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Favela é como cidade pequena, do interior: todo mundo se conhece seja de vista, por apelido ou referência da família. A questão do apelido é muito forte. Quando publiquei a primeira foto, meu nome apareceu como Marcos Diniz. Fui mostrar para uns amigos vizinhos a foto que saiu no JB e eles disseram que a foto não era minha. “Como é que você sabe se é sua?”, “Tá aqui meu nome: Marcos Diniz”, “Seu nome não é Marcos, é Ratão”. Foi quando pensei em assinar como Ratão Diniz.

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Dos primeiros alunos do Imagens do Povo, Ratão Diniz foi também um dos pioneiros a participar de um intercâmbio internacional. Foi a Londres pela primeira vez em 2010, como um dos responsáveis pelo registro fotográfico do projeto Cultural Warriors,3 realizado com o Grupo Cultural AfroReggae,

no contexto do projeto Pontos de contato.4 Na segunda vez, em 2012, foi

escolhido como um dos 30 artistas cariocas do programa Rio Occupation London,3 realizado durante as Olimpíadas. Autor de um trabalho de

documentação consistente sobre a arte do grafite no Brasil, Ratão Diniz ficou um mês fotografando a cena do grafite em Londres, interessado na relação da arte urbana com a arquitetura tradicional e contemporânea daquela cidade.

Nas duas viagens, voltou sob o impacto das diferenças observadas no cotidiano londrino, que considera tão importante quanto a experiência profissional.

Acho que todo mundo deveria ter a experiência de viajar para outro país, especialmente para os que funcionam bem, para pensar porquê as coisas no Brasil não funcionam e poder cobrar. Não é possível que aqui os serviços não funcionem, não possam funcionar. Por exemplo, o transporte, que é um direito do indivíduo. A gente tem, sim, que conhecer outras experiências e fazer com que a nossa realidade seja transformada para melhor. Viajar me fez refletir sobre isso.

Para desenvolver seu projeto sobre grafite durante a Rio Occupation, Ratão Diniz circulou bastante por Londres. E é com entusiasmo que fala sobre os resultados:

Fiquei feliz pra caramba com o resultado desse trabalho porque fui além do que eu consegui fazer no Rio. Eu tinha três semanas para produzir aquele material. Workshop é legal por isso: a gente tem que ter disciplina. A residência permite isso: você tem aquele período para conseguir resolver sua criação. Eu fui muito focado: foram três semanas intensas mergulhado nisso. Meu trabalho foi acompanhar um grafiteiro inglês, o Luke. Primeiro fiquei em Brixton, um bairro negro onde eu estava sediado, mas fui me estendendo para outros bairros de Londres. Inicialmente eu ia com ele – até como estratégia para conseguir os contatos e as articulações. Depois, comecei a sair com outros grafiteiros também.

Escolhi esse tema por conta de um trabalho sobre a cena de grafite no Rio, que venho fazendo desde 2007. Saber como é esse processo de criação sempre me instigou muito. O grafite lá é muito diferente do

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Brasil. Há poucos lugares para grafitar, porque é proibido. Embaixo da estação de Waterloo a galeria é toda grafitada. A gente ia pra lá e eu fotografava uma ação de alguns grafiteiros. No dia seguinte ia com outro grafiteiro e já não encontrava mais aquele feito no dia anterior. No Brasil, no Rio de Janeiro, isso não acontece. Há um código: um grafiteiro não pode pintar por cima do trabalho de ninguém na rua. Eu adorava aquela galeria porque sempre tinha um grafiteiro fazendo alguma coisa. E eu gostava de passar naquela estação, que é central. Dali eu podia ir para vários lugares, era minha referência.

Através da relação com Luke, Ratão pôde se ver, finalmente, como um artista em horário integral, dedicando todo o tempo à proposta de acompanhar um grafiteiro, inclusive em seu ambiente familiar. Essa visita permitiu com que Ratão finalmente realizasse um antigo projeto. “Essa é uma coisa que sempre quis e nunca consegui fazer no Rio: fotografar os grafiteiros no seu dia a dia. O Luke nunca tinha recebido ninguém em casa para fotografar a intimidade dele com os três filhos, dando banho nas crianças, trocando de roupa”, conta.

O trabalho final Ratão considera ser uma parceria entre o fotógrafo e o grafiteiro, numa experiência criativa inédita para ele. Como relata:

Apresentei uma interação do grafite junto com a foto. Foram três painéis que a gente montou: um mais geral, do grafite na cidade, um do trabalho do Luke, e outro com imagens dele com a família. Cada painel tinha um conjunto de seis fotos e o Luke grafitou todos eles. Foi muito legal porque ele não falava português, e eu não falava inglês, mas a comunicação rolava e foi incrível como a coisa fluiu. Eu mostrei o desenho do que eu queria fazer para ele, que dava ok. Ele criou alguma coisa num rascunho no papel, que eu não guardei e tenho a maior pena disso. Ele me disse que ia fazer algumas coisas sem poluir a fotografia e sem interferir tanto, só interagir. Eu nunca tinha feito nada parecido antes.

O interesse de Ratão pelo grafite também tem a ver com as características da produção dessa arte que agrega outros artistas, que circula e, ao mesmo tempo, é efêmera. Ele explica:

Tenho muita identidade com o trabalho do grafiteiro, que se reúne para pintar e poder estar com os amigos. Quanto mais lugares grafitarem, mais reconhecimento eles têm. O grafiteiro tem isso de circular nos espaços, de estar com as pessoas e de fazer uma coisa na qual eles acreditam, e fazem porque gostam, seja política ou esteticamente. A

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fotografia que eu faço é um pouco isso. O grafiteiro sabe que seu trabalho vai ter um tempo limitado na parede, seja porque a prefeitura vem cobrir, alguém vai colar propaganda em cima, ou um outro grafiteiro vai pintar por cima, apesar do código vigente entre eles, ou porque o próprio tempo vai apagar seu trabalho. Eu também não me preocupo se meu trabalho vai sumir, apagar. A proposta é essa. Tanto que tenho pensado em usar o tecido em varais como suporte das imagens.

Benzer Belgeler