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No Brasil, uma tradição de ideias liberais remonta aos fins do século XVIII, tendo impulsionado a Inconfidência Mineira (1789), a Conjuração do Rio de Janeiro (1794) e a Revolução Pernambucana (1817). Nessa fase, as organizações democráticas e liberais apareciam como que indiferenciadas. A abolição do sistema colonial, libertação gradual dos escravos e extinção dos privilégios e riquezas configuraram reivindicações gerais que

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pareciam atender aos interesses das camadas sociais emergentes com a diversificação da estrutura social.

Despojadas de suas raízes anticlericais e distantes do universo social e intelectual que fez do liberalismo europeu a ideologia negadora dos reais fundamentos da submissão do trabalho ao capital, os princípios liberais na sociedade brasileira pré-independência adquiriram sentido predominantemente antimetropolitano. Significava, quando muito, a luta contra os monopólios e privilégios instituídos e apropriados pela Coroa portuguesa. No entanto, sob as fórmulas abstratas e universalizantes da soberania popular, da liberdade de manifestação, da igualdade jurídica e da emergência de representatividade, ocultavam-se modos diversos de se inscrever a prática da ideologia liberal. As reivindicações nascidas no bojo dos movimentos emancipatórios revestiram-se de significação própria quando adotadas por elites proprietárias rurais ou nos grupos urbanos pobres. Para as elites proprietárias rurais, a agenda liberal significava propriedade, liberdade, modernidade e civilização, mesmo defendendo um projeto político de âmbito nacional que mantinha a propriedade escrava, não possuía pretensões democratizantes e nem manifestava qualquer intenção de transformar o país numa república. Uma agenda assim não tinha como premissas a igualdade jurídica, política e social. Já para os grupos urbanos pobres, ao contrário, o liberalismo significava o fim da miséria, das desigualdades, dos privilégios e das diferenças de raça.

Essas maneiras diferentes de conceber a prática das ideias liberais acompanharam a vida social e política da sociedade brasileira no século XIX desde a formação do Estado nacional. Com isso, o descompasso brasileiro em termos da política e da economia em relação aos países europeus, que sempre foi enorme, acabou se repetindo também no campo das ideias. No Brasil, as “modas” em termos de correntes de pensamento se sucediam, defasadas e sempre apreendidas a partir das modificações que encontravam aqui.

Políticos, intelectuais e até proprietários de escravos não viam problema algum em defender as ideias liberais e, ao mesmo tempo, o estatuto da escravidão. É como se em terras brasileiras os sistemas políticos e as ideias funcionassem com outra lógica. Essa outra lógica tornava a situação ridícula, transformando-a no “quiproquó das ideias” a que se refere Schwarz (2000: 19). Até porque se as ideias liberais, na Europa, encobriam dificuldades sociais, aqui não encobriam nada. Como falar em igualdade de direitos numa sociedade escravocrata?

A igualdade de direitos a que os liberais desse período se referiam era, portanto, extremamente limitada: igualdade para os proprietários, para os integrantes de uma mesma

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classe, com a exclusão da grande maioria da população. Não é por acaso que Schwarz denomina de “ideia fora do lugar” o liberalismo adotado no Brasil. O “requinte” da classe dominante brasileira para fazer com que determinadas situações se parecessem com o original europeu beirava ao ridículo. Um exemplo disso pode ser visto na arquitetura, mas pode ser detectado em diversas outras áreas.

A transformação arquitetônica era superficial. Sobre as paredes de terra, erguidas por escravos, pregavam-se papéis decorativos europeus ou aplicavam-se pinturas, de forma a criar a ilusão de um ambiente novo, como os interiores das residências dos países em industrialização. Em certos exemplos, o fingimento atingia o absurdo: pintavam-se motivos arquitetônicos greco-romanos - pilastras, arquitraves, colunatas, frisas etc.- com perfeição de perspectiva e sombreamento, sugerindo uma ambientação neoclássica jamais realizável com as técnicas e materiais disponíveis no local. Em outros, pintavam-se janelas nas paredes, com vistas sobre ambientes do Rio de Janeiro, ou da Europa, sugerindo um exterior longínquo, certamente diverso do real, das senzalas, escravos e terreiros de serviço. (Reis Filho apud Schwarz, 2000: 23)

Em Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda (1993: 119) foi também um dos precursores na abordagem da questão da assimilação de ideias por parte da elite brasileira, considerando-a não só inconsistente, como indiferente ao contexto social. Fato que, a seu ver, tornou possível a assimilação de todas as ideologias que chegavam ao país, inclusive daquelas que, a exemplo do liberalismo, no seu local de origem tiveram papel crítico e transformador da sociedade.

A ideologia impessoal do liberalismo democrático jamais se naturalizou entre nós. Só assimilamos efetivamente esses princípios até onde coincidiram com a negação de uma autoridade incômoda, confirmando o nosso instintivo horror às hierarquias (...) A democracia no Brasil sempre foi um lamentável mal-entendido. Uma aristocracia rural e semifeudal incorporou-a e tratou de acomodá-la, onde fosse possível, aos seus direitos e privilégios, os mesmos privilégios que tinham sido, no Velho Mundo, o alvo da luta da burguesia contra os aristocratas. E assim puderam incorporar à situação tradicional, ao menos como fachada ou decoração externa, alguns temas que pareciam os mais acertados para a época e eram exaltados nos livros e discursos. (Holanda, 1993: 119)

A Revolução de 1930 traz inovações, mas não consegue alterar esse processo. Apesar de o movimento que deu vitória a Getúlio Vargas chamar-se Aliança Liberal, demonstrando a influência dessas ideias, chegam ao poder correntes desencontradas de pensamento, com maior ênfase no positivismo, na aposta de um mundo articulado e organizado em bases racionais. A indústria passa a ser, no contexto da política de substituição de importações, o principal fator dinâmico do crescimento econômico. O Estado lança os pilares dessa profunda transformação econômica, pela ênfase que dá nas indústrias de base – como siderurgia e petróleo – e pela construção de uma infraestrutura para o crescimento capitalista em grande

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escala. Mesmo assim, não demorou a que o clientelismo e o favor reaparecessem agora sob a égide do próprio Estado. Como assinala Leal, o quadro revela como “o coronelismo tem sido, no Brasil, inseparável do regime representativo em base ampla” (Leal, 1997: 274).

Esse quadro indica como a “importação” do capitalismo de “fora para dentro” e através de suas práticas institucionais fez com que ideologias como o liberalismo funcionassem apenas como uma espécie de “graxa simbólica”, destinada, como assinala Souza (2012: 185), a “facilitar a introdução dos contratos e da representação elitistas no contexto primitivo e personalista anterior”. Razão pela qual ele enfatiza que, aqui, o liberalismo teve um sentido e um lugar preciso, sendo o ideário do mercado em expansão e das classes que ganharam com essa mesma expansão.

(...) A leitura dominante sobre o Brasil, desde a reflexão metódica até o senso comum, pressupõe o império do ‘personalismo’ e seus atributos de emocionalidade, calor humano e sentimento, na vertente que celebra essa tradição, e de corrupção, privilégio e favor, na vertente que a condena e critica. O terreno é compartilhado por todos, o que faz com que qualquer proposição que use esse tipo de discurso seja tida, sem discussão, como verdadeira. Os ‘lados’, no entanto, são diferentes. Pode-se louvar como pode-se criticar essa suposta maneira de ser brasileiro. A inteligência do liberalismo brasileiro foi de tomar para si um vocabulário que todos entendem, e aqui não importa que essa leitura não descreva a realidade de modo confiável, e acrescentar a ela, ainda por cima, o ‘charme’ da suposta crítica. (Souza, 2011: 60)

O autor agrega ainda, como elemento capaz de explicar o sucesso do liberalismo entre nós, o desconhecimento do leigo acerca do efetivo funcionamento de uma sociedade moderna, muito especialmente das suas duas instituições fundamentais, que são o mercado competitivo e o Estado centralizado. Razão pela qual, na sua ótica, as “pseudocríticas” sobre as origens dos problemas brasileiros defendidas por Holanda, Faoro ou Roberto DaMatta na realidade acabam consolidando o que denomina de “violência simbólica”, que irá possibilitar, em nome da oposição superficial entre Estado como reino da ineficiência e da corrupção, e mercado, como reino de todas as virtudes, a invisibilidade de todos os conflitos sociais brasileiros.

Dito de outra forma, Souza confirma o argumento de Schwarz. Posições liberais sempre foram reivindicadas pelos proprietários da mídia brasileira os “barões” ou “magnatas”, avessos às mudanças, à crítica e à transparência. Pessoas que, mesmo nos dias atuais, consideram qualquer forma de controle social como sendo sinônimo de censura ou de restrição à liberdade de imprensa, numa típica demonstração de que continuam com as ideias fora do lugar. Nesse aspecto, cabe perguntar: quando a mídia comercial defende a liberdade de imprensa, ela está se referindo à liberdade de imprensa ou à liberdade de empresa, ou seja,

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ao direito de divulgar o que bem entender, sem qualquer compromisso com a sociedade? (Cf. Lima, 2012). Na ótica de Souza (2011), no entanto, não há contradição nessa posição, na medida em que o liberalismo, como visão de mundo, seria uma forma de falsear a realidade:

(...) Ainda que a defesa liberal das liberdades individuais seja hoje um pressuposto de qualquer sociedade verdadeiramente democrática, o liberalismo como visão de mundo falseia sistematicamente o mundo ao mostrá-lo como produzido por vontades individuais ilimitadas, como nas novelas e na política ‘novelizada’. Mas o quadro das variações e possibilidades ilimitadas simplesmente não é verdadeiro, muito embora esteja em todas as propagandas de banco ou de carro, em todas as telenovelas e programas de televisão e em praticamente todos os filmes e livros que se tornam best sellers. (Souza, 2011: 390)

Benzer Belgeler