• Sonuç bulunamadı

"O espírito pode mudar de metafísica; o que não pode é passar sem metafísica" (Gaston Bachelard, A Filosofia do Não).

Igualmente não são muitas também as menções na obra de Derrida a Gaston Bachelard (1884-1962), epistemólogo fundamental para o pensamento francês do século XX. O ensaio em que recebe maior destaque é A Mitologia Branca, no qual a resistência de Bachelard às metáforas302 é posta em questão, como já ocorrera em Husserl e Aristóteles nas seções antecedentes do texto. Bachelard é descrito aqui como "fiel à tradição", não colocando a metáfora imediatamente como óbice ao conhecimento, mas distinguindo entre as "boas" e "más" metáforas. Coloca a metáfora no nível pedagógico, concedendo-lhe "valor de ilustração" e retirando sua valia quando serve apenas como um simples exemplo, numa espécie de "cientificismo ingênuo", sem que o filosófo efetivamente trabalhe os casos que traz à tona. Estatuto ambivalente da metáfora, portanto303. Seguindo o texto, Derrida passa a Georges Canguilhem para chegar finalmente a Nietzsche, sem tomar propriamente posição mais geral em relação a Bachelard. Na obra posterior, contudo, há poucas menções ao epistemólogo.

Assim como ocorre com Bergson, contudo, os vínculos são nítidos. Fundamental será a abordagem científica transdisciplinar - característica também mais tarde fortíssima no estruturalismo - e sem as marcas do positivismo, em especial do positivismo lógico, sendo por isso livre do cientificismo ortodoxo e da obsessão demarcatória em todas as suas variantes304.

301 BERGSON, Henri. Introdução à metafísica, pp. 40-42. 302

A resistência de Bachelard às metáforas, analogias e comparações enquanto "obstáculos epistemológicos" está em diversos locais, p.ex., O Materialismo Racional, pp. 40-43.

303 DERRIDA, Jacques. La mythologie blanche (MP), p. 311. 304

Apesar disso, existe a influência do positivismo original de Auguste Comte no bom sentido, relacionando o trabalho do filósofo com o historiador das ciências (ver MARTIN, Roger. Épistémologie et Philosophie, pp. 63- 64).

Por outro lado, há em Bachelard espécie de materialismo energético305, isto é, um materialismo cujo atomismo maciço é dissolvido em fluxos energéticos de acordo com as tendências da física e especialmente da química moderna; algo que, combinado a Freud, ocupa um espaço primordial no quadro conceitual derridiano, uma vez que, embora materialismo, rompe com o privilégio da presença como marca fundamental da metafísica clássica. Finalmente, como já mostrado, Suzanne Bachelard, filha de Gaston e que ligou seus problemas com Husserl306, é uma figura importante nos primeiros escritos de Derrida em torno do fenomenólogo alemão.

...

Bachelard foi um filósofo especialmente preocupado em contribuir para uma epistemologia orientada segundo o pensamento científico contemporâneo, fazendo os conceitos científicos migrarem para o campo filosófico sem hesitar em redefinir estruturas da tradição e atacar dogmas centrais da metafísica clássica307. Será por influência de Bachelard (entre outros) que Derrida repetirá seguidas vezes, mas em especial na Gramatologia, que a ciência internamente abre espaços para além dos seus quadros conceituais, exigindo a redefinição do arcabouço metafísico (logocêntrico) do qual muitas vezes faz uso "ingênuo" na sua linguagem308. A ótica de Bachelard sempre foi "realista", no sentido de que a teoria do conhecimento ultrapassa as dimensões categoriais para alcançar o real; ou seja, como Bergson, e apesar das críticas que efetuou contra ele309, Bachelard representa mais um elo na corrente da filosofia que não reconhece a separação kantiana entre "coisa-em-si" e "fenômeno"310, ainda que igualmente não subscreva um "realismo ingênuo" ou "empirismo"

305 BACHELARD, Gaston. O Materialismo Racional, p. 133. O materialismo de Bachelard não é explicitamente mencionado por Derrida, mas ocupa lugar central em A Filosofia do Não, texto mencionado em A Mitologia Branca. Ver, por exemplo, BACHELARD, Gaston. A Filosofia do Não, p. 167, referindo inclusive a necessária abertura da noção de "substância".

306 HYPPOLITE, Jean. L'imaginaire et la science chez Gaston Bachelard. F2, p. 676. 307 MARTIN, Roger. Épistémologie et Philosophie. In: Hommage..., pp. 62-63. 308 DERRIDA, Jacques. A Gramatologia, p. 4.

309

Bachelard se oporá, por exemplo, ao vitalismo ("não é, com certeza, ao lado do materialismo vitalizado que trabalho o pensamento científico. Pelo contrário..."). - BACHELARD, Gaston. O Materialismo Racional, p. 85). Sobre Bergson e Bachelard, ver CANGUILHEM, Georges. Sur une épistémologie concordataire, p. 4, 6). 310

"Se quisermos ter um bom exemplo de uma revolução epistemológica, basta acompanhar os esforços da química para estudar a matéria para além das aparências sensíveis, abandonando resolutamente as convicções enraizadas nos arquétipos do inconsciente. É em sentido inverso da revolução copernicana kantiana que se opera

pura e simplesmente. Hyppolite assim descreve, diferenciando-a dos projetos de Fichte e Husserl:

Sua epistemologia é exatamente uma autêntica fenomenologia das ciências da natureza. Ela vai às coisas mesmas, e as coisas são aqui as experiências de laboratório e os domínios de racionalidade ligados a essas experiências, a tabela ordenada dos corpos químicos, as estruturas das moléculas, as distribuições de energia no interior dessas moléculas, portanto requerendo o cálculo o emprego de máquina eletrônica. Há um conjunto que manifesta seu próprio poder de invenção, e que não precisou do filósofo para conquistar seu próprio fundamento311.

A posição epistemológica de Bachelard é fortemente "falibilista" no sentido de que o processo de formação do conhecimento científico é uma constante revisão e separação do senso comum sujeita a erros permanentes312. Como Popper, Bachelard critica o impulso filosófico do fundamento último, com a imagem do pensamento absoluto, sem portanto elaborar corretamente o conceito de matéria cujo desenvolvimento só é dado a partir do próprio desenrolar do conceito científico. Motivo igualmente hegeliano em Bachelard: o desenvolvimento do saber acerca da matéria não pode ser dado de uma vez só e de uma vez por todas; é o processo de erros e acertos que propicia um conhecimento mais elevado acerca dos objetos investigados pela ciência313.

Como a filosofia francesa do século XX em geral, Bachelard tomou a sério a psicanálise, fazendo dela uma espécie de "psicologia do espírito científico". Para Bachelard, as imagens primordiais do pensamento científico seriam figuras que expressariam os

esta transmutação de valores" (BACHELARD, Gaston. O Materialismo Racional, p. 72). Ver ainda: CANGUILHEM, Georges. Sur une épistémologie concordataire, pp. 11-12.

311 HYPPOLITE, Jean. L'épistemologie de Gaston Bachelard. F2, p. 668, tradução livre ("Son épistémologie est exactement une authentique phénoménologie des sciences de la nature. Il revient aux choses elles-mêmes, et les choses ici ce sont les expériences de laboratoire et les domaines de rationalité liés à ces experiénces, le tableau ordonné des corps chimiques, les structures des molécules, les distributions d'énergie à l'intérieur de ces molécules, dont le calcul requiert l'emploi de machines électroniques. Il y a là un ensemble qui manifeste son propre pouvoir d'invention, et qui n'a pas besoin du philosophe pour conquérir son propre fondement").

312

Canguilhem trata a questão como um "axioma" da epistemologia bachelardiana: "o primado teórico do erro" (CANGUILHEM, Georges. Sur une épistémologie concordataire, pp. 5-7). E Martin não apenas destaca como Bachelard aprofunda a historicidade de Brunschwicg, mas também como pluraliza as perspectivas sobre os objetos, convertendo a dialética ascendente de tipo platônico do último em uma dialética imanente da ciência (MARTIN, Roger. Épistémologie et Philosophie. In: Hommage..., pp. 66-67). Aproximando Bachelard e Popper, REGNAULT, François. Structure and Subjet. In: Concept and Form, pp. 21-25.

313 BACHELARD, Gaston. O Materialismo Racional, pp. 17-18. O "pôr entre parênteses" a realidade que opõe ao realismo ingênuo também poderia viabilizar uma aproximação entre Bachelard e Husserl (BACHELARD, Gaston. A Filosofia do Não, p. 178). Sobre Bachelard, Hegel e Husserl, ver HYPPOLITE, Jean. Gaston Bachelard où le romantisme de l'intelligence, p. 14 e 18-19; idem, Le “scientifique” et l’ “idéologique” dans une perspective marxiste (F), pp. 360-371; idem, L'épistemologie de Gaston Bachelard. F2, p. 669.

arquétipos primordiais da "alma" humana, mas deveriam ser gradualmente corrigidos por um trabalho científico-experimental trazendo a luz da consciência (do "espírito"), superando obstáculos epistemológicos e alcançando por isso a verdade. Bachelard parece mais fortemente influenciado pela perspectiva junguiana que pela freudiana, mais próximo da "psicologia analítica" que da "psicanálise"314. A abordagem derridiana é de um viés completamente distinto, conforme veremos adiante.

...

Bachelard é também mais um episódio na história do materialismo francês, destacando-se pela crítica (anterior a Simondon) ao hilemorfismo. Em O Materialismo

Racional, por exemplo, procura tomar a sério a reconstrução do materialismo a partir da

ciência contemporânea - em especial da química - a fim de provar que a disciplina da matéria é tão complexa quanto a da forma, que predominou no pensamento filosófico ocidental a partir da hegemonia platonista da matemática. Em outros termos, a simplicidade e amorfia da matéria - geralmente reduzida ao material bruto irracional - são preconceitos do senso comum e do idealismo filosófico, podendo ser corrigidos pelo espírito científico que percebe a racionalidade a percorrer igualmente o mundo material. Para Bachelard, a maior parte dos filósofos concede um privilégio exclusivo à forma, fazendo da matéria simplesmente seu inverso sem significado. Diz ele:

Certos filósofos concedem à forma privilégios incondicionados, privilégios a priori. Há, nas formas e na sua construção, uma espécie de pureza filosófica que permite, segundo nos parece, uma união progressiva contínua, que vai das concepções simples às concepções eruditas. (...) Então compreende-se esta tentação, continuamente activa na história da filosofia, de explicar a matéria pela forma (...). Mas há ainda, na filosofia, uma posição mais paradoxal. É a de alguns filósofos idealistas que pura e simplesmente situam a matéria de uma maneira antitética relativamente à forma. Dissertam por vezes, sobre a matéria, verdadeiramente por antítese. Para eles a matéria é uma antiforma, o nada da forma. E como para eles a forma é ser, a matéria é finalmente o não-ser (...) Ou então a matéria é um fundo de indiferença que espera pelas potências diferenciantes da acção315.

314 A teoria dos arquétipos de Jung, por exemplo, é amplamente mencionada por Bachelard. P.ex, BACHELARD, Gaston. O Materialismo Racional, pp. 62-69. Ver ainda A formação do espírito científico: contribuição para uma psicanálise do conhecimento, pp. 17-28.

315

BACHELARD, Gaston. O Materialismo Racional, pp. 18-19. Ver ainda, HYPPOLITE, Jean. Gaston Bachelard où le romantisme de l'intelligence, pp. 16-17.

Trata então de demonstrar como a hilé é tão racional e complexa quanto a morphé. E, para tanto, pode-se ver nas últimas linhas da citação que Bachelard realiza uma verdadeira desconstrução da oposição matéria-forma, mostrando como os pólos são divididos hierarquicamente. Para não perder o paralelo com Derrida: Bachelard afirma, por exemplo, que o primeiro atributo específico da matéria é sua resistência, instância que seria alheia à contemplação filosófica, uma vez que esta teria o objeto pronto diretamente, sem tomar em conta o tempo do trabalho necessário para racionalizar o objeto matéria. O privilégio da visão na tradição fenomenológica obstaculiza ver-se mais do que um emaranhado irracional, ignorando a necessidade de enfrentar obstáculos para se chegar ao conhecimento próprio do material316. Em entrevista acerca do tema materialismo, por outro lado, Derrida (provavelmente sem ter diretamente em vista Bachelard, mas em um notável paralelo) define- se como materialista e caracteriza propriamente a resistência da matéria ao conceito como seu traço materialista essencial. Afirma ele:

Creo que hay un materialismo clásico, metafísico, incluso bajo su forma dialéctica, que me parece tan intrametafísico e incluso tan presupuesto como el idealismo. Para mí es simétrico, y pertenece al mismo espacio. Pero existe otro materialismo que suscribiría con más gusto y que me llevaría posiblemente a materialismos preplatónicos o presocráticos, que todavía no están atrapados en la metafísica. Estaría ligado a Demócrito y a cierto pensamiento del azar, de la suerte. Pero la teoría del texto, tal como junto a otros yo la entiendo, es materialista, si por materia no se entiende una presencia sustancial, sino lo que resiste a la reapropiación, que siempre es idealista. Lo que define, ¿no es cierto?, a la marca escrita en tanto que no es sustancia material; la marca escrita no es la marca sensible, la marca material, pero es algo que no se deja idealizar o reapropiar. En un texto que todavía no ha aparecido en Francia, llamado «Mes chances», relaciono cierto escrito de Freud con el materialismo democríteo a través de la literatura. Hay, pues, cierto materialismo que yo no rechazaría, aunque me adheriría con muchas precauciones. No sería un materialismo mecanicista, ni tan siquiera sería un materialismo dialéctico. Sería un materialismo no dialéctico. ¡Y aun así...!317

Mas o paralelo vai mais longe. Bachelard quer demonstrar que o "materialismo", sempre rechaçado como irracional pela tradição dada a natureza da matéria, pode ser igualmente racional. Para tanto, procura separar o materialismo vulgar do erudito e mostrar

316 BACHELARD, Gaston. O Materialismo Racional, pp. 20-21.

317 DERRIDA, Jacques. El materialismo no dialéctico. Disponível em <www.jacquesderrida.com.ar>. Sem dúvida que as perspectivas não se equivalem: Bachelard trata a resistência como obstáculo ultrapassável e contém um teleologia racionalista; Derrida veria nisso ainda uma herança logocêntrica, mas o paralelo é interessante.

como a organização humana da matéria é que produz o objeto científico matéria. Em outros termos, o químico, ao separar elementos, não está apenas verificando um saber pronto que já se encontra em nível "natural" - isto é, no mundo antes da intervenção humana - mas, ao contrário, constitui seu objeto ao organizar o mundo natural por meio da análise contínua dos elementos cuja pureza não é dada, mas conquistada318. Se, de um lado, é possível que essa noção epistemológica, em primeira leitura, provocasse arrepios em Derrida, haja vista a ideia de uma racionalidade que purifica o mundo dado em estado impuro (as analogias políticas com isso são as piores possíveis319); por outro, Bachelard assinala nisso a dimensão produtiva do conhecimento (que Althusser retomará nos seus trilhos) e igualmente a continuidade entre o artificial e o natural, um dos motes em que insistirá toda obra derridiana320. Finalmente, Derrida não acolherá com ênfase as ideias bachelardianas fundamentais de "corte epistemológico" e "ruptura", absolutamente decisivas por exemplo na abordagem estruturalista em geral e em especial para Althusser e Foucault321, preferindo ressaltar ao contrário as continuidades de modo mais próximo a Heidegger (um dos motivos da desavença com Foucault).

...

O principal ponto é que a epistemologia de Bachelard, embora trabalhe as ideias de conhecimento e método, ultrapassa o horizonte do humano, criando uma espécie de "linguagem da natureza". Portanto, faz Derrida herdar a percepção do dinamismo e da criatividade inerente aos processos naturais, abrindo mão do gap que separa natureza e

318

"Aqui, a atividade humana aumenta a ordem da natureza, cria a ordem, apaga a desordem natural" (BACHELARD, Gaston. O Materialismo Racional, p. 33). Idem, p. 46.

319 Da mesma forma, o que Bachelard anuncia como "substancialismo da substância sem acidente", que seria a conquista da química de uma "substância em série", organizando o mundo natural (O Materialismo Racional, p. 99), seria a pior das imagens na ordem política. No entanto, é preciso ser mais generoso na interpretação de Bachelard: se um dos postulados do filósofo é justamente a não-metaforicidade do discurso, isto é, a aversão (fundada ou não) a utilização de comparações, estender o seu discurso para além do estrito campo em que está falando seria desleal do ponto de vista argumentativo, uma vez que desconsidera a premissa fundamental do argumento.

320 "Aqui há que ir até ao extremo e dizer: já que a substância é dada, naturalmente dada, não é pura. Ela está pura quando a técnica a tiver purificado. (...) É então que o materialismo técnico é inseparável de um racionalismo erudito" (BACHELARD, Gaston. O Materialismo Racional, p. 99).

321

DERRIDA, Jacques. Política y amistad: entrevista con Michael Sprinter sobre Marx y Althusser, p. 31. Ver ainda: BALIBAR, Etienne. From Bachelard to Althusser: the concept of 'epistemological break', passim.

cultura, ciências naturais e humanas, matéria e espírito, realidade e pensamento322.

Benzer Belgeler