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Alfabetização e letramento se entrelaçam, por se tratar de dois processos que, de certa forma, se complementam. Alfabetização aqui é entendida como apenas um tipo de prática do letramento; alfabetizado é aquele que sabe ler e escrever; letrado é aquele que faz uso social da escrita, nas mais diferentes esferas e situações sociais. Vejamos o que diz Soares (2003)

Dissociar alfabetização e letramento é um equívoco porque, no quadro das atuais concepções psicológicas, lingüísticas e psicolingüísticas de leitura e escrita, a entrada da criança (e também do adulto analfabeto) no mundo da escrita se dá simultaneamente por esses dois processos: pela aquisição do sistema convencional de escrita – a alfabetização, e pelo desenvolvimento de habilidades de uso desse sistema em atividades de leitura e escrita, nas práticas sociais que envolvem a língua escrita – o letramento (p.11-12).

A alfabetização é uma etapa em que se aprende o sistema de codificação de fonemas e decodificação de grafemas, bem como o aprendizado do alfabeto e do sistema ortográfico da língua escrita. Se trata de um momento em que a criança ou adulto aprende a ler, mas não necessariamente torna-se um leitor e um escritor competente, isto é, ainda não possui o domínio da língua culta e não sabe transpor a linguagem oral para a escrita com competência linguística. Assim, a alfabetização é uma etapa do letramento.

A palavra letramento surgiu na década de 1980 no mundo, trazida no mesmo período para o Brasil por especialistas das áreas de educação e das ciências linguísticas como Mary Kato, Leda Verdiani Tfouni, Ângela Kleiman e Magda Soares que desenvolvem pesquisas e discussões teóricas e metodológicas sobre o fenômeno do letramento, embasadas em pesquisas de Graff (1994) e Street (1995) sobre letramento e

34 alfabetismos. Quanto à origem etimológica da palavra letramento, ela é uma versão em português da palavra literacy. Conforme explica Soares (2001):

(...) a palavra literacy vem do latim litera (letra), com o sufixo- cy, que denota qualidade, condição estado, fato de ser (como, por exemplo em innocency, a qualidade ou a condição do inocente. (...) Ou seja: literacy é o estado ou condição que assume aquele que aprende a ler e escrever (p.14).

Ao adquirir essa condição de leitor, há diversas mudanças sociais, cognitivas e linguísticas que o sujeito incorpora. A pessoa passa a interagir de outro modo nessa cultura letrada, fazendo uso social dessa aprendizagem, logo tornando-se um ser letrado. Por essa razão letramento e alfabetização são termos e conceitos que se entrelaçam. A alfabetização, segundo os teóricos que utilizo para embasar esta pesquisa e também os Parâmetros Curriculares Nacionais, é um momento da educação básica que ocorre nos anos iniciais do primeiro ao quinto ano, embora se estenda, aprofunde e aprimore por toda a educação básica. Já o letramento, como prática social, tem início antes do período escolar e se estende por toda a vida, é um processo em que a pessoa não só aprende a ler, mas ela faz da leitura e da escrita uma habilidade, uma competência cotidiana que lhe ajuda e lhe serve de locomoção e comunicação nas mais diferentes situações e esferas sociais, tanto para o lazer, quanto para o trabalho ou mesmo para a educação continuada.

A criação da palavra letramento, advinda da palavra letra (forma portuguesa de

litera) e “mento”, sufixo que resulta de ação, vem do resultado da ação de ensinar e

aprender as práticas sociais da leitura e da escrita. Surgiu após termos superado parcialmente a problemática do analfabetismo, que era a condição de quem não sabia ler nem escrever. Percebeu-se que, após aprender a ler e escrever, era necessário, nas sociedades em desenvolvimento e nas desenvolvidas, outras competências como a capacidade de autoria para a escrita, de interpretação e argumentação dos mais diversos gêneros textuais, a habilidade de aprender sozinho lendo um manual de instruções, um texto de uma legislação, um texto técnico, científico, um livro, uma bula de remédio, uma fábula, um contrato de aluguel, as normas do condomínio, a orientação para se usar um programa de computador, enfim uma leitura capaz de compreender e extrair sentido dos

35 mais diferentes tipos e finalidades de textos. Tais competências se tornaram imperativas nas sociedades modernas, daí que surgiram as críticas às práticas de ensino que somente alfabetizavam no sentido restrito e que limitavam o aluno ao aprendizado de A a Z de uma cartilha sem nenhum sentido social.

Ao utilizar metodologias prontas, a escola ignora que a criança, mesmo sem saber ler e escrever, ao chegar à escola ela já é letrada. Isto é, ela já é letrada se já sabe que usamos a escrita para nos comunicar, ela já é letrada se tem o hábito de brincar/fingir que escreve uma carta à sua mãe, se pede a um adulto que leia determinada palavra, se ao ver o símbolo ou a marca de algum alimento que gosta de ingerir ela sabe do que se trata, por exemplo ao ver a palavra “coca-cola”, ela já sabe a que se refere, ela também já é letrada se costuma ouvir histórias de livros infantis lidos por outras pessoas para seu entretenimento. Enfim, ela é letrada se já possui alguma relação de contato com a leitura.

Logo, não pode ser tratada na escola como alguém que chega zerada, até porque a linguagem escrita é constituída social e culturalmente e se dá de modo diferente nas comunidades carentes e com crianças de famílias abastadas. Por vezes, o tipo de leitura valorizada é a do cotidiano/da oralidade, pode ser até rudimentar e normalmente não é valorizada pela escola. A escola valoriza a leitura da cultura dominante e deveria também proporcionar o acesso ao material escrito a todos os alunos, trazendo para sala de aula diferentes portadores textuais desde os primórdios da alfabetização, com leituras e escritas de textos que tenham sentido para o aluno, com escritas de textos reais que tenham um destinatário real, bem como possibilitando a criança interagir com textos produzidos por ela mesma, percebendo-se também autora, num processo em espiral entrelaçando alfabetização e letramento. Assim como fazendo um ensino simultâneo da leitura e da escrita, que por vezes na escola é dicotomizado, conforme critica Scarpa:

(...) é só a visão de linguagem, aprendizagem e desenvolvimento que a escola tem – que é fragmentária e descontextualizante – que a torna responsável por uma ruptura de processo, na medida em que promove o estranhamento do sujeito e toma como

ponto de partida e o ponto de chegada, supondo como categoria pronta o

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A forma que se usa “tradicionalmente” para alfabetizar uma criança ao invés de aproximá-la, afasta-a do prazer de saber, pois tudo que ela sabia antes de entrar na escola perde seu valor, muito embora o grau de letramento de uma criança dependa da instituição familiar a que pertence, isto faz com que ela tenha tido previamente um maior ou menor contato com a linguagem escrita, sendo que ela invariavelmente o teve, porque vivemos numa sociedade grafocêntrica.

Benzer Belgeler