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A análise dessa questão foi muito satisfatória, já que 36 trabalhos (71%) declararam sua posição de resistência ao projeto burguês e ao capitalismo, vinculando à reflexão sobre as mazelas produzidas pelo aguçamento da questão social à área específica estudada (saúde, educação, meio ambiente, segurança pública, dentre outros).

Como são muitos os trabalhos que se referem a este tópico, apresentam- se três deles: (1) Freire, Vazques, Barbosa e Silva (2010), que debatem sobre os direitos humanos e o enfrentamento da pobreza no Brasil; (2) Gomes e Santos

(2010) que abordam objetivamente sobre a problemática da desigualdade social produzida pelo sistema e sua correlação com os problemas ambientes; (3) Alves, Almeida, Santos, Gonçalves, Coelho, Carvalho, Nogueira, Nascimento, Neto e Martins (2007)que discutem a partir do problema da segurança pública no Brasil. Segundo Freire, Vazques, Barbosa e Silva (2010) a partir da citação de Werneck, “a política social no Brasil reduziu-se ao assistencialismo, à filantropia,

à administração da miséria, o que esvaziou a atividade pública de sua significação original”, neste aspecto, essas políticas reduzem a questão social à

pobreza, assumem processo privatizador no campo social e diminuem as condições reais de realização dos direitos humanos. Por isso, a questão principal hoje é como desprivatizar o Estado, reformá-lo, desentranhar os anéis

burocráticos que formam a imbricação histórica e promíscua entre o público e o privado no Brasil.

No Brasil, como mencionamos anteriormente, as esferas pública e privada possuem particularidades que não podem ser ignoradas. Isso porque, além de ser determinado pelas necessidades de

reprodução do capital e de legitimação da ordem burguesa, o

Estado brasileiro apresenta a peculiaridade de representar um

capitalismo dependente, periférico e conter elementos patrimonialistas não encontrados em outros Estados capitalistas que viveram revoluções burguesas plenas, no sentido de que governantes ou ocupantes de cargos públicos em qualquer nível tendem a considerar a coisa pública como patrimônio pessoal, cujas manifestações são o clientelismo, o enriquecimento ilícito e a dilapidação da coisa pública (FREIRE, VAZQUES, BARBOSA e SILVA, 2010).

Os autores trazem de forma inovadora uma perspectiva de análise bem peculiar do Brasil sobre os “coronelismos” presentes até hoje. Além de se encontrar no Brasil um capitalismo dependente, periférico, patrimonialista, os governantes se sentem no direito de considerar o público uma extensão do particular, e com isso, usurpam grande parte do dinheiro público, acreditando ser uma “recompensa” pelos serviços prestados à população. Como se não bastasse, as estratégias predominantes nas políticas sociais brasileiras, e que se autodefinem inovadoras, são bem menos ambiciosas do que apresentam, mostram menos ousadia, se eximem da discussão teórica, e ocultam-se sobre os véus da empiria e do consenso, se distanciando cada vez mais da esfera dos direitos.

Já o trabalho de Gomes e Santos (2010), discuti sobre a questão do meio ambiente como um braço dos direitos humanos, reconhecido na Declaração do Meio Ambiente de 1972. Neste sentido, aponta que a preservação da vida é um direito fundamental e universal do homem, portanto, violar o direito a um ambiente sadio é violar os próprios direitos humanos – os direitos fundamentais a vida.

Historicamente os Direitos Humanos são frutos de lutas que emergem da tentativa de garantir liberdades fundamentais dos seres humanos com vistas à equidade e multiplicação dos mesmos. Nesta perspectiva discutisse o meio ambiente como um “novo” direito evidenciado a partir do século XX, como resposta aos conflitos causados pela II Guerra Mundial, que é enunciado de forma a garantir às futuras gerações condições de uma vida digna (GOMES e SANTOS, 2010).

As autoras reconhecem a existência de ligação entre as desigualdades

sociais e os problemas ambientais, isso se comprova de várias formas, desde

situações precárias e impróprias de moradia, ausência de saneamento básico, à falta de água potável.

O discurso do desenvolvimento sustentável vendo sendo usado pela elite dominante de forma utilitarista, visto que a política neoliberal quase que hegemônica prega uma sociedade consumista e individualista, em detrimento dos direitos da coletividade [...]. A classe dominante não reconhece e até despreza esta ligação existente entre as desigualdades sociais e os problemas ambientais, pois tratam a crise ambiental como um problema a ser solucionado pelo mercado, sob a lógica da economia, basicamente através da racionalização dos recursos naturais e de tecnologia menos poluentes (GOMES e SANTOS, 2010).

Segundo as autoras, defender a vida significa realizar ações para a garantia de um habitat saudável e um meio ambiente equilibrado, com acesso democrático aos recursos naturais e ao desenvolvimento e formação humana de qualidade e, como defensor da vida, o Serviço Social deve voltar sua prática para o desenvolvimento de propostas de enfrentamento das expressões da questão ambiental na contemporaneidade, que são indissociáveis da questão econômica, política e social, de forma a garantir qualidade de vida para as gerações atuais e futuras.

Pontuam que a lógica capitalista não comporta a manutenção dos direitos sociais e a proteção ao meio ambiente, de forma a preservar a vida planetária de todos com qualidade. Neste sentido, é possível vivenciar situações de desmatamento acelerado, poluição da água, da terra e do ar, destruição do habitat em níveis preocupantes, expondo principalmente os grupos sociais considerados mais vulneráveis a maiores riscos sociais como: moradias próximas aos depósitos de lixos (tóxico e radioativo), precárias formas de moradia, ausência de saneamento básico, enchentes e desmoronamentos, água imprópria para consumo. Mais uma vez “as desigualdades econômicas e sociais se estendem à dimensão ambiental, é o que Ascelrad (2004) designa como injustiça ambiental.”

[...] Entende-se por injustiça ambiental a condição de existência coletiva própria a sociedades desiguais onde operam mecanismos sociopolíticos que destinam a maior carga dos danos ambientais do desenvolvimento a grupos sociais de trabalhadores, populações de baixa renda, segmentos raciais discriminados, parcelas marginalizadas e mais vulneráveis da cidadania (ASCELRAD, 2004, p. 10).

Por fim, admitem ser preciso atentar-se para a questão ambiental e atuar estrategicamente no seu enfrentamento, propondo projetos, programas e políticas públicas de qualidade para a população, produzindo teoricamente sobre o assunto e assumindo este compromisso junto ao processo de formação profissional, no Currículo dos Cursos de Serviço social. Trabalhar com o direito a habitação adequada, a preservação do meio ambiente do entorno e o desenvolvimento sustentável é um desafio posto à profissão.

Como exposto pela autora, “a lógica capitalista não comporta a

manutenção dos direitos sociais e a proteção ao meio ambiente”. Na verdade, a

lógica capitalista desrespeita as condições básicas de manutenção da existência humana, colocando fortes empecilhos à materialização dos direitos humanos já declarados. O Liberalismo econômico e o capitalismo, somados a ausência de políticas públicas protetivas e promovedoras da emancipação dos sujeitos sociais, violam direitos civis, políticos, sociais, culturais, econômicos e provocam verdadeiros desastres na vida dos sujeitos sociais.

Assim, como diz Wacquant (2001, p. 12) sobre o problema da pobreza e da desigualdade no Brasil, geram índices alarmantes de insegurança social e violência, citado no artigo da autora Souza (2007):

A despeito dos zeladores do novo éden neoliberal, a urgência, no Brasil, como na maioria dos países do planeta, é lutar em todas as direções não contra os criminosos, mas contra a pobreza e a desigualdade, isto é, contra a insegurança social que, em todo o lugar, impele ao crime e normatiza a economia informal de predação que alimenta a violência (WACQUANT, 2001, p. 12).

Abordando a situação em que se encontra a segurança pública no Brasil, Alves, Almeida, Santos, Gonçalves, Coelho, Carvalho, Nogueira, Nascimento, Neto e Martins (2007), com profundo conhecimento, discutem a partir da teoria crítica, as manifestações da questão social com o foco no sistema prisional. Temas como violência, criminalidade, segurança pública dentre outros, são citados como elementos de uma conjuntura maior, compreendida dentro do contexto sócio-histórico.

Verifica-se neste contexto, que a cultura dominante provoca uma inversão dos determinantes da criminalidade quando atribui ao indivíduo, à sua “incompetência pessoal” para acompanhar o desenvolvimento do sistema capitalista de produção e consumo, a causa de sua condição pobre, desempregada e delinquente. Cria- se um estereótipo de “marginal”, do ser “anti-social. Entretanto, marginal não é um traço de personalidade, mas uma condição que a sociedade de classes impõe aos desfavorecidos (ALVES, ALMEIDA, SANTOS, GONÇALVES, COELHO, CARVALHO, NOGUEIRA, NASCIMENTO, NETO e MARTINS, 2007).

Identificam que a violência institucionalizada (ação repressiva, violenta e arbitrária) é permitida e “justificada” contra um “criminoso”; a violência passa a ser banalizada, naturalizada, coisa de “bandido”. O crime torna-se mais visível na figura do pobre, do menino de rua, do adolescente autor de ato infracional como fator inerente a toda uma classe social. Há explicita individualização dos fatores determinantes da criminalidade, vista como “desvio de conduta”, “desajustamento”, “comportamento anti-social”, ou mesmo com o entendimento de que a violência e criminalidade são expressões de “sociopatias” ou “psicopatias”, sem compreender que são condições determinadas pela posição

no processo produtivo, o que leva a buscar na transgressão estratégias de sobrevivência material e social.

Os meios de comunicação sensacionalizam a realidade, provocando sensações de medo e dissimulando a verdade dos fatos, o que reforça o desejo das pessoas de resolverem as questões que as preocupam - como a violência urbana - pelo método da repressão.

O aumento da criminalidade urbana é utilizado política e ideologicamente pelos meios de comunicação que, ao sensacionalizarem a realidade, difunde o medo, ocultando o sentido histórico dos fatos que se concentram nos determinantes sociais, políticos, econômicos e culturais da violência e da criminalidade. Assim, reforçam-se o consenso da opinião pública em relação à necessidade de se ampliar os mecanismos de repressão por parte do Estado, fortalecendo as ações policialescas no trato ao crime e à violência, mais especificamente, aqueles associados à condição de classe dos sujeitos que os praticam (ALVES; ALMEIDA; SANTOS;

GONÇALVES; COELHO; CARVALHO; NOGUEIRA;

NASCIMENTO; NETO e MARTINS, 2007).

Enfim, pode-se dizer que é com a intenção maior de provocar reflexões que contribuam com a proposição de ações estruturais na sociedade, que esta pesquisa se propôs a provocar o pensar crítico sobre a profissão e os direitos humanos. Assim, defender e lutar junto, cotidianamente, com a classe trabalhadora, é dever profissional e ético, que cabe a toda a categoria indistintamente. E se posicionar coerentemente com o projeto ético-político, pela superação de um estado de barbárie, em que se predomina o “ter” em detrimento do “ser” e uma sociabilidade que parte do pressuposto de que o “o outro é empecilho para a minha liberdade”,

2.3.5 Contribuições dos CBAS para o fortalecimento do Projeto Ético-

Benzer Belgeler