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Como não existisse cadeia capaz de abrigar tantos presos, os detidos ficaram em um galpão do curral de gado, na mangueira de João Kremer, na vila do Jacuizinho. Foram levados pelos próprios vizinhos. Gregório tinha cerca de 20 anos e também foi preso. O grupo era composto por uma centena homens e apenas uma mulher. Vieram reforços policiais para guarnecer os prisioneiros, os destacamentos de Santa Maria e Passo Fundo, comandados pelo capitão José Rodrigues.

O subdelegado Otacílio Pinto, “muito conhecido” de Gregório, botou o rapaz para fazer a comida “pr’aquela gente” e ele “tirou” o jovem vizinho Orlandino para ajudá-lo. Os presos eram “maneados”, atados uns aos outro, pelos braços, de costas549. Dormiam no chão,

no piso de terra do galpão. Havia chovido muito e fazia bastante frio naquele abril de 1938. O próprio prefeito interino de Soledade, Olmiro Ferreira Porto550, mencionava as fortes chuvas

daquele ano para justificar ao interventor federal, coronel Cordeiro de Farias, a falta de arrecadação de impostos nos distritos. Gregório, que “era um rapaz que sempre tinha uns cruzeiro na gibeira”, comprou umas mantinhas para amainar o frio dos companheiros. Numa certa hora, uns presos foram buscar água e “decerto algum rapaz disparô e a polícia tirotiou no rio”. Marcolino Alves Costa551, agricultor, 39 anos, morador do sexto distrito de Soledade,

“foi tirotiado”, mas não chegou a morrer. Como verificado no auto de corpo de delito, ele foi atingido no músculo infra-espinhoso e no pulmão. O episódio serviu para intensificar o medo. O pai de Gregório, Antônio José da Costa, e o futuro sogro, Alípio Costa, também estavam presos552. Como Marcolino, Alípio foi alvo de tiros.

Para buscar água para cozinhar para os presos, Gregório pedia para ser amarrado. A detenção na mangueira teria durado “uns quatro dias, mais ou menos”553. Todos foram

interrogados pelo capitão José Rodrigues da Silva da Brigada Militar. Após os interrogatórios, um grupo foi levado preso para Soledade, outros para Cachoeira e Porto Alegre. Para Cachoeira teriam ido presos: Alfredinho cego, os irmãos Gonçalves - Alípio, Antônio e Crescêncio – e os Bachane. Os familiares solicitaram para a Brigada Militar, estacionada no local, para trazê-los de Cachoeira para Soledade. Teriam obtido êxito: vieram para Soledade, mas continuaram presos por quase um mês.554

549 Confirmado por Orlandino Costa.

550 SOLEDADE. Ofício n. 61, Do Gabinete do Prefeito interino, Olmiro Ferreira Porto, ao interventor federal, Osvaldo Cordeiro de Farias, junho de 1938. Relatório Financeiro de Soledade. Correspondência Expedida, 1938. (AHRGS) 551 RIO GRANDE DO SUL. Cartório da Vila do Jacuizinho. Comarca de Soledade, 5o distrito. Auto de corpo de delito.

Exame no ferido Marcolino Alves da Costa. 25 de abril de 1938, 14h. 552 Constam da lista de 98 presos.

553 Informação confirmada na entrevista Orlandino Gonçalves da Costa. Rincão dos Costa, Salto do Jacuí, 21 de janeiro de 1990.

Mas qual seria a justificativa encontrada pelos monges barbudos para tamanha perseguição? Explicou Idalcinéia que foi em função dos bons conselhos a eles dados. Ela falou de calúnias e fofocas, inclusive os boatos de perversão sexual:

“Queriam nos matá. Inventaram que nóis robava. Inventaram com calúnia que [Anastácio] tinha uma cama que cabia 20, 200 moça, era só com moça que ele dormia, né? Um só? Calcula, né? E pra isso aí, conversa que nóis assaltava nas casa, nunca, graças ao meu bom Deus.”

O próprio irmão de Anastácio, Thomas, não queria a religião, justificava: “Havia muita mentira, havia muita denúncia, havia muita coisa. [...] Então aquilo tava incomodando o governo”, que estava “fazendo despesa. [...] O delegado vinha, mandava soldado prendê e coisa [...] Sem devê nada”. Por que teriam sido tão perseguidos se tratava-se apenas de um movimento religioso? Idalcinéia refletiu emocionada:

Ora, minha filha! Assim como Cristo também nada devia e foi aperseguido antes de nascer. Por que o que ele fez no mundo, não é? Ansim veio aquela onda pr'aquele também, né? Ele foi aperseguido por isto. Só porque ele fez o bem. Nunca ele disse, pr’um que dissesse: ‘dê um tapa naquele!’ Disse: ‘óia, meu filho, se aquele te dé uma tapa, teu inimigo, tu corra, não queira [disputar]. Entregue a Deus, que Deus é nosso juiz e nosso protetor.

Thomás lembrando as pregações de Anastácio afirmava que o objetivo era: “tê a salvação, que eles diziam que o mundo ia terminá, e que aquilo era benefício que mais tarde ia havê.” Inconformado com a adesão do irmão, que tinha virado um novo profeta, questionava: “Mas pra que isso? Pois se for pra morrê, que vai morrê e vai vim novo mundo, como você diz ermão, então... [...] No tempo que tá se incomodando, em prisão e lambança com isso aí. Vem te prendê, eu sô ermão, prendem eu também, o que fazê?” Ele teria pedido de “joelhos” que o irmão largasse a crença. Confessou: “Eu tinha medo.”555 Thomás foi preso pelo menos

em duas ocasiões em 1938: em 22 de março, com o grupo de oito monges detidos pela diligência do tenente Rosa determinada pela Delegacia de Polícia de Soledade e pelo comando da Brigada Militar, e, em 17 de abril, no Jacuizinho, com outros 98 presos, após o sepultamento de seu irmão.

Para Idalcinéia, a perseguição durou quatro anos, “daí pararam”. Começou antes do confronto na Igreja de Santa Catarina na Bela Vista, vinha desde a época em que Deca França teria começado a curar com ervas e a explicar questões existenciais e religiosas para o pessoal: “De gente ir lá e tomá remédio e sará, como Albino Groth556 e Auralina. Ela foi

desenganada do médico. Tava desta altura [enferrujada]. Ela veio do dotor desenganada. Foi lá e ele curô. E foi a primeira que foi persegui ele.” Albino foi testemunha de defesa do réu João Elberto de Oliveira, um dos acusados pela morte de André Ferreira França.

555 Entrevista Thomás Desidério Fiúza. Campinas, Tunas, 21 de janeiro de 1990.

556 Ou Albino Groders [ou Groth]. Na época, Albino teria 48 anos, era casado, agricultor e residia na Colônia das Tunas, sexto distrito de Soledade.

Esclareceu Idalcinéia que quem perseguia eram os comerciantes, os próprios vizinhos. No entanto, não foram todos que perseguiram: “Os comerciante forte mesmo, de lá da onde nóis morava, eles não eram aperseguidor. Porque era os forte freguês que eles tinham, pra fazerem mantimento e tudo, sortimento”. Idalcinéia destacou como persecutores os Kraemer557, os Telles, os Nogueira. Em especial os alemães das Tunas558: “Os alemão

perseguiram muito”. O mesmo não podendo ser dito com relação aos italianos: “Os italiano não foi tanto, porque o italiano eles são uma gente (...) intimidados. (...) O gringo tem medo de Deus, tem medo do padre e o padre apoiava a nossa religião. Então o gringo não perseguia de medo do padre. E o alemão não tem medo de nada.”

Idalcinéia lembrava o “tempo da perseguição” como de muito sofrimento. Tempos de enganos, fugas e recolhimento: “não se podia se saí”. Explicou: os perseguidores “iam ansim nas casas, todo mundo tava rezando, tavam dizendo que tavam de baile, tinha isso também. Tudo mentira.” Para ela, foi somente com a vinda das autoridades estaduais que os ânimos se acalmaram. Relatou a passagem do próprio interventor federal, Cordeiro de Farias, e do bispo de Santa Maria559 nos rincões de Soledade e Sobradinho:

Foi pra Rio de Janero esta religião. Naquele tempo, veio de Rio de Janero, veio um... Aí, como é o nome dele? Cordero de Farias, ouviu falá? (...) Eu não sei se ele era um coronel, ou era um general, era um agraduado. (...) Era Governador. Aquele teve aqui. Eu tinha a foto, me robaram a foto dele. (...) Veio. Naquela igreja ali. E daí ele deu carta branca na religião. Gostô da religião. Tirô todas as foto. Dali mêis e tempo, veio o bispo, ele mandô o bispo, [...] D. Antônio. Ele é falecido. Tinha 80 anos quando ele andô aí. Antônio Pio, parece que esse aí era... Ou rei, rei Antônio Pio. Ele deu carta branca na nossa religião. Gostô muito, tirô toda as foto do pessoal, que dali foi construída a igreja do rincão [dos Costa].

As acusações de comunismo, segundo a compreensão de Idalcinéia: eram “pra desmoralizá e anarquizar, e comunista são eles. Diziam que era comunista, era ladrão, eram... assaltavam nas casa, e faziam isto e faziam aquilo.” E seguiu:

E anarquizaram, porque era um pessoal que nunca robaram. Eles chegaram a contar que aquele pessoal que foram na igreja tinha arma de guerra. E era o rosário. Só o que levaram. Semana Santa. Qual é o católico religioso que bota arma na cintura e sai. Não pode, né? O que tem fé não.

557 O que não impediu que as gerações posteriores se unissem em casamento, conforme apontado na Entrevista Orlandino e Izaltina Gonçalves da Costa. Rincão dos Costa, Salto do Jacuí, 21 de janeiro de 1990.

558 Além dos imigrantes assentados na região no século XIX, agricultores teuto-brasileiros, procedentes de Santa Cruz, foram para Tunas, entre 1900 e 1918.

Benzer Belgeler