Esta dissertação analisou como trabalhadores metalúrgicos perceberam, interpretaram e viveram as transformações ocorridas em São José dos Campos (SP) a partir dos processos de crescimento urbano e industrialização na cidade.
Dialogando com as narrativas orais de metalúrgicos, das “broncas” do Dito na sua coluna no Jornal do Sindicato e de jornais da imprensa local – especialmente o Jornal Vale Paraibano – percebemos como foi constituído o enredo dessas transformações, como se engendraram as disputas pela cidade e pelo trabalho.
Como não delimitei fábricas específicas, nem bairros, há, nesse sentido, lacunas e temas a serem abordados posteriormente ou mesmo por outras pessoas interessadas por este período de grandes transformações e mudanças na cidade.
Perceber como essas transformações foram ocorrendo em bairros centrais, com as leis de zoneamento urbano, o fortalecimento do comércio, o encarecimento dos aluguéis e a conseqüente saída de pessoas que tinham nessas regiões seus locais de convivência podem ser temas preciosos para a análise da história de São José dos Campos. Temas de momentos históricos anteriores quando São José dos Campos era uma cidade ligada a atividades rurais, principalmente o café, principal produto do Vale do Paraíba até o início do século XX, as ruas sem asfalto, as carroças; é necessário entender e analisar como os moradores interpretaram essas mudanças. Infelizmente, o tempo e o espaço de uma dissertação dificultaram-me a realização deste trabalho, que tentei apresentar no primeiro capítulo de uma forma mais abrangente, mas balizado às experiências de uma certa categoria de trabalhadores desta cidade: metalúrgicos.
Como dito, São José dos Campos é uma importante cidade fabril do Vale do Paraíba, há vários ramos de indústrias que lá atuam, como a indústria química e petrolífera. Assim, analisar como esses vários ramos, que são compostos por milhares de trabalhadores, através de experiências compartilhadas (apesar de suas
singularidades), constituíram as várias Histórias desta cidade também se coloca como possibilidade de análise.
Assim, esta dissertação apesar de não delimitar fábricas nem bairros, partiu de um recorte específico de categoria: metalúrgicos. O recorte temporal tentou expressar o momento de crescimento urbano e industrialização na cidade. Enfatizam-se, neste sentido as décadas de 70, 80 e 90. Porém, muitas vezes as evidências históricas nos fazem retroceder ou avançar no recorte previamente estabelecido.
O processo de reestruturação da produção emerge na discussão da industrialização na cidade. Este processo alterou significativamente os modos de vida e trabalho de metalúrgicos na cidade de São José dos Campos.
Novos saberes foram valorizados, aumentou-se o controle sobre o tempo e o ritmo de trabalho de metalúrgicos, novas formas de gestão nas fábricas vão sendo testadas e há uma feroz disputa por valores principalmente pelo individualismo. Tenta- se quebrar a espinha dorsal da solidariedade construída por trabalhadores nas décadas de 70 e 80 que foram fundamentais nas grandes lutas travadas não só por metalúrgicos em São José dos Campos, mas por trabalhadores brasileiros no período.
Metalúrgicos protagonizaram grandes lutas na cidade de São José dos Campos. Passeatas, greves e ocupações de fábricas devem ser analisadas enquanto um momento onde os trabalhadores expressam as perdas que viveram nestes tempos de mudanças na cidade (com o processo de urbanização) e no trabalho (com o processo de reestruturação da produção). A análise destes movimentos não deve ser pensada apenas no espaço fabril, dialogando com as narrativas orais de metalúrgicos, vemos a greve ser organizada e nascer não apenas no trabalho, mas no bairro, no local de moradia destes trabalhadores. Assim, vemos as quermesses para angariar fundos para as greves, assembléias nos bairros, a “anotação na caderneta” em mercearias enquanto estratégias de lutas quando começava a faltar comida, gás e as contas começavam a vencer durante as greves mais prolongadas. Vemos a participação ativa de familiares, da comunidade, de trabalhadores de outras fábricas e de padres dos bairros populares.
Durante a década de 70, trabalhadores do comércio (ambulantes, açougueiros, vendedores em lojas, recepcionistas, etc...) sonhavam em conseguir um emprego numa grande metalúrgica (GM, Embraer, Philips...), paralelamente e como fruto do processo de industrialização em São José dos Campos, houve um processo de migração de trabalhadores para a cidade. Principalmente trabalhadores do Sul de Minas Gerais e de
pequenas cidades da região do Vale do Paraíba mudaram-se para São José dos Campos com a esperança de tornarem-se metalúrgicos.
Tornar-se metalúrgico significava ter um dos mais altos pisos salariais da cidade, ter um bom convênio médico (para o trabalhador e sua família), poder freqüentar os clubes das empresas, enfim, ter uma estabilidade que pudesse permitir ao trabalhador projetar o seu futuro, ser socialmente reconhecido na cidade. Muitos trabalhadores que ingressam no setor de metalurgia ainda na década de 70 casam-se rapidamente ao fim do período probatório.
Ser metalúrgico expressava, neste sentido, um modo de vida, uma perspectiva de se perceber e se colocar no mundo. O trabalhador tinha orgulho de ser metalúrgico. Esse orgulho, essa expectativa na profissão projetava-se inclusive enquanto um parâmetro social almejado, ou seja, trabalhadores metalúrgicos queriam que outros trabalhadores pudessem viver da mesma forma, constituindo-se para além da categoria metalúrgica, mas enquanto classe trabalhadora.
O trabalhador que chegava a São José dos Campos lutava pela cidade, constituía seus espaços e construía os seus sonhos. Ao conseguir emprego na área metalúrgica, havia uma grande mudança no seu modo de vida. Muitos foram trabalhadores rurais e quando conseguiam emprego numa fábrica, tinham que se adaptar ao ritmo e disciplina fabris, os sistemas de turnos e, por vezes, ao trabalho noturno.
Porém, ainda nas décadas de 70 e início de 80, trabalhadores conseguiam achar espaços para se expressar. O salário e o crédito na cidade permitiam a compra da casa própria, do carro, do final de semana ou feriados no litoral (especialmente em Caraguatatuba e Ubatuba) e a boa educação dos filhos. É significativa a fala do metalúrgico João Roberto Faria que coloca a existência de cantores, pintores, escritores (como ele próprio que têm dois romances publicados), jogadores e juízes de futebol de várzea na Embraer.
Mas estes tempos onde “bom mesmo é ser metalúrgico” pareciam estar mudando...
O processo de urbanização engendrou uma série de disputas pela cidade. O preço dos aluguéis subiu, a compra da casa própria foi ficando cada vez mais difícil e, com isso, trabalhadores foram indo para a periferia.
Nas fábricas, o processo de reestruturação produtiva vem no sentido de controlar o tempo e o ritmo de trabalho, diminuir salários e alterar profundamente o modo de gestão de pessoal.
Novas demandas vão sendo sentidas por trabalhadores. Nos bairros precisa-se de luz, saneamento básico, segurança... Nas fábricas, luta-se por aumentos salariais, respeito da chefia, direito ao tempo de descanso (após as refeições ou os “cafezinhos”). Essas são as reivindicações básicas de trabalhadores metalúrgicos engendradas no processo de urbanização e reestruturação produtiva na cidade de São José dos Campos.
As formas que se desenvolveram as reivindicações operárias forjaram-se, então, a partir deste momento de “perda” para os trabalhadores. Foram engendradas no dia-a- dia nas fábricas, no próprio “fazer-se” destes operários. É importante reafirmar que os diferentes métodos de se exteriorizar estas reivindicações não são constituídos apenas nas grandes ações como greves e ocupações, mas formam-se quando trabalhadores compartilham experiências e interesses constituindo-se enquanto “classe”.
Com a intensificação do processo de reestruturação da produção, houve alterações nos modos de metalúrgicos expressarem as suas demandas. As ocupações de fábricas passaram a ser um recurso bem menos utilizado e as próprias greves diminuíram. Porém, se é certo que as alterações engendradas pelo processo de reestruturação da produção nas fábricas contribuíram nas mudanças de estratégias de lutas de trabalhadores, não significou que estes tenham deixado de lutar. Novas formas de lutas foram criadas. A reestruturação da produção pode levar ao arrefecimento das lutas, mas não necessariamente.
Analisando as narrativas de metalúrgicos, percebemos que a reestruturação produtiva não é um fenômeno, mas um processo que ainda hoje está em disputa. O metalúrgico Toninho colocou... “ela (a reestruturação produtiva) foi acontecendo (...), algumas fábricas deram mais certo, outras não deram certo e isso contenta, né? A gente foi conseguindo esse embate ai, fizeram reestruturação, mas dentro dessa dificuldade”.
O sujeito coloca-se ativo nas disputas pelo ritmo de trabalho, pelo descanso após o almoço, por valores, enfim, na disputa por espaços onde possa expressar-se. O trabalhador nunca foi nem será um mero expectador das transformações do processo produtivo. Ao contrário, coloca-se, expressa-se e disputa opiniões, ritmos, valores, enfim, é sujeito ativo na construção de sua história, de seus modos de vida e trabalho.
Como discutir o “fim da história”, das utopias, dos embates, da luta de classes se trabalhadores continuam lutando. No ano de 2004, uma série de paralisações de metalúrgicos em São José dos Campos conseguiu aumento salarial de 10% (um dos melhores acordos dos últimos anos). Não apenas metalúrgicos, mas bancários (que foi
uma das categorias mais atingidas pela chamada “modernização” – que substituiu o Homem pela máquina) foram protagonistas de grandes lutas (inclusive greves) nos anos de 2004 e 2005. Professores Universitários, também no ano de 2005, organizaram uma greve de mais de 100 dias.
Também ocorre um processo de reorganização das próprias entidades de luta dos trabalhadores. Hoje, trabalhadores de várias categorias – metalúrgicos em São José dos Campos, professores universitários, de ensino médio nos Estados, servidores do judiciário, químicos em várias cidades (inclusive São José dos Campos) votam em Assembléias Gerais pela desfiliação da CUT (Central Única dos Trabalhadores), mostrando que há um questionamento dos trabalhadores e uma distância desta entidade em relação às lutas e às demandas engendradas no dia a dia de trabalho. Há, inclusive, a discussão da formação de uma nova central sindical a partir de trabalhadores que hoje se organizam na CONLUTAS (Coordenação Nacional de Lutas).
Vemos que esses tempos de reestruturação produtiva engendram múltiplos questionamentos e novas formas de posicionamento.
A eleição do governo Lula e a continuidade de uma política econômica que favorece o processo de acumulação do capital em detrimento do trabalhador, o próprio questionamento em relação à CUT, as novas formas de resistência de trabalhadores compõem o enredo deste momento em que vivemos.
Entender como os trabalhadores interpretam este novo tempo em suas múltiplas relações e disputar um projeto de futuro que possa trazer novas esperanças é uma de nossas principais tarefas, mas isso já são outras histórias...