escrevo 8,7% 8,7% 12,2% 10,7% 27,6% 31,6% 10,7% 8,4% 4. Essa é a forma
correta 1,1% 0,5% 7,7% 5,8% 12,5% 13,4% 55,5% 56,8% Total 100% 100% 100% 100% 100% 100% 100% 100%
Fonte: dados da pesquisa
Conforme podemos observar, de um modo geral, não houve diferenças de mais de cinco pontos percentuais entre homens e mulheres nas avaliações. Com base nesse fato, analisamos conjuntamente as respostas que admitem o uso das variantes em qualquer contexto (2. Fala e escrita informal; 3. Falo, mas não escrevo e 4. Essa é a forma correta) em oposição à não aceitação da forma.
Destacamos os números da tabela 04 que mostram que a avaliação do uso do pronome lhe feita por homens são afirmativas em 31,8% dos casos, sendo desses 11,9% referentes a julgamentos que apenas consideram a forma em contextos informais de fala e de escrita; em 12,2% dos casos, admitem o uso apenas na fala, enquanto que, em 7,7% das avaliações masculinas, ocorre a aceitação da forma como correta. Já na valoração atribuída pelas mulheres, a aceitação da variante foi bem menor em relação aos resultados masculinos, porém cabe destacar que, na avaliação feminina, a segunda maior frequência de aceitação foi para o uso apenas na fala.
Esses números vão ao encontro da premissa laboviana de que as mulheres apenas comandam a mudança linguística se a variante inovadora gozar de prestígio social, o que não é o caso do pronome lhe. Esse fato está intimamente ligado às questões de gênero, pois as mulheres lutam em vários aspectos para se firmarem perante a sociedade, assim sendo, evitam, em seu discurso, estruturas linguísticas estereotipadas.
Chamamos a atenção para as pesquisas de Bazenga (2012) e de Andrade (2014), nas quais as mulheres madeirenses apresentam-se fazendo uso de variantes estigmatizadas e ambas as autoras relacionam isso ao papel feminino nessa sociedade, uma vez que está entre elas o mais baixo nível de escolarização e, também, não há um destaque profissional ligado ao gênero feminino. Destacamos, contudo, que as nossas informantes são jovens universitárias, o que explicaria esta diferença em relação aos resultados obtidos pelas pesquisadoras e a aproximação com as ideias de Labov, isto é, se está acontecendo uma mudança social ligada ao sexo, essa mudança também se reflete na questão linguística.
Notemos que a opção 3. Falo, mas não escrevo é a segunda opção com a maior rejeição feminina. Essa alternativa que exclui a variante lhe da modalidade escrita da língua corrobora nossa afirmativa de que nossos dados se diferenciam das pesquisas anteriores pelo nível de letramento das alunas investigadas, uma vez que, no processo de mudança linguística, mulheres assumem uma postura conservadora, pois a variante não goza de prestígio, sendo a segunda mais estigmatizada de acordo com a avaliação geral em nosso inquérito.
Nossos números confirmam ainda a hipótese clássica se observarmos a anáfora zero, a forma inovadora menos estigmatizada, também na avaliação 3.Falo, mas não
escrevo. Diferentemente do que ocorre com lhe, temos as mulheres admitindo o uso do objeto direto anafórico em 31,6% dos casos em comparação com 27,6% das respostas masculinas.
Essa relação entre fala e escrita mostrada em nossos inquéritos faz referência à estrutura social refletida na estrutura linguística. O Censo da Região Autónoma da Madeira (2011) comprova o papel da mulher em relação à escolaridade24 na ilha: a taxa de analfabetismo25 é de 5,71% entre os homens e 8,11% entre o sexo feminino. Além disso, o recenseamento mostra que são do sexo feminino as maiores taxas de desemprego de pessoas com o maior nível de escolaridade (ensino secundário; licenciatura/bacharelado; mestrado e doutorado).
Diante disso, observamos um comportamento linguístico específico em uma sociedade em que mulheres têm seus papeis sociais menos assegurados que os homens, havendo, dessa forma, uma necessidade de preservação da face através de uma prática linguística que gere aceitação da comunidade (PAIVA, 2012).
5.2.2. Permanência na Ilha
Conforme apresentado no segundo capítulo, as construções sintáticas do português europeu insular diferenciam-se bastante das variantes linguísticas do português europeu continental. Por essa razão, controlamos se os sujeitos investigados já teriam vivido ou não fora da Ilha da Madeira, para explicarmos aceitação e uso das formas inovadoras, com base nos estudos de Labov em Martha's Vineyard, ilha no estado norte-americano de Massachusetts.
A Ilha de Martha’s Vineyard fica separada do continente americano e recebe um fluxo turístico de veraneio, semelhante ao panorama madeirense. Em resumo, Labov
24 O recenseamento apenas apresenta a relação entre escolaridade e sexo ao tratar da taxa de
analfabetismo. Desse modo, não pudemos fornecer os dados dos nossos entrevistados: jovens que concluíram a educação secundária.
25 O percentual de analfabetismo é dado pelo quociente da divisão entre a população com mais de dez
percebeu que, no que se refere à centralização dos ditongos [ay] e [aw], a variação linguística está inconscientemente ligada ao fato de os habitantes da ilha reafirmarem-se como nativos, rejeitando os usos comuns aos veranistas norte-americanos, ou uma forma de mostrarem-se insatisfeitos em relação à insularidade, refletindo na estrutura linguística a vontade de abandonar a ilha ou, então, fazê-la “evoluir” ao padrão linguístico continental.
No que se refere aos nossos entrevistados, a tabela 05 mostra que o maior nível de aceitação – quantidade de estudantes que admitem o uso da variante pronome ele como objeto direto ou consideram-na como a forma correta - foi dos falantes que já viveram fora da ilha26.
Tabela 05: Avaliação dada às variantes em relação à permanência na Ilha da Madeira
AVALIAÇÃO Sim Ele Não Sim Lhe Não Sim Anáfora Não Sim Clítico Não 1.Não
falo/escrevo 82,6% 74,4% 70,1% 73,8% 36,8% 34% 26,6% 25,1% 2. Fala e escrita
informal
9,1% 12% 11% 9,2% 23,1% 15% 7,9% 8,1%
3. Falo, mas não