“Ao longo de toda a história do Ocidente, o projecto da ciência, ou do saber, foi sempre confundido com um projecto teórico. Etimologicamente, o termo ‘teoria’ evoca o olhar, a contemplação. Mas uma teoria apresenta também a forma de um logos, de um discurso racional. O projecto teórico é, portanto, o de um discurso articulado racionalmente que mira, ou reflecte, a estrutura racional do real”106. Este projecto via-se reforçado pela moldura ética que lhe deu Merton107. O ethos mertoniano representa um conjunto de quatro normas morais a que o cientista deve obedecer para manter o seu status e a sua credibilidade junto de pares e de leigos. As quatro normas são: universalismo, comunalismo, desinteresse e cepticismo organizado. Estas normas devem ser assimiladas por cada cientista, sobretudo através do exemplo dos pares, e interiorizadas. O seu desrespeito traz sanções morais por parte dos outros e aumenta a desconfiança em relação da comunidade científica como um todo. Sendo o fim da ciência a convicção do seu contributo para o crescimento do conhecimento, as quatro normas de Merton reflectem esse empreendimento do cientista. Estas normas representam valores institucionais que preservam a identidade do cientista, sem consideração pela sua intervenção na dinâmica societal. Na óptica de Merton, há uma fronteira clara entre a estrutura social que é a comunidade científica e a restante sociedade, composta por não iniciados. As trocas que há, têm a ver com o facto da ciência ter consequências na sociedade mas não se espera qualquer intervenção ou intromissão desta última no rumo traçado pela comunidade científica. É com este modelo social que devem ser consideradas as quatro normas morais que Merton sintetizou. A este edifício normativo, Santos108 chama de “ideologia espontânea dos cientistas”. 105 Callon et al., 2001 106 Hottois, 1992, 8-9 107 Merton, 1977 108 Santos, 1987, 34
Para Merton109, o cientista deve obedecer à norma do universalismo, isto é, não deve discriminar o trabalho de qualquer cientista tendo como critérios a raça, a nacionalidade ou o género. O saber científico resulta de um trabalho metódico e rigoroso, e esse constitui o seu critério de avaliação pelos pares. Por outro lado, a norma do comunalismo diz que o cientista deve considerar o seu trabalho como contribuindo para uma obra colectiva, a do aumento do conhecimento sobre o mundo, obra essa que é património da Humanidade. Ao cientista cabe o reconhecimento e a admiração dos pares, mas não a propriedade do saber. Esta norma enquadra-se dificilmente no espírito das patentes sobre produtos tecnológicos. No entanto, é também nesta norma que se ancora a necessidade de comunicação do novo conhecimento, contribuindo assim para o enriquecimento do património da Humanidade que é o saber. O autor identifica-se com a perspectiva que descreve o conhecimento como algo que se acumula e que representa um benefício para a sociedade. A norma do desinteresse demonstra que o critério de avaliação e de recompensa na ciência é constituído pela avaliação dos pares. Pressupõe também a ideia de entrega do cientista à causa da ciência. Por isso, é dever moral do cientista prestar contas do seu trabalho à restante comunidade de cientistas. A última norma, além do seu valor moral tem também um carácter metodológico. O cepticismo organizado é um procedimento conducente à objectividade que caracteriza o conhecimento científico pois garante a suspensão do juízo subjectivo na avaliação dos factos. Para a avaliação destes, há que recorrer a métodos empíricos e assentes na lógica científica. Esta última norma é garante do edifício construído pelo saber. Além do mais, ausenta todo o interveniente leigo da construção do conhecimento científico. Santos110 aponta aqui para um dos sinais que permitiu-lhe especular sobre a crise do paradigma dominante da ciência na modernidade, apercebendo-se que “não conhecemos do real senão a nossa intervenção nele”111.
No entanto, a prática da ciência moderna, que é como vimos, tecnociência, não conseguiu manter a sua aura de inocência ao longo dos tempos mais recentes. “Na verdade, a crença na pureza da procura da verdade, comum às narrativas cientistas do progresso da racionalidade, enfrenta inultrapassáveis dificuldades quando confrontada com a história da experimentação humana. Ela não só demonstra que a persecução de puros interesses cognitivos é mais frequentemente um mito científico que uma
109 Merton, 1977 110 1987
realidade, como o puro interesse cognitivo não constitui salvaguarda da pessoa cujo corpo é objecto de investigação”112. A perspectiva de uma ciência que hoje não prescinde do seu dispositivo tecnológico para ultrapassar as fronteiras tradicionais de intervenção e colocar até o próprio corpo humano em estado de disponibilidade, é uma perspectiva que perdeu toda a sua inocência.
“Enquanto a ciência teórica se podia afirmar pura e inocente, a tecnociência, porque é essencialmente actividade modificadora e produtora no mundo, nunca está inocente por completo. Como praxis, é eticamente problemática. Hoje em dia levantam- se problemas éticos ao nível da investigação dita fundamental porque o projecto do saber é fazer e poder”113. Assim, uma reflexão sobre as possibilidades da ciência cruza- se com diversas perguntas: “o que devo fazer?” é indissociável de “o que sou capaz de fazer?”, sabendo que a segunda pergunta não pode ter qualquer amplitude de resposta, já que não devemos fazer “tudo o que a técnica nos permite”114. Por detrás de toda a possibilidade técnica está a questão “o que vamos fazer do Homem?” cuja resposta é sempre e inevitavelmente, uma opção moral. Assim, “os pressupostos metafísicos, os sistemas de crenças, os juízos de valor não estão antes nem depois da explicação científica da natureza ou da sociedade. São parte integrante dessa mesma explicação”115. As escolhas extra-científicas que são feitas percorrem todo o processo científico, já que toda a ciência é uma construção social.
A ciência moderna, ou tecnociência, e a sua capacidade de modificar através do poder-fazer, confronta o actor da ciência com a questão da responsabilidade da sua intervenção. A perda da neutralidade valorativa da ciência vem inscrever esta última num ambiente social, económico, cultural e político. O desenvolvimento que a ciência conheceu após o segundo conflito mundial só veio demonstrar as consequências dessa imersão. A convergência proposta pela Big Science veio mostrar uma ciência que tem por detrás grandes interesses bélicos, industriais e económicos, que está no centro da decisão política e que se torna na possibilidade de concretização do poder político. “… a investigação capital-intensiva (assente em instrumentos caros e raros) tornou impossível o livre acesso ao equipamento, o que contribuiu para o aprofundamento do fosso, em termos de desenvolvimento científico e tecnológico, entre os países centrais e os países
112 Cascais, 2003, 91-92 113 Hottois, 1992, 21 114 Hottois, 1992, 85 115 Santos, 1987, 52
periféricos”116, encontrando neste último grupo, Portugal117. Gonçalves118 refere que neste último, a ciência desenvolve-se, essencialmente, fora da esfera pública.
A contestação à neutralidade axiológica da ciência resultou em grande parte das chamadas de atenção trazidas pelos estudos sociais da ciência e pela abordagem dos estudos da política científica e tecnológica. “… we believe the analysis of science and technology policy without the self-reflection that comes from science studies is blind”119. Em português, a expressão “políticas da ciência” junta dois significados distintos na terminologia anglosaxónica: “science policy” e “politics of science”, o que quer dizer que se entende por “políticas de ciência” não só as medidas tomadas pelo Governo para encorajar a actividade científica como também a interacção da ciência com o poder, o uso da ciência por grupos sociais para afirmar o seu poder e influência na sociedade. No mundo Ocidental, as políticas de ciência foram globalmente influenciadas pela perspectiva da OCDE, desde a Segunda Guerra Mundial, e em especial, desde o relatório de Vannevar Bush120. Este relatório foi solicitado pelo então Presidente dos Estados Unidos da América, F. Roosevelt, e tinha por objectivo lançar as bases da política científica deste país, após o enorme esforço feito durante a Segunda Grande Guerra. Na óptica de Bush, este conflito foi ganho no laboratório, e em tempo de paz os E.U.A. não queriam perder essa dinâmica de desenvolvimento. A partir de 1945, a ciência e as suas aplicações tecnológicas são entendidas como devendo estar ao serviço do Estado e da prosperidade nacional. Este relatório vai marcar todo o desenvolvimento científico no mundo Ocidental pós-Guerra. Vai ainda inspirar a política científica promovida pela OCDE, a partir de 1961121.
A filosofia de desenvolvimento económico que está subjacente a este relatório teve continuidade no Plano Marshall, plano norte-americano de ajuda à recuperação da economia europeia após 1945, e mais tarde na criação da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico), que “a pour mission d’aider les gouvernements à réaliser une croissance durable de l'économie et de l'emploi et de favoriser la progression du niveau de vie dans les pays membres, tout en maintenant la
116 Santos, 1987, 35 117 Nunes e Gonçalves, 2001 118 Gonçalves, 2000a 119 Elzinga e Jamison, 1995, 573 120 1945
121 Refira-se que a OCDE veio substituir a Organização Europeia de Cooperação Económica, criada em
stabilité financière, et à favoriser ainsi le développement de l'économie mondiale”122. A doutrina da OCDE, ao cruzar os dois termos-chave de “science policy” e de “politics of science” (“Science policy and the politics of science can be seen as interacting at several levels”123) permite destacar quatro temas124:
1. o intermitente estreitamento e alargamento do discurso sobre a política científica num processo cíclico de despolitização e repolitização125
2. os factores políticos e sociais subjacentes às principais orientações políticas
3. a interacção entre diversas culturas políticas
4. e os problemas de periodização e de explicação das tendências e das transformações da política científica.
No entanto, o espírito da OCDE acaba por demarcar-se da ideia de uma política para a ciência para preconizar a “ciência na política”, isto é, uma política “in which science was seen to support the objectives of other policies”, onde “the intention was that science and technology should play a key role in achieving the diverse policy objectives of a modern industrial state rather than simply aiming at the development of science itself”126.
“... the politics of science becomes a rhetorical struggle over the ways that science and technology are interpreted, the worldviews and associated metaphors that give rise to alternative visions of the organization of the knowledge”127. O denominador comum que encontramos nos quatro temas é, sem dúvida, o da ciência ser uma actividade fortemente marcada pela intervenção política, não querendo isto dizer que a ciência “ande a reboque dos objectivos técnicos da aplicação e que, nesse sentido, se tenha tornado, somente, utilitarista e interesseira”128. No entanto, e no que diz respeito ao caso português, que estudamos, cumpre objectivos políticos na medida em que beneficia de subsídios do Estado ou da União Europeia, subsídios esses que não só permitem que a actividade científica exista como definem a calendarização dos seus
122 OCDE. História. Acedido em Junho de 2007, em:
http://www.oecd.org/pages/0,3417,fr_36734052_36761863_1_1_1_1_1,00.html 123 Elzinga e Jamison, 1995, 574 124 Elzinga e Jamison, 1995 125 Gonçalves, 1996 126 Gibbons, 2001, 34 127 Elzinga e Jamison, 1995, 574 128 Hottois, 1992, 21
altos e baixos. Contraria-se assim a ideia que o conhecimento científico se constitua num processo de acumulação de saber sempre crescente para entender que este movimento está fortemente dependente das condições criadas para que se dê a actividade científica. Não nos referimos obviamente aos factos científicos em si mas à organização da actividade de investigação científica, para utilizar de novo a distinção de Latour129.
Refira-se ainda a distinção entre os tipos de culturas políticas e as consequências distintas de cada uma delas na definição das políticas de ciência. Elzinga e Jamison130 distinguem quarto tipos de culturas políticas: burocrática, académica, económica e cívica, sendo que as três primeiras se situam numa direcção tecnocrática e apenas a última numa estratégia democrática. No caso específico da Ciência e Tecnologia, a aplicação destas culturas adquire contornos locais que são próprios a cada país na medida em que “national variations are dependent on the relative strengths and modes of interaction among the aforementioned policy cultures, on the one hand, and the more formalized country-specific institutional arrangements for production of knowledge, on the other”131.