudo, há e haverá sempre uma criança que, sem domínio do funcionamento do programa, produz um vírus e contamina ou implode a programação. E neste momento, contra essa criança, se refazem os controles para conter sua insuportável

39 Cf. Paula Miraglia. “O lugar da criminalidade: caso Paraisópolis mostra que, se a violência caiu, a

vitimização continua assimétrica, com crime e desigualdade se realimentando”. O Estado de S. Paulo, Caderno Aliás, 08/02/2009, p. J6.

40 Aqui me refiro ao mais recente desses casos na favela de Paraisópolis, na cidade de São Paulo. Cf.

notícias que mostram que não tardou a ocupação policial do local acompanhada de ações comunitárias do governo e de ONGs, que já atuavam há muito tempo no local. Isso mostra que tanta polícia e assistência social não são capazes de conter violências, algo muito diverso de revolta, já que a positividade desses fatos e dessas articulações, está em produzir obediência e adesão, a despeito de sua alegada função de corrigir assimetrias sociais ou conter a violência. Cf. Luis Kawaguti. “Paraisópolis terá pacote com 80 ações sociais: programa inclui áreas como saúde e educação”. Folha de S. Paulo. 21/02/2009, p. C3.

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liberdade e que atravessa a história da república brasileira entre ser um problema das ruas, um problema social, um problema de segurança nacional até transformar-se, hoje, em insumo de pesquisas e assistências, para dentro e por fora das prisões-prédios para jovens: uma maneira de formar o futuro cidadã-policial que trabalha em favor da continuidade da obediência, a principal prerrogativa obrigatória exigida pela política moderna.

Benzer Belgeler