Definitivamente, não é fácil trabalhar com dois autores da importância de Foucault e Santos, cujos críticos e leitores estão sempre (re)descobrindo, por meio das idéias desses pesquisadores, novas maneiras de compreender o mundo ao redor.
A diferença mais visível entre os dois, e Santos já nos dizia isso pessoalmente e por meio de seus escritos, sobretudo na Crítica da razão
indolente (2002a), é ser Foucault um produtor de ausências. Todavia, a
crítica que o autor faz ao pensador francês não é, em regra, dirigida ao indivíduo, mas à forma como, no Ocidente, se tenta produzir e legitimar o conhecimento a partir de um único lugar discurso: o Norte, que procura compreender o mundo a partir de uma única visão: a visão ocidental do mundo. Em outros termos, a crítica que Boaventura de Sousa Santos faz a Michel Foucault está menos no que este fez, e mais no que deixou de fazer (ausência). Dirige-se mais a um conjunto de “produtores ocidentais de conhecimento” do que a Foucault propriamente dito.
Apenas em casos particulares, quando da crítica que Santos faz a Foucault por este não ver saída emancipatória para o “regime de verdade” que é ciência moderna32, e também por Foucault não considerar, na
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Santos (2002a, p. 26): “Ao contrário da opinião corrente, Foucault é para mim um crítico moderno e não um crítico pós-moderno. Ele representa o clímax e, paradoxalmente, a derrocada da teoria crítica moderna. Levando até às últimas conseqüências o poder disciplinar do panóptico construído pela sociedade moderna, Foucault mostra que não há qualquer saída emancipatória dentro deste “regime da verdade”, já que a própria resistência se transforma ela
opinião de Santos, a compatibilidade entre poder disciplinar e poder jurídico, os dois pensadores, grosso modo, são arqueólogos do saber, articulando, apesar das diferenças, as mesmas ferramentas.
Enquanto Santos (2002a, p. 18) afirma:
Se o processo de exclusão é grande dentro de uma dada cultura, como nos ensina Raymond Willians, ele é ainda maior nas relações entre culturas, como bem nos mostra Edward Said. Uma cultura que tem uma concepção estreita de si própria tende a ter uma concepção ainda mais estreita das outras culturas. Tendo isso em mente, a análise desenvolvida neste livro envolve uma dupla escavação arqueológica: escavar no lixo cultural produzido pelo cânone da modernidade ocidental para descobrir as tradições e alternativas que dele foram expulsas; escavar no colonialismo e no neocolonialismo para descobrir nos escombros das relações dominantes entre a cultura ocidental e outras culturas outras possibilidades possíveis mais recíprocas e igualitárias. Esta escavação não é feita por interesse arqueológico. O meu interesse é identificar nesses resíduos e nessas ruínas fragmentos epistemológicos, culturais, sociais e políticos que nos ajudem a reinventar a emancipação social,
Foucault define a sua arqueologia (2000a). E esta guarda certa semelhança como a proposta de trabalho de Santos expressa nessa citação, uma vez que também o autor de Arqueologia do saber (2000a) não se interessava pelos grandes acontecimentos; assim como Santos se propõe “escavar no lixo cultural”, Foucault se interessou pelos “fenômenos de ruptura” (2000a, p. 4). Por distanciamento e aproximação, Foucault diz (2000a, p. 159-160):
própria num poder disciplinar e, portanto, numa opressão consentida porque interiorizada”.
1. A arqueologia busca definir não os pensamentos, as representações, as imagens, os temas as obsessões que se ocultam ou se manifestam nos discursos; mas os próprios discursos, enquanto práticas que obedecem a regras.
2. A arqueologia não procura encontrar a transição contínua e insensível que liga, em declive suave, os discursos ao que os precede, envolve ou segue. (...) O problema dela é, pelo contrário, definir os discursos em sua especificidade; mostrar em que sentido o jogo das regras que utilizam é irredutível a qualquer outro; segui-los ao longo de suas arestas exteriores para melhor salienta-los.
3. A arqueologia não é ordenada pela figura soberana da obra; não busca compreender o momento em que esta se destacou no horizonte anônimo. (...) Ela define tipos de regras de práticas discursivas que atravessam obras individuais, às vezes as comandam inteiramente e as dominam sem que nada lhe escape; mas às vezes, também, só lhes regem uma parte.
4. Finalmente, a arqueologia não procura reconstituir o que pôde ser pensado, desejado, visado, experimentado, almejado pelos homens no próprio instante em que proferiam o discurso... (...) Não é o retorno ao próprio segredo da origem; é a descrição sistemática de um discurso-objeto.
Apesar das críticas direcionadas por Santos a Foucault, percebemos mais proximidades do que distanciamentos em suas postulações epistemológicas e, talvez um pouco mais distantes, em seus métodos de pesquisa.
Foucault, é preciso corroborar, ao se dedicar à investigação dos micropoderes, faz importante contribuição para os movimentos contra- hegemônicos, que tanto interessa aos trabalhos de Santos. Justificamos
essa afirmação a partir de duas hipóteses de trabalho: primeiramente, ao postular que os poderes não possuem um centro de onde possa ser tomado, o que faz com que o poder de um policial seja da mesma natureza (exercido) que o de um ministro de Estado, e que os poderes são exercidos com o objetivo de impedir que as pessoas façam o que querem (ou melhor, a função do poder é obrigar as pessoas a fazerem outra coisa, independentemente de um querer), Foucault tornou o poder produtivo e positivo, o que, nas palavras de Ribeiro (1995, p. 169), fica assim melhor dito:
se na sociedade estão semeados estes mil poderizinhos que nos oprimem, como enfrentá-los senão fazendo florescer milhares de ações pontuais? Daí que Foucault defenda a ação do local, que a seu modo pode ser exemplar, isto é, difundir novas possibilidades de vida.
E Ribeiro, no mesmo trabalho e página, exemplificar essa “ação local”:
É a época em que a fábrica de relógios Lip vai à falência, e seus operários entram em conflito com o governo porque querem assumi-la eles mesmos, numa proposta de autogestão que poderia ser ameaçadora para a tese capitalista segundo a qual somente o empresariado assegura a racionalidade necessária à direção dos negócios: se o recorte capital-trabalho deixar de recobrir as divisões racionalidade-obediência, decisão-execução, que será do capitalismo?
De certa forma, quando Santos (2002; 2002a; 2006) em seus diversos trabalhos propõe estudar a articulação entre determinado movimento local (por exemplo, o Conselho Indigenista de Roraima) com
movimentos globais (Anistia Internacional ou ONGs de defesa da natureza e dos Direitos Humanos) para que possa pressionar o Nacional (Estado brasileiro) por demarcação de terras, ele estaria defendendo o que Ribeiro chama de “ação local” e que este autor atribui aos estudos foucaultianos sobre o poder. Não seriam, igualmente, as palavras de Ribeiro, com o exemplo, semelhantes às críticas que Santos dirige à racionalidade do sistema econômico do capitalismo hegemônico?
Saber que está nas microarticulações a força para fazer valerem direitos é, certamente, um campo de atuação tanto de Foucault, talvez mais teórico, quanto de Santos, um teórico da prática-ação.
A segunda análise é que tanto Foucault quanto Santos se dedicaram a trabalhar com aquilo que era e é marginal na sociedade ocidental capitalista: Foucault cria, em 1970, um Grupo de Informação sobre as Prisões (GIP), do qual surgirão importantes trabalhos como
Vigiar e Punir (1997), e Boaventura de Sousa Santos idealiza e coordena
o projeto de pesquisa Reinventar a Emancipação Social, conforme veremos adiante. Ambos se propõe a escutar a fala dos silenciados e fazê-los, de certa forma, emergirem, dando pleno apoio às lutas de negros, mulheres, árabes, indígenas, homossexuais, ecologistas, presos, etc. Difícil depreender desta breve enunciação o que pertence aos trabalhos de Foucault e o que é exclusiva de Santos, tal é o grau de proximidade entre eles.
Por meio de suas inquietações epistemológicas e metodológicas, Foucault e Santos aproximam-se e se distanciam; esperamos ter sido felizes ao tentar aproximá-los e distanciá-los, quando o caso. De qualquer modo, tornou-se um desejo nosso, para trabalhos futuros, estreitar ainda mais detalhadamente os laços entre Michel Foucault e Boaventura de Sousa Santos, se possível.