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O ponto de partida é a década de 1930, período marcado por mudanças que iriam alterar a face do Brasil. A década coincide, também, com o início da radiodifusão no país. Uma crise aguda da ordem oligárquica leva ao poder Getúlio Vargas. Mas a revolução por ele encabeçada não foi longe o bastante para romper com a organização social vigente. É nessa época que surgem algumas das interpretações clássicas sobre a formação da sociedade brasileira. Interpretações que buscavam explicar as tradições, as heranças portuguesas, as marcas do escravismo, os obstáculos e as possibilidades de formação do povo, enquanto coletividade de cidadãos. Interpretações que buscam explicar, igualmente, os antagonismos entre o público e o privado, as contradições de classe, a democracia, o Estado forte, as debilidades da sociedade civil, o potencial das lutas no campo e na cidade, procurando reduzir o hiato entre o que acontecia aqui e no mundo.

Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, publicado em 1936,63 é uma das interpretações, talvez a principal delas, sobretudo por ter suscitado uma série de obras a respeito da identidade cultural, política e social do país.64 Um dos aspectos mais importantes desse livro foi ter demonstrado que a independência do Brasil não se fez em 1822, pois a formação de uma nação não pode ser entendida apenas em termos de sua administração. Ao proclamar sua independência de Portugal, o Brasil herdou uma tradição pouco encorajadora, marcas que se faziam necessário superar. A principal e a mais problemática delas era a falta de uma efetiva identidade brasileira. Os traços da colonização portuguesa continuavam visíveis e profundos. Como assinala Holanda,

A tentativa de implantação da cultura europeia em extenso território, dotado de condições naturais, se não adversas, largamente estranhas à sua tradição milenar, é, nas origens da sociedade brasileira, o fato dominante e mais rico. Trazendo de países distantes nossas formas de convívio, nossas instituições, nossas ideias, e timbrando em manter tudo isso em ambiente muitas vezes

63 A primeira publicação de Raízes do Brasil teve apresentação de Gilberto Freyre.

64 Sérgio Buarque de Holanda é apontado por pesquisadores como Sandra Jatahy Pesavento como um inovador

e um antecipador em relação à Escola dos Annales e mesmo em relação a correntes contemporâneas como a chamada História Cultural.

73 desfavorável e hostil, somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra. (Holanda, 1993: 3)

O personalismo ibérico, fazendo apologia da autonomia da pessoa, concebia o trabalho de forma negativa, como algo que aviltaria e prejudicaria a própria dignidade humana. Transposta para o Brasil, a ordem social que passa a vigorar na colônia está, para Holanda, na raiz dos nossos problemas. O centro de toda organização dos domínios rurais era a família patriarcal, estruturada segundo as normas do antigo direito romano-canônico. Incluem-se no seu círculo não só os parentes de sangue, mas também os agregados, escravos domésticos e das plantações. Nela, o pátrio poder é quase ilimitado, manteve-se sempre imune às pressões ou restrições de fora.

A propriedade rural estava sujeita a esse poder rígido e compacto. Até 1889, os grandes proprietários rurais eram também proprietários de escravos. Embora ligada à escravidão, a grande propriedade rural possuía características próprias e teve vida muito mais longa. Ainda hoje, a grande propriedade improdutiva é uma realidade em várias regiões do país, envolvendo conflitos e problemas de ampla magnitude. O fator mais negativo para a identidade e a cidadania no Brasil foi, sem dúvida, a escravidão. A sociedade colonial era escravista de alto a baixo. Era tão grande a força da escravidão que os próprios libertos adquiriam escravos. Que os grandes proprietários e senhores considerassem normal ou necessária a escravidão, é algo que pode ser entendido. Mas que escravos, uma vez libertos, adquirissem escravos é algo que merece reflexão.

A Independência não reduziu a importância dos senhores rurais, cujo poder, com poucas alterações, se mantém e atravessa toda a chamada República Velha (1899-1930). Na ausência de uma burguesia urbana independente, as principais ocupações na cidade acabaram sendo preenchidas por donos de engenhos, lavradores ou seus descendentes. Pessoas que transportaram para as cidades a mentalidade e o próprio estilo de vida dos domínios rurais. O indivíduo formado em um ambiente dominado pela escravidão e pelo patriarcalismo dificilmente conseguirá distinguir entre o domínio privado e o domínio público. Razão pela qual tende a comportar-se como um funcionário “patrimonial”, para o qual, segundo Weber (apud Carvalho, 2001: 105),

A própria gestão política apresenta-se como assunto de seu interesse particular; as funções, os empregos e os benefícios que dele aufere, relacionam-se a direitos pessoais do funcionário e não a interesses objetivos, como no verdadeiro Estado burocrático, em que prevalecem a especialização das funções e o esforço para se assegurarem as garantias dos cidadãos.

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No Brasil, essa realidade acabou predominando; tanto na administração pública quanto nas mais diversas áreas, o modelo de relações gerado na vida doméstica, a esfera dos laços afetivos e do parentesco, mostrava-se presente. A conformação da vida em sociedade pelo crivo da vida rural e patriarcal produziu, no plano psicossocial, o que Holanda considera “a contribuição brasileira para a civilização”: a cordialidade. Caracteriza o homem cordial a simpatia no trato, a hospitalidade, a generosidade, mas também a inimizade e outras condutas similares, desde que nascidas do coração. A cordialidade não tem nada a ver com boas maneiras, como poderia supor o senso comum, nem com a civilidade. Na realidade, o indivíduo, valendo-se da máscara da polidez, mantém sua supremacia sobre o social. Dito de outra forma, a cordialidade é a tentativa de reconstrução fora do ambiente familiar do mesmo tipo de sociabilidade da família patriarcal. Por essa visão, o Estado brasileiro seria dominado pelo “patrimonialismo”, ou seja, por uma gestão da política baseada no interesse particular por oposição ao interesse público. A partir daí, com a construção do binômio personalismo/patrimonialismo, tem-se a constituição de uma interpretação sobre o país que se tornaria dominante tanto na academia quanto no senso comum do brasileiro. E mesmo Holanda alertando que não haveria solução simples para o descompasso entre sociedade e política no Brasil e que seria necessário incluir no Estado as camadas sociais excluídas, ele não tinha ilusões quanto às dificuldades que seriam encontradas. O que não o impedia de ser otimista em relação ao futuro.

Benzer Belgeler