Para analisar o efeito dos gastos públicos e outras variáveis sobre a criminalidade no Brasil, nos utilizamos de dados policiais oriundos das secretarias estaduais de segurança pública e compilados pela Secretaria Nacional de Segurança Pública – SENASP. Assim, para que possamos ter uma melhor compreensão das relações estimadas, discutiremos alguns aspectos dos dados de crimes gerados pelas polícias.
Como foi comentado anteriormente, a maioria dos trabalhos que analisam a criminalidade no Brasil em nível nacional se utilizou de dados provenientes do Sistema de Informação sobre Mortalidade – SIM do Sistema de Informação do Ministério da Saúde – Datasus, que até a divulgação dos dados da SENASP, se constituía a única base de dados sobre o crime no Brasil com cobertura nacional. Em função dos dados do SIM se restringirem a informações sobre homicídios, essas análises empíricas se concentram exclusivamente nesta categoria de crime. Obviamente essas duas fontes de informações sobre o crime possuem vantagens e limitações.
A primeira dificuldade inerente aos dados do SIM se refere às diferentes classificações que podem ser utilizadas para construir a variável de homicídio doloso. Um outro problema associado a essas informações é o de sub-registro de ocorrências, isto é, mortes que ocorrem sem registro nenhum. Certamente este problema é maior em áreas rurais e/ou mais carentes do que em áreas urbanas. Mas o principal diferencial dos dados do Ministério da Saúde com relação aos dados policiais se refere à restrição da análise do crime unicamente aos homicídios.
Os dados provenientes do SENASP permitem a análise do crime em diferentes modalidades, tanto sobre crimes contra pessoa (homicídios e estupros), como crimes contra o patrimônio (roubos e furtos), além de extorsão mediante seqüestro. Entretanto, assim como os dados do SIM, podem sofrer do problema de erro de medição. Os dois principais aspectos discutidos na literatura do crime são os problemas de sub-denúncia e sub-registro de crimes.
Sabe-se que em função de não haver plena confiança por parte da população no sistema policial, existe uma parte considerável dos crimes onde não é feita a denúncia do delito à polícia, ocasionando o problema da sub-denúncia. Já o sub-registro ocorre devido aos agentes de polícia não registrarem todas as ocorrências que chegam aos órgãos policiais, seja pela seletividade por parte dos agentes policiais quanto à escolha das ocorrências a serem registradas ou por simples deficiências administrativas. Entretanto, os níveis de sub-denúncia e de sub-registro se reduzem quando se eleva a gravidade do crime. Além disso, acredita-se que essas taxas de sub-denúncia e de sub- registro, mesmo variando entre os estados, possuem um componente relativamente estável ao longo do tempo, fazendo com que esse erro de medição possa ser controlado por métodos econométricos com o uso de dados em painel, como será discutido mais a frente.24
Um ponto que deve ser considerado quando se fala de “dados policiais” é que as informações utilizadas no presente trabalho, se referem às registradas pelas polícias Civil e Militar que compõem o aparelho policial dentro de cada estado, visto que estes são os órgãos responsáveis pelo registro dos crimes aqui analisados. As demais instituições que tem por objetivo a prevenção e o combate direto do crime no Brasil, como a Polícia Federal em nível nacional e as Guardas Municipais nos municípios representam uma participação bastante reduzida dentro do aparelho policial, além de não serem responsáveis, com algumas exceções, pelos crimes discutidos no presente trabalho.
Alguns aspectos específicos em relação à elaboração dos boletins de ocorrência das polícias devem ser discutidos para que se tenha uma maior clareza com relação ao significado e as limitações das estatísticas de crimes utilizadas no presente trabalho. A elaboração de um Boletim de Ocorrência envolve avaliações e decisões de diversos agentes, como cidadãos e policiais, que participaram de um certo evento e que foi interpretado por eles como um assunto relativo à polícia. A figura 1 identifica o seguinte padrão de encaminhamento dos eventos:
24 Para uma discussão mais detalhada do erro de medição em dados policiais, ver Pepper & Petrie (2003).
Figura 4.1: Elaboração de um Boletim de Ocorrência
Fonte: Elaborado pela Secretaria Nacional de Segurança Pública – SENASP/MJ.
Uma parte considerável dos eventos de crime e violência a que está submetida à população tem como resposta soluções civis não-policiais, ou simplesmente não fazer a denúncia. Este fenômeno ocorre de forma generalizada em todas as sociedades e ele varia de intensidade entre diferentes grupos sociais e também em função do tipo de ocorrência a que estamos nos referindo. Assim, o fato das pessoas confiarem mais nas organizações públicas ou mais especificamente nas organizações policiais, faz com que elas tenham uma maior tendência de procurarem as organizações policiais.
Desta forma, tendo em vista os aspectos inerentes ao fluxo de elaboração dos boletins de ocorrência, ao analisarmos os dados produzidos a partir das estatísticas oficiais e apresentados a seguir devemos levar em conta dois fatores: i) A sub-denúncia de ocorrências junto aos órgãos de segurança pública; ii) O sub-registro de ocorrências. Entretanto, se considerarmos que estes erros de medida variam de intensidade entre os diferentes estados, mas não muda substancialmente ao longo do tempo dentro de cada estado, este problema pode ser controlado por métodos econométricos, com o uso de dados em painel, como é feito a seguir.