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Um quadro da construção do espaço religioso vem se delimitando cada vez mais e melhor nos últimos anos. Ainda existem controvérsias sobre inúmeras questões, sobretudo, o aparecimento dos primeiros santuários. Jean-Louis Brunaux (2006:100) – responsável pela escavação de um dos santuários mais importantes arqueologicamente do séc. III a.C., Gournay-sur-Aronde – acredita que o estabelecimento dos santuários mais antigos teria

acontecido nos territórios ocupados pelos belgas que imigravam entre o final do séc. IV e começo do séc. III a.C. Segundo o autor, esses santuários já seguiam um padrão mediterrâneo, o espaço sagrado era delimitado, neste contexto por um muro de madeira, com uma fossa na arte interna e externa, havia um tipo de altar no centro do espaço sagrado, algumas árvores. Contudo, o altar em muitos aspectos divergia do mediterrâneo, na verdade, tratava-se de uma fossa escavada diretamente no solo, protegida por uma estrutura aberta de madeira. À diferença do padrão mediterrâneo não existia um templo, as entradas eram voltadas para o leste. Dentro desse espaço sagrado deveria haver um local aonde eram fixados cabeças humanas e animais, também havia armas. Aparentemente, esses santuários parecem ligados a cultos guerreiros, pois não só eram depositadas armas, mas no mesmo período de aparecimento destes houve a interrupção da inumação dos guerreiros aristocratas.

Em um período posterior os santuários gauleses passam a ter um templo, esse tipo de edifício era pensado na antiguidade como um local para abrigar o deus; na medida em que representações plásticas de deuses só aparecem na Gália no séc. I a.C., era preciso um local para proteger essas estátuas. Os templos de período gaulês têm comprovação arqueológica, a partir da qual é possível saber que tinham uma estrutura simples, por vezes quadrada, contando apenas com quarto paredes e um teto. Assim os templos gauleses, antes da conquista, eram compostos essencialmente de um espaço delimitado por um fosso e paliçada, um templo de madeira que poderia ser uma estrutura quadrada fechada, ou aberta, sendo essa estruturação formada por colunas de madeira, no seu interior são encontrados vestígios de oferendas e também de ossos animais, esses depósitos foram encontrados nas proximidades dos templos, embora se acredite que alguns dos objetos enterrados em fossas ficassem expostos por um tempo antes de serrem enterrados, é o caso das armas. Bedon (1999: 311) defende a existência desse tipo de templo nas proximidades das instalações urbanas em seu princípio, com a conquista romana haveria um abandono ou transformação desse edifício. O autor descreve o caso de Limoges, onde um templo gaulês foi construído próximo do fórum nos primeiros anos da “cidade”, desaparecendo no início do período romano. Em Jublains, o santuário gaulês teria sido substituído na época de Nero, segundo moedas encontradas. Esses exemplos tornam evidente o não convívio do templo gaulês, como era durante o período da independência, com os edifícios romanos. Desta maneira, a

construção dos templos de tipo fana é ainda mais surpreendente longe dos espaços urbanos, situação na qual a maioria desses edifícios se encontrava.

Se por um lado, os estudos sobre os espaços religiosos gauleses ainda está em desenvolvimento, as influências romanas são mais facilmente reconhecíveis:

1) A construção com materiais mais duráveis, como a pedra; 2) Por vezes a presença de um podium ou pronaos;

3) Possivelmente, a existência de frontões e decoração, algumas pesquisas parecem indicar a existência de pintura interna dentro das cellae;

4) O altar de pedra na frente do templo.

A evidenciação das características romanas nesses templos também serve para tentar encontrar traços particulares a uma arquitetura gaulesa, que não teria surgido na época romana, mas remontaria ao período de independência. Essa crença na possibilidade de que os elementos gauleses do edifício tenham proveniência de um período anterior à conquista levantaria a possibilidade de uma continuidade, não são poucos os autores que fazem essa afirmação. Essa também traria a possibilidade de uma continuação de ocupação; em alguns casos, arqueologicamente essa hipótese é verificável como faremos na nossa análise. Apesar de a continuidade existir24, também houve templos que foram abandonados e fana que foram ocupados em locais, que mesmo que fossem sagrados, não apresentam vestígios de edifícios de caráter religioso anteriores. A continuidade deve ser estudada e, provavelmente, é um fator decisivo na elaboração do edifício, mas não deve ofuscar a compreensão dos fana como um edifício criado e com usos no período galo-romano. Pela quantidade de edificações, é impossível pensar em uma mera continuidade, aparentemente, a religião gaulesa foi re-elaborada com a presença romana.

Em 1993, Faduet estabeleceu uma cronologia post quem de um número de santuários dentre os que havia repertoriado (FADUET 1993b: 91).

Antes de 50 a.C. 50 a.C. - 15 d.C. 15 d.C. – 50 d.C. 50 d.C. – 100 d.C. 100 d.C. – 200 d.C. 200 d.C – 280 d.C. Número 5 80 21 75 39 8

24 Dentre os templos estudados por Isabelle Faduet (1993b: 90) foram contabilizados pelo menos 80 templos construídos sobre estruturas preexistentes.

A tabela apresenta um crescimento exponencial que se inicia em 50 a.C. e tem seu seus ápice entre 50 a.C. e 15 d.C. e depois, novamente entre 50 d.C. e 100 d.C.. Como Faduet deixa claro, essa tabela não traz os dados de reconstrução, um dado importante no estabelecimento das datações dos templos. É preciso adicionar que a tabela traz a data de 228 templos, sendo que no mesmo ano ela lançou uma publicação (FADUET 1993a) na qual tinha repertoriado cerca de 600 templos. Embora não tenha sido feita uma contabilização sistemática passados quinze anos, se sabe que hoje o número de templos conhecidos é maior, assim a tabela diz respeito a menos da metade dos templos conhecidos até então, e que hoje proporcionalmente é em número ainda menor. Sem dúvida, a datação desses templos é de difícil estabelecimento e, provavelmente, o número de templos com dados seguros sejam apenas esses. Também é importante ressaltar que a tabela não traz uma divisão por localidade, desta maneira, é difícil saber se esses crescimentos são homogêneos ou localizados.

Uma questão relevante que desponta em uma reflexão sobre o surgimento dos fana e que parece não ter sido ainda colocada é a convivência de templos gauleses que existiam quando os romanos conquistaram a Gália e permaneceram em locais onde se instalaram assentamentos urbanos com aqueles construídos quase concomitantemente à entrada romana e conviveram com os edifícios romanos, ou mesmo com fana construídos em suas imediações.

Entre os sítios aqui analisados, existem ao menos três casos nos quais os habitantes de um oppidum se mudam para os espaços urbanos que estão surgindo, um fanum é construído quase em seqüência. Esses casos são Corseul, Autun e Trèves, este último é particularmente interessante, pois se acredita que no interior do oppidum havia um espaço público que, segundo Lontcho (2001:50), seria um espaço religioso. Este teria sido abandonado quando o centro de poder se transferiu para Trèves e só mais tarde os habitantes teriam sido autorizados a edificar em cima desse primeiro monumento, que no período da independência era um edifício retangular de 14 m de cumprimento por 6 m de largura, seus troncos deviam sustentar um teto, embora, não houvesse muros ligando um pilar ao outro. No meio do séc. II d.C., quando os habitantes puderam construir nesse espaço, edificaram um fanum, com duas construções anexas entornando a cella e o pórtico.

Foram descobertos mais de 400 fragmentos de esculturas, o templo foi abandonado em 275 d.C.

Autun, ou Augustudum é uma das ciuitas mais conhecidas da Gália romana pela sua importância – entre o final do séc. I d.C. e III d.C ganhou o status de colônia –, mas também pela sua localização. Fundada no período augusteano, Augustudum foi construída nas proximidades do oppidum de Bibricate, edificado pelos eduanos na época de La Tène, aos pés do Mont Beauvray (WOOLF 1998:115). Neste caso também foram edificados fana, o mais famoso, conhecido como templo de Juno, embora não fosse realmente dedicado a essa divindade, é um dos templos desse tipo em melhor estado de conservação.

A continuidade religiosa pode ser verificada em um dos santuários mais importantes para o estudo da religiosidade gaulesa Ribemont-sur-Ancre. Conhecido pelas evidências de ossos humanos e armas, também pode ser caracterizado pelo seu isolamento, não há indícios de assentamentos próximos, tampouco estava em uma fronteira e é um dos maiores da Gália-romana, associados a ele existiam um teatro e uma terma. O santuário foi arrasado no período dos Flávios, contudo, um pequeno santuário se mantém em seu lugar, esse só foi abandonado ou destruído nos últimos anos do séc. III d.C. Em seu artigo “Organisation spatiale et chronologie du sanctuaire de Ribemont-sur-Ancre” (Organização espacial e cronologia do santuário de Ribemont-sur-Ancre) Cadoux (1990:156) afirma que o esforço de romanização do sítio falha.

Contudo, a continuidade e subsistência de templos em espaços rurais não devem implicar a idéia de uma população rural celta em contraposição a uma população urbana romana. Picard (1993:367) se opõe à idéia de que os santuários rurais teriam uma religiosidade popular, fortemente marcada pela tradição celta e pouco transformada pela romanização. O autor (PICARD 1993:381) chega a afirmar que nenhum conciliabulum sobreviveu ao começo do século II d.C.

Benzer Belgeler