Apesar da dificuldade com a língua inglesa, Ratão diz que este não foi um entrave ao trabalho, embora os contatos iniciais, ao menos até que fosse desenvolvido algum sistema de comunicação eficiente entre ele e o outro, fossem necessariamente mediados por um tradutor:
No contato com o Luke, tinha intérprete inicialmente. Depois a comunicação rolou, ainda mais que a gente trabalha com imagem. Foi incrível. Fiquei surpreso comigo mesmo: sem falar uma palavra em inglês consegui me comunicar, manter um diálogo. Foi desafiador e ao mesmo tempo prazeroso, porque você conquista uma barreira que não é fácil. Eu aprendi a andar de ônibus melhor do que de metrô – e funcionava melhor para ver a cidade. Pegava um ônibus de qualquer linha, ia até o ponto final e voltava, até encontrar algum grafite. Encontrei muitos nessa busca.
A dificuldade com a língua foi a mesma em 2010 e em 2012, quando a oportunidade da residência artística permitiu a Ratão uma vivência diferente da cidade:
Falando ou não inglês, eu consigo me virar. Quando voltei para Londres foi super de boa. Me senti local. E, sem dúvida, o fato de estar visitando pela segunda vez na cidade facilitou. Já a questão da alimentação, do paladar, foi muito desafiadora. Aquela batata frita e o peixe não desceram pra mim. Mas fiquei em Brixton, bairro negro, que tinha uma culinária muito semelhante à brasileira. Era um feijão parecido com a fava, alguma carne ensopada. Aí consegui me virar e ia lá para, além de trabalhar, comer. Meu almoço era lá. Quando eu chegava, a galera já sabia o que eu queria.
Em Londres, andando para todos os lados, Ratão refletiu bastante sobre questões como a mobilidade na cidade e o olhar sobre a periferia e o
78 olhAr A pArtir do olhAr do outro
território da Maré, que, na época, estava ocupado pelo Exército, na iminência da instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora, que afinal não se concretizou. A esse respeito, comenta:
Fotografo muito a Maré, mas essa ocupação do Exército, de alguma forma, tem me intimidado. Rola um desconforto com o risco de alguém perguntar pra quem a gente está fotografando. Eu nunca fui questionado antes pelo movimento. Pelo Exército, sim, já vivi duas situações. Outros fotógrafos também e alguns tiveram que apagar a foto. A gente agora está nessa expectativa de como vai ser essa outra etapa aqui na Maré, porque está acontecendo uma transição do Exército para a polícia. Vamos ver o que vai acontecer. O Exército não cria relação nenhuma com a comunidade. É um olhar muito de cima, muito autoritário. A polícia é essa coisa do conflito mesmo, de achar que todo mundo está na mesma panela. Então essa é a expectativa que a gente fica sobre o próximo capítulo.
Nascido e criado na Maré, Ratão Diniz diz que não pensa em sair da mesma casa em que viveram seus pais e na qual continua morando:
Sair da Maré não saio, não. Só se for para uma cidade do interior. Para outro bairro do Rio, não vou nem a pau. Aqui é meu lugar de
pertencimento, da história dos meus pais. É o lugar da minha família. Depois da perda da minha mãe, há dois anos, fiquei uns cinco meses sem querer viajar. Abri mão de várias viagens, queria refletir sobre questões da identidade, das raízes, da minha história.
A grande comunidade de fotógrafos na Maré também é um motivo que Ratão cita para permanecer no bairro: “A Maré tem muitos fotógrafos e
somos vizinhos. A gente fica pedindo equipamento um ao outro, e acaba quase comprando a mesma marca para poder fazer essa troca. É uma estratégia de cooperação”. Ratão sonha, inclusive, com a possibilidade de terem um
espaço compartilhado: “Ter um lugar pra gente trabalhar ia ser maneiro. Um
escritório, umas mesas, computador, e aí a gente ficaria lá produzindo junto”,
diz ele, que em 2015 lançou seu primeiro livro, Em foto, pela editora Mórula. Reconhece, entretanto, que sair da Maré através das experiências de intercâmbio modificou sua percepção sobre aspectos importantes de sua vida e atuação como fotógrafo e artista. Ao se dar conta das diferenças entre o que se entende por periferia numa cidade e na outra, Ratão pôde
relativizar o sentido desse termo e perceber seu caráter contextual. Com isso, passou a problematizar também o pressuposto de que a origem do
79 olhAr A pArtir do olhAr do outro
fotógrafo é determinante do modo como se retrata a periferia. Ele dá exemplos que justificam esse reposicionamento:
Uma vez, um amigo de Pernambuco, o fotógrafo Luís Santos, que fazia um projeto numa favela de Recife, me disse: “Eu não moro na favela e fotografo a periferia de Recife de forma super honesta”. Ele tem razão. A Kita Pedrosa não vem de periferia. Nem a Tatiana Altberg, que faz um trabalho incrível, fabuloso, o Mão na Lata,4 juntando textos literários e
imagens de pinhole. Quem já tinha feito isso aqui na Maré antes? A sensibilidade é de cada um, não de onde a pessoa vem ou da classe que é.
NOTAS
1. Grupo cultural surgido em Vigário Geral, depois de um episódio de extrema violência: a chacina de 21 pessoas, em 1994. Realizado por policiais militares, o crime foi uma resposta à morte de quatro policiais, dias antes, vítimas do tráfico da região. Todos os mortos eram inocentes.
2. Programa de residência artística realizado em Londres, na época das Olimpíadas de 2014, promovido pela Secretaria Estadual de Cultura do Rio de Janeiro e British Council.
3. Projeto que reúne instituições que trabalham com jovens em situação de vulnerabilidade social do Reino Unido e do Brasil, como o grupo cultural AfroReggae, que se apresentou em Londres, em 2010.
4. Programa de intercâmbio cultural entre Pontos de Cultura do Brasil e instituições de arte e cultura do Reino Unido, com visitas recíprocas.. Mais informações: http://www.peoplespalaceprojects.org.uk/projects/ points-of-contact-2012/
5. Programa de residência artística realizado em Londres, na época das Olimpíadas de 2014, promovido pela Secretaria Estadual de Cultura do Rio de Janeiro e British Council.
6. Projeto de educação para adolescentes, de 11 a 17 anos, que ensina a técnica de fotografia pinhole, desenvolvido pela fotógrafa Tatiana Altberg e a Redes de Desenvolvimento da Maré, desde 2003.
80 olhAr A pArtir do olhAr do outro