correta 0,7% 1,2% 7,3% 5,6% 11,6% 18% 56,3% 54,9% Total 100% 100% 100% 100% 100% 100% 100% 100%
Fonte: dados da pesquisa
Observemos que um quarto das sentenças analisadas dão conta de que os estudantes que viveram fora da ilha usam essa variante. Apesar de não ter sido controlado o local onde esses alunos viveram, ao retornarmos aos questionários, não observamos diferenças numéricas, uma vez que os estudantes que avaliaram positivamente o uso de ele como acusativo viveram nas mais diversas partes, inclusive em países não lusófonos. Assim, nesse primeiro momento, já se pode afirmar que esse
26Os dados foram tabulados em função da permanência ou não permanência na ilha, assim o não se refere
a esse valor enquanto o sim àquele. Não devendo ser confundidos com já viveram fora (característica da não permanência) e não viveram fora (característica da permanência).
uso não pode ser simplesmente chamado de “brasileirismo”, como dizem a Gramática Normativa e os teóricos mais puristas.
Para entender a mobilidade na Madeira, destacamos os dados do último Censo (2011), no que se refere à emigração e à imigração, e a pesquisa de base sociodemográfica que compõe os estudos sociolinguísticos de Andrade (2014).
Em 2011, 18,2% da população portuguesa na Madeira já havia residido em outro país por um período contínuo de pelo menos um ano. A população estrangeira residente no arquipélago é a de apenas 2,1% da população total, sendo as principais comunidades de imigrantes provenientes do Brasil (17,6%), da Venezuela (16,4%), do Reino Unido (13,4%) e da Ucrânia (6,5%).
No que se refere à pesquisa estratificada à luz da metodologia sociolinguística27, Andrade (op. cit.) também controlou se seus informantes já haviam vivido fora da ilha e como eles avaliavam as variedades geográficas do português europeu, a partir dos critérios de agradabilidade, inteligibilidade e diferença. Os resultados desse estudo ser- nos-ão caros para a compreensão da tabela 05.
A autora, ao relacionar a saída da ilha com a escolaridade, fornece-nos os seguintes números: dos madeirenses com ensino básico, 67% dos entrevistados não viveram fora da ilha; dos com ensino secundário, 81% e, dos com ensino superior, 52%. Segundo o entendimento da pesquisadora, a maior permanência de pessoas da segunda faixa de escolaridade se dá devido a maiores possibilidades de oferta de emprego para esse grupo. Considerando que o maior nível de escolaridade completado pelos alunos inquiridos em nossa pesquisa é o ensino secundário, o número total daqueles que nunca viveram fora da Madeira coincide com Andrade (op. cit.). Em nossos questionários, 80,6% das respostas dizem ter permanecido na ilha e 19,4% afirmaram ter morado fora.
Pensar a condição da insularidade, segundo Rodrigues (2010, p.212), é “a ilha como uma reprodução metonímica do Mundo e, particularmente, com um mundo-à- parte, como um verdadeiro universo alternativo a outros mundos”. No que se refere à questão linguística, a regionalidade insular madeirense, para o autor, configura, através
27 A amostra da pesquisadora foi composta por 126 informantes, sendo 18 informantes de 7 conselhos da
ilha da Madeira. Os fatores extralinguísticos considerados para a formação das células foram: sexo (masculino e feminino); faixa etária (18-35 anos; 36 – 55 anos e 56 – 65 anos) e nível de escolaridade (básico, secundário e superior).
da aceitação das diferenças, uma dupla intenção integradora: por um lado não se pretende integrar um modelo continental existente, mas se quer um português padrão, universal, independente das identidades geográficas; por outro lado, almeja-se a um modelo sociocultural e estilístico de matriz europeia.
Trazendo à baila a percepção do próprio falar regional, Andrade (op. cit.) perguntou a seus informantes “qual a fala mais bonita?” e ofereceu como alternativas as variedades do português falado na Madeira, em Lisboa, no Algarve, nos Açores e no Porto. Verificou-se que o falar madeirense foi considerado o mais agradável por 79% dos inquiridos, seguido por Lisboa, Algarve, Porto e Açores. Porém, ao isolarmos os entrevistados de nível superior, essa avaliação inverte-se e Lisboa é tida como a fala mais agradável, seguida pela variante madeirense.
Voltando aos nossos dados, a maior rejeição da variante ele explicar-se-ia por essa não ser identificada como a norma lisboeta, nem a madeirense. O lhe não apresenta diferença estatística entre os que viveram e os que não viveram fora da ilha, pois seria uma forma regional, ainda que estigmatizada. A anáfora, como vimos na seção sobre a avaliação, é amplamente usada por não ser uma forma marcada socialmente.
A partir dos resultados relacionados aos fatores extralinguísticos, pôde-se observar que o ponto discordante de nosso estudo em relação aos demais deve-se ao grau de escolaridade dos informantes. Dessa forma, apenas com a análise dos dados dos
corpora oral e escrito haverá descrição mais elucidativa dos usos das variantes estudadas nesta tese.
5.3. Motivações linguísticas
5.3.1. Valor semântico do OD
Em pesquisas sobre a variação linguística na função de objeto direto, como as de Duarte (1989) e Freire (2005), o valor semântico do objeto direto mostrou-se um fator condicionante relevante paro o uso de determinadas variantes. Com base nesses estudos, testamos o grupo [± humano], conforme o resultado pode ser visto na tabela 06.
Tabela 06: Avaliação dada às variantes em relação ao valor semântico do OD
AVALIAÇÃO + Ele Lhe Anáfora Clítico
Humano Humano - Humano + Humano - Humano + Humano - Humano + Humano - 1.Não falo/escrevo 78% 83,5% 62,1% 89,1% 47,3% 29% 26,9% 25,7% 2. Fala e escrita informal 10,9% 8,6% 13,3% 4,9% 20,5% 22,2% 7,1% 8,8% 3. Falo, mas não escrevo 10,2% 7,2% 15,2% 4,2% 23,3% 33,3% 9,8% 9,8% 4. Essa é a forma correta 0,9% 0,7% 9,4% 1,8% 8,9% 15,5% 56,2% 55,7% Total 100% 100% 100% 100% 100% 100% 100% 100%
Fonte: dados da pesquisa
De acordo com a tabela, o uso de ele entre os nossos sujeitos passa a ser admitido em 22% das avaliações quanto se refere a objetos diretos com o traço [+ humano], enquanto que, com o traço [- humano], esse valor cai 5,5% pontos percentuais. Notamos ainda uma variação percentual nesse fator de controle quando se trata especificamente dos usos em contextos mais informais e na relação fala x escrita, isto é, valores apreciativos em 1 e 2.
Ao testarmos esse fator condicionante, fizemos uma relação entre o traço semântico e os verbos ativos, conforme classificação de Garcia (2004), uma vez que os verbos usados com as variantes nos testes foram ver, arrumar, amar, comprar e ajudar. Essa escolha deve-se ao fato de que apenas a primeira e a segunda pessoas estão diretamente ligadas ao traço [+ humano], fato que enfraqueceria o uso do clítico de terceira pessoa. No teste, buscamos uma resposta a nossa hipótese de que o pronome pleno ele/ela recuperasse esse traço por conta de suas características próprias de sujeito e, ao remeter-se a nomes próprios, como testamos.
As três sentenças com maior número de avaliações positivas foram as três em que o objeto direto ao qual o pronome se referia apresentava o traço semântico [+ humano], a saber: