O conceito de grava¸c˜ao em Alta Fidelidade, ou Hi-Fi, ´e anterior ao LP lan¸cado pela Columbia. A qualidade nos discos obtida a partir do LP s´o ser´a ampla- mente alcan¸cada gra¸cas `a grava¸c˜ao de Alta Fidelidade aliada ao registro em fita magn´etica.
Segundo artigo da M´usica e Disco:
Foi a Decca inglˆesa que lan¸cou, em 1945, o moderno disco de alta fidelidade gravado pelo sistema conhecido pelas iniciais FFRR (Full Frequency Range Recording), bem como o equipamento de alta fideli- dade necess´ario `a sua exata reprodu¸c˜ao. A partir dessa data entramos numa nova era na hist´oria da grava¸c˜ao e da reprodu¸c˜ao do som.52
Esse processo de grava¸c˜ao e reprodu¸c˜ao buscou uma abrangˆencia na faixa de freq¨uˆencias semelhante `a capacidade auditiva humana, ou seja, cerca de 10 oitavas (entre 20 e 20.000 Hz). Existia uma flexibilidade na faixa de capta¸c˜ao e reprodu¸c˜ao. Jorge Fernandes, autor da coluna “Alta Fidelidade” no jornal M´usica e Disco afirmou que os modernos discos de Alta Fidelidade alcan¸cavam uma faixa de freq¨uˆencias entre 30 e 15.000 Hz. A expans˜ao na capta¸c˜ao de freq¨uˆencias j´a era motivo de pesquisas por parte dos engenheiros da RCA Victor que, desde 1934, conseguiram que as matrizes dos discos alcan¸cassem 10.000 Hz, mas o resultado obtido nos discos prensados ficava entre 6.000 e 8.000 Hz. Em 1938 surgiriam os primeiros discos Telefunken, s´erie SK, cuja faixa de freq¨uˆencias se situava entre 30 e 10.000 Hz.53
Uma s´erie de artigos publicados a partir de outubro de 1956 no jornal de di- vulga¸c˜ao (que depois teria a aparˆencia e formato de uma revista) M´usica e Disco
52
M´usica e Disco. Alta fidelidade: O que ´e e como obtˆe-la. ´Org˜ao de divulga¸c˜ao das Lojas Palermo S/A, Rio de Janeiro, out. 1956, ano 1, no
3, s.p.
53
traziam explica¸c˜oes sobre a grava¸c˜ao e reprodu¸c˜ao em Alta Fidelidade e a apare- lhagem espec´ıfica para obtˆe-la. Um desses artigos apresentou uma conceitua¸c˜ao do termo Alta Fidelidade:
A Alta Fidelidade ´e um sistema de grava¸c˜ao e reprodu¸c˜ao que visa proporcionar a audi¸c˜ao da m´usica, em recintos dom´esticos com as mes- mas caracter´ısticas da execu¸c˜ao ao vivo, por ocasi˜ao da sua grava¸c˜ao no est´udio, sala de concerto, teatro, igreja ou qualquer outro local.54
As “caracter´ısticas da execu¸c˜ao ao vivo” a serem alcan¸cadas diziam respeito tanto `a melhoria buscada na aproxima¸c˜ao timbr´ıstica da sonoridade dos instru- mentos ou da voz quanto no volume da reprodu¸c˜ao sem distor¸c˜oes. Essa era uma das caracter´ısticas principais da Alta Fidelidade: maior alcance de freq¨uˆencias e uniformidade de reprodu¸c˜ao. Ou seja, os graves e os agudos deveriam ser repro- duzidos com mesma exatid˜ao pelo aparelho.55
A transforma¸c˜ao na escuta e na sonoridade foram marcantes. At´e ent˜ao, os discos e as r´adio-eletrolas (aparelhos que agregavam as fun¸c˜oes de reprodu¸c˜ao de r´adio e discos) possu´ıam pouco volume, desequil´ıbrio na faixa dinˆamica e uma abrangˆencia de freq¨uˆencias entre 100 e 5.000 Hz.
O artigo citado anteriormente ainda descreve as “qualidades fundamentais” que caracterizam a reprodu¸c˜ao de Alta Fidelidade:
1) N˜ao produzir fadiga auditiva; 2) Dar aos agudos reprodu¸c˜ao n´ıtida, natural, sem estridˆencia; 3) Reproduzir convenientemente os funda- mentais dos sons graves; 4) Possuir boa defini¸c˜ao dos diversos planos sonoros; 5) Reproduzir os instrumentos ou canto com o timbre natural; 6) Possuir um certo efeito de presen¸ca; 7) Poder funcionar aproxima- damente com a potˆencia m´axima sem perda da qualidade musical.56
Essa descri¸c˜ao nos d´a um panorama das transforma¸c˜oes que tal processo trouxe para a m´usica gravada, sobretudo no que diz respeito `a reprodu¸c˜ao dos agudos (fato que auxiliar´a na grava¸c˜ao e capta¸c˜ao das vozes femininas) e tamb´em ao “certo efeito de presen¸ca” mencionado. Com isso, a fonografia pˆode passar a utilizar uma nova ferramenta: o controle dos sons refletidos ou reverberados. No
54 Idem. 55 Idem. 56 Idem.
entanto, o sistema Hi-Fi n˜ao teria sido obtido na sua m´axima eficiˆencia se n˜ao fosse a possibilidade de registro em fita magn´etica.
Os est´udios americanos passaram a utilizar os gravadores de fita em 1949. Tais gravadores foram levados das r´adios alem˜as para os Estados Unidos ap´os a Segunda Guerra Mundial a fim de serem copiados. As grava¸c˜oes eram feitas em fita magn´etica (master) e depois transferidas para as matrizes onde seriam prensados os LPs.57
A grava¸c˜ao em fita magn´etica era mais vi´avel economicamente para os est´udios de grava¸c˜ao. Antes da fita, as matrizes feitas em discos de cera eram inutilizadas caso a performance gravada n˜ao estivesse boa. Com o registro em fita, al´em da melhoria na qualidade de reprodu¸c˜ao, in´umeras tomadas poderiam ser feitas em uma ´unica fita. Era poss´ıvel at´e sobrepor a grava¸c˜ao feita anteriormente, processo imposs´ıvel na grava¸c˜ao em disco. Mas talvez o maior benef´ıcio da grava¸c˜ao em fita tenha sido a possibilidade de edi¸c˜ao em um processo de est´udio chamado de p´os-produ¸c˜ao. Com a edi¸c˜ao, tornava-se poss´ıvel corrigir problemas na grava¸c˜ao, notas tocadas ou cantadas erradas, ou trechos inteiros poderiam ser retirados ou aproveitados de outras grava¸c˜oes. Este procedimento era praticamente de exclusi- vidade dos t´ecnicos, engenheiros de grava¸c˜ao e, em alguns casos, dos maestros. Em geral, os m´usicos e cantores passavam a coadjuvantes no processo de p´os-produ¸c˜ao. Essa nova etapa na fonografia ´e descrita em artigo da M´usica e Disco:
Ap´os o n´umero ter sido gravado em fita e aprovado pelos int´erpretes, pela dire¸c˜ao art´ıstica e t´ecnica, passa para os acetatos “Master”, cor- tados em gravador autom´atico do tipo “Scully”, onde se verificam os delicados trabalhos de “constru¸c˜ao do disco”, isto ´e, a sala de edi¸c˜ao, uma equipe de especialistas armada de tesouras e fitas colantes procede aos trabalhos de acabamento: cortar uma nota errada substituindo-a por outra perfeita tirada de outra fita; elimina¸c˜ao de ru´ıdos v´arios, etc.58
57
As pesquisas no campo do registro sonoro em fita magn´etica iniciaram-se no final do s´eculo XIX com o engenheiro dinamarquˆes Vladimir Poulsen. Sua inven¸c˜ao denominada “Telegraphone” foi apresentada na Exposi¸c˜ao Universal de Paris em 1900. In: M´usica e Disco. A fita magn´etica nasceu em 1899. Coluna “Milagres da Ciˆencia” por Mauricio Quadrio. ´Org˜ao de divulga¸c˜ao das Lojas Palermo S/A, Rio de Janeiro, dez. 1957, ano 2, no
s 16 e 17, p.12.
58
M´usica e Disco. Disco, como biscoito, nasce num forno. ´Org˜ao de divulga¸c˜ao das Lojas Palermo S/A, Rio de Janeiro, jul. 1957, ano 1, no
12, p.10. Na verdade a descri¸c˜ao da revista est´a numa ordem inversa. O processo de montagem e corte se dava antes da grava¸c˜ao final nos gravadores Scully.
Esta mesma mat´eria publicada em 1957 afirmava que “quase todos” os est´udios brasileiros possu´ıam gravadores de fita “Ampex 300”59
com microfones Telefunken e Altec.60
A grava¸c˜ao em fita, como vimos, atuou na constru¸c˜ao do disco de alta fi- delidade e representou no est´udio uma flexibilidade na performance de m´usicos e cantores que n˜ao mais precisavam temer a exigˆencia da primeira tomada. Ao mesmo tempo, a utiliza¸c˜ao deste recurso tecnol´ogico agregou uma maior complexi- dade no processo de produ¸c˜ao das obras musicais. A especializa¸c˜ao e a inclus˜ao de novos profissionais na cadeia produtiva era uma exigˆencia cada vez mais patente.