Iniciava a década de 1980 e Macapá, ainda uma cidade pacata, com índices de violência bastante baixos, foi abalada por um escândalo. Um importante e conhecido empresário local estava sendo acusado de tentativa de corrupção e assassinato de um funcionário público federal. A população ficou em polvorosa! Na época ainda se acreditava em punição para esse tipo de crime.
A possibilidade de condenação levou o sujeito a se cercar de todos os lados. Saída para a situação complicada em que estava metido não parecia coisa muito fácil de ser achada. Daí, ele decidiu recorrer às forças sobrenaturais, e aos poderes das práticas religiosas afro-ameríndias. Foi procurar um conhecido pai-de-santo paraense, proprietário de uma casa em Belém, no bairro Jurunas, chamada Terreiro de São Jorge e Ogum Rompe Mato, com quem acertou os trabalhos que deveriam ser feitos.
O serviço precisava ser realizado em Macapá o que exigia o deslocamento do sacerdote. Como o transporte fluvial lhe apavorava, ele exigiu passagens aéreas e um valor bastante elevado no intuito de evitar a viagem. Estratégia que não deu certo porque o interessado atendeu prontamente todas as condições. O pai-de-santo foi a Macapá, realizou o trabalho, ao que parece bem sucedido para o empresário que, culpado ou não, acabou sendo absolvido e, posteriormente, a conselho do sacerdote, transferiu-se para outro Estado.
O episódio deu fama ao sacerdote no meio local e a oportunidade de entrar em contato com outros afro-religiosos, sendo convidado a voltar à cidade e realizar a feitura dos fundamentos de barracão de algumas casas de Mina e de Umbanda, coisa que, segundo ele, não havia até então em Macapá.
Contudo, nem todos os afro-religiosos da cidade viram com simpatia a aproximação do novo membro à comunidade, alguns chegaram a acusá-lo, em público, de estar interessado apenas em ganhar dinheiro e depois ir embora. Aos poucos ele foi vencendo as desconfianças, as visitas se tornaram freqüentes ao Amapá. Alguns meses depois da primeira viagem, pai Salvino de Jesus dos Santos decidiu fixar residência em Macapá.
Na época, pai Salvino ainda não era feito no Candomblé, o que veio a acontecer em 1982, no Rio de Janeiro, com um babalorixá que havia conhecido em uma viagem
anterior àquele Estado, quando fora em busca de tratamento médico para um filho com problemas cardíacos.
Um ano após a feitura, recebeu a cuia-de-axé. Com o grau de tata de inkice, pai Salvino passou a cultuar o Candomblé Angola em Macapá, em uma casa de Mina Nagô que abrira como filial da casa que mantém em Belém do Pará e que funcionou de início na Rua Leopoldo Machado, 466, com a denominação de Abassá da Oxum Apara.
No dia 31 de agosto de 1986 teve início o processo de formação do primeiro filho de santo do terreiro, Luiz da Silva Mota. No dia 20 de setembro aconteceu a saída do iaô que recebeu a djina Okeazuni. Em 1987 ocorreu a confirmação do primeiro ogã feito no Amapá, ligado ao Ilê da Oxum, Fernando Baena, Otumutum, realizada pelo conhecido babalorixá de Belém, pai Astianax Gomes Barreiro, Angorocivi, conhecido como Prego, um dos pioneiros do Candomblé na capital paraense.54
Em 1º de dezembro de 1989, a comunidade religiosa, chefiada por pai Salvino, festejou a “senhora das águas doces”, o orixá Oxum, dona do ori do sacerdote. O dia 20 de dezembro marcou a saída do primeiro barco (denominação dada aos grupos de iniciandos do Candomblé), composto por Sílvia Carolina dos Santos, Lembá Furanga; José Ricardo, Roxocongueuá e Adriana, Ia Louquê.
Nesse ano de 1989 dois outros fatos importantes ocorreram: a transferência do terreiro para um outro espaço, no endereço que ocupa atualmente; e a mudança do nome para Ilê Axé Odara da Oxum Apará. Em 2006 a comunidade do terreiro criou a Associação Beneficente do Ilé da Oxum Apará - ABYOA, entidade civil sem fins lucrativos, com o propósito de criar condições que possibilitem o fortalecimento, a divulgação da religião e a melhoria das condições de existência da própria comunidade.
No ano de 2007, pai Salvino pagou a obrigação de quatorze anos com um sacerdote de Salvador, ligado a casa Tumba Junçara, pai Paulo de Lemba, Alagemi. Em decorrência dessa reaproximação com a linhagem, a qual teria sido ligado no princípio da vida candomblecista, visto que o sacerdote que o iniciou no Rio de Janeiro seria oriundo desse terreiro baiano, a comunidade decidiu assumir definitivamente suas raízes angola e está mudando toda a terminologia que utiliza inclusive o nome do espaço que passou a se chamar Unzó Lunda Kessimbe Junçara.
54 Sobre pai Astianax, Marilú Campelo (2001: 7) diz: “é o ícone fundador do Candomblé em Belém por ser o
primeiro iniciado em Salvador. (...) Está na lista de todos os pais e mães de santo apesar de não ter terreiro próprio”.
Em 1990 o Amapá se apresentava com grandes possibilidades de desenvolvimento econômico em função de sua recente transformação em Estado. O clima de euforia que se vivia no solo amapaense transbordava para fora da região criando grandes expectativas para a população de outras unidades da federação brasileira, que viam na nova unidade possibilidades de sucesso financeiro e melhoria das condições de vida.
No bojo dessa situação chega a Macapá o Tenente o Ribeiro, paraense, odontólogo, transferido do Estado do Amazonas, onde acabava de prestar serviço na área da saúde, do Exército brasileiro. A entrada do jovem Marcos Ribeiro para o Exército havia ocorrido dois anos antes, assim que o mesmo concluíra a Graduação em Odontologia na Universidade Federal do Pará, aonde inclusive vinha ocorrendo o recrutamento de novos profissionais para atuação dentro das áreas atingidas pelo projeto Calha Norte.
Em Macapá, o Tenente Marcos Ribeiro, que já era afro-religioso, praticante da Cura e da Umbanda, começou a freqüentar os terreiros e fazer amizade com os religiosos locais. Reencontrou uma velha conhecida, antiga mãe-de-santo de Belém, então morando e com um terreiro montado na capital amapaense que o recebeu como membro de sua casa e aonde, todos os sábados, este dava passagem aos guias e, para atender clientes indicados por esta amiga, fazia trabalhos de Cura.
Em 1992, por sugestão de um amigo iniciado no Candomblé, Marcos Ribeiro decidiu procurar uma mãe-de-santo paraense, Oiá Jokolosi, que estava em Macapá e solicitou a ela um jogo de búzios. A sacerdotisa fez o jogo e falou que os orixás dele, Ode e Oxum, estavam pedindo feitura. Os búzios previram também, segundo seu relato, que ele iria abrir terreiro, iniciar muitos filhos, e se tornaria uma das maiores lideranças afro- religiosas de Macapá, o que de fato aconteceu.
No dia 02 de outubro daquele ano, pai Marcos Ribeiro, Ode Olú Fonnim, fundou o terreiro Ile Ase Ibi Olú Fonnim, e deu início à tradição Ketu em Macapá. Em 1993 recebeu o decá e, a partir de então, vem iniciando novos membros para a comunidade candomblecista macapaense.
Se diz que o Ile Ase Ibi Olú Fonnim é um terreiro Ketu com raízes Jeje porque a sacerdotisa que o iniciou tem suas origens religiosas de Candomblé no terreiro Corconda de Iaia, praticante da tradição Jeje Savaluno, na Bahia. Algum tempo depois da iniciação, Marcos Ribeiro teve problemas com a sua mãe-de-santo e resolveu procurar outro sacerdote para pagar as obrigações. Assim, quem deu o grau de sacerdote a ele foi um babalorixá baiano, pai Edson, com quem permaneceu alguns anos. Problemas pessoais levaram ao
afastamento dos dois e pai Marcos, então, passou para as mãos de pai Walmir Fernandes, um sacerdote paraense com as mesmas raízes Jeje.
De forma que o Jeje está chegando ao Amapá através de sacerdotes paraenses que dizem terem sido iniciados em casas dessa nação. Embora suas feituras tenham ocorrido, por exigência dos orixás, dentro da tradição Ketu.
Um terreiro que se identifica como Jeje é o Funderê Ia Ejaredê, de propriedade de mãe Nina, fundado em 1996 a partir de uma casa de Umbanda. Mãe Nina passou pelo processo de iniciação em um terreiro de Candomblé Ketu, de propriedade de pai José Odesimin, que era filho de santo do pai Salvino. Problemas de relacionamento haviam afastado pai Salvino e pai José, e também levaram ao rompimento da mãe Nina com o seu babalorixá.
Como estava passando por uma série de dificuldades, Nina resolveu procurar uma sacerdotisa paraense que estava em Macapá atendendo filhos e clientes da cidade. O entendimento entre as duas ocorreu de imediato. Nina afirmou que decidiu colocar sua cabeça nas mãos da mãe Jokolosi, para a feitura de novos fundamentos, uma vez que estaria “mudando de águas”, isto é, passando para outra tradição religiosa.
Desde então, as duas vem trabalhando para tornar o Funderê Ia Ejaredê uma referência em Jeje no Amapá. Mãe Nina também busca tornar seu terreiro apto e capaz de uma maior atuação social em áreas como a da saúde, da capacitação profissional e geração de renda para os próprios membros e para a comunidade do entorno.
Um outro grupo de terreiros de Candomblé em Macapá é formado pelas casas do pai Armando Taocy, o Abassa de Assé Mutalajunsa; do pai José Odesimin, o Ilê Asé Ode Akueram; e o Terreiro de Mina Nagô “São Lázaro”, de propriedade da mãe Kátia Cilene. Esses sacerdotes são macapaenses praticantes da Cura, Umbanda e Mina, que aderiram ao Candomblé iniciando-se com sacerdotes baianos ou macapaenses da primeira geração, como é o caso do pai José Odesimin que iniciou no terreiro do pai Salvino, e da mãe Kátia iniciada na casa do pai Marcos Ribeiro.
Um terceiro grupo de terreiros é formado pelo Ilê Oju D’Oxossi, que tem como proprietário o pai Cláudio, natural do Rio de Janeiro, radicado em Macapá desde 1991, praticante do Candomblé Ketu; e o Abassá Gunzo Nzinga Lubondo – Goméia Neta, cujo responsável é o pai Júnior Kassumagê, também natural do Rio de Janeiro, residente em Macapá há aproximadamente quinze anos e praticante do Candomblé Angola.