A Escola Municipal Antônia Freire conta com 22 professores na EJA, dentre os quais três são também coordenadores, e funciona teoricamente com 14 turmas com a média de 25 alunos em cada turma. Na verdade, o que funciona na prática são 12 turmas. Essa foi uma forma de se organizarem para oferecer uma turma de EJA no período diurno. Quanto ao número de alunos, devido à grande flutuação, fica difícil determinar ao certo, mas predomina uma média de 18 estudantes por turma, pois nem sempre os que estão presentes na aula num dia são os mesmos que estarão no dia seguinte.
Os professores foram divididos em três grupos, que possuem autonomia para organizar suas atividades.
Tem uma coisa aqui que a gente faz questão de manter que é a autonomia, autonomia nos grupos de trabalho. Então, devido a essa autonomia é... os grupos se organizam como melhor lhes convém, dentro da nossa proposta maior, que é a proposta de inclusão. Então, é... posso te dar um exemplo. O grupo “A”, ele tem uma característica maior do trabalho ser mais coletivo, do ponto de vista da construção, da... da proposta, às vezes não do desenvolvimento, mas a construção passa muito por essa discussão coletiva. Já o grupo “B”, eles às vezes constroem menos coletivamente, mas na hora de desenvolver é mais coletivo (...). E a formação dos grupos, ela é uma formação por... (...) afinidade (trecho da entrevista com a coordenação da EJA).
Quanto ao trabalho da coordenação, a proposta é a de que os professores que fazem parte dela também atuem para que a inserção no contexto da sala de aula favoreça as intervenções necessárias:
(...) Porque não dá pra você coordenar um projeto pedagógico se você não tá inserido em sala, atuando com os alunos. Você não consegue experenciar isso só olhando, só olhando. O olhar, estando na coordenação, você tem um olhar geral, sobre a Educação de Jovens e Adultos, e esse particular que a sala de aula te dá é fundamental pra você ajuntar as duas coisas e fazer a ponte, da coordenação com o trabalho de sala, com os professores (...) (trecho da entrevista com a coordenação da EJA).
A princípio, cada grupo teria um(a) coordenador(a) atuando como professor. Mas o que observamos foi a falta de um(a) coordenador(a) no grupo “B” e dois(as) coordenadores(uas) no grupo “C”. O grupo “A”, além de ter um(a) coordenador(a) inserido(a) nas suas turmas, contava com a participação de um(a) dos(as) coordenadores(as) do grupo “C” para aulas específicas de Matemática, ministradas às sextas-feiras, na turma da manhã, para alunos que já tinham obtido progressos nessa área. Dois argumentos que talvez explicassem a falta de um(a) coordenador(a) no grupo “B” seria a composição dos grupos por área de formação e o fato de que os outros grupos careciam de um professor de Matemática. Quando questionamos tal composição para o próprio grupo “B“, não obtivemos
esclarecimentos, apenas gestos e palavras que demonstravam ressentimentos quanto ao tratamento dado ao grupo.
Como é ainda um projeto em construção, a equipe de professores da EJA está refletindo em como obter mais êxito. Eles já avaliaram que essa forma de organização não está contemplando o que pretendiam, ou seja, a coordenação poder transitar nos grupos de acordo com a demanda por projetos (reunião coletiva realizada na sexta-feira, dia 28/11/2003).
A jornada de trabalho dos professores que trabalham com a EJA é distribuída entre aulas, reuniões destinadas a planejamentos nos grupos de trabalho e reuniões coletivas às sextas-feiras.
No seminário sobre o trabalho docente foi relatado que o horário das aulas foi determinado a partir de uma assembléia com os alunos. A sexta-feira, destinada para planejamentos e reuniões coletivas, também foi votada anteriormente, em assembléia.
De segunda a quinta-feira, geralmente os professores se reúnem de 18:00 às 19:00 h para planejar atividades, trocar idéias e materiais que podem enriquecer os temas que pretendem trabalhar, discutir assuntos relativos à dinâmica da escola, relatar o desenvolvimento dos alunos e para conversar informalmente.
As aulas começam às 19:00 h, mas nota-se que poucos alunos conseguem ser pontuais. Em virtude do trabalho, muitos chegam atrasados. O término das aulas se
dá às 22:20 h. A EJA do diurno funciona de 7:30 às 10:30 h e em algumas sextas- feiras há aula extra de Matemática.
As turmas são formadas no início do ano, num processo de encaminhamento dos alunos pela coordenação para os grupos de professores. Os alunos passam por uma entrevista com a coordenação, que busca informações sobre sua escolaridade e seu possível envolvimento com a proposta da EJA na EMAF20. Assim, eles são encaminhados aos grupos, que terão toda a liberdade de fazer movimentos com esses alunos. Cada grupo de trabalho possui turmas com alunos de alfabetização até turmas com alunos que podem concluir o ensino fundamental na modalidade de EJA.
(...) tem alunos que estão no período de alfabetização, tem alunos que não estão concluindo... estão no meio do processo de ensino e aprendizagem e tem aqueles alunos que estão em fase de conclusão. Todos os grupos têm essas mesmas características. Têm alunos com essas características, né (trecho da entrevista com a coordenação da EJA).
Num primeiro momento, o grupo encaminha o aluno para uma de suas turmas, mas, depois, de acordo com a observação dos professores e pelo desenvolvimento apresentado pelo aluno, ele pode mudar de turma.
Existem também outras formas de enturmações dentro dos grupos, o que caracteriza a flexibilidade de lidar com os tempos e espaços escolares.
20 De acordo com dados obtidos na entrevista que realizamos com os coordenadores da EJA e no Seminário sobre a Organização do Trabalho Docente na EMAF.
(...) essa flexibilização ela ocorre, que a gente chama de reenturmações, né, diferentes, ela ocorre muito em função do projeto, do que tá acontecendo no projeto e do que a turma apresenta de dificuldade e facilidade, né, pra gente poder tá vendo o que que a gente vai, como que a gente vai enturmar esse pessoal em determinados momentos. Então, é uma mudança constante no trabalho, né? Tem dia que os professores estão trabalhando de dupla na sala, de trio, tem vez que todos estão juntos, com todos os alunos, a corporeidade, quando a gente trabalha a corporeidade, a gente vê a importância de todas as vivências estarem juntas, né, de todos os alunos estarem juntos com suas experiências de vida e tal. E aí fica todo mundo junto e todos os professores juntos. É uma enturmação diferente; então, depende muito do projeto e do que está sendo desenvolvido no projeto e da dificuldade ou facilidade desses alunos no projeto, né? Isso que a gente chama de flexibilização. Agora, tem as turmas de referência, né? Tem as turmas de referência que elas funcionam como referência pro aluno e pro professor, de alguma forma. Mas não fica voltado pra isso (trecho da entrevista com a coordenação da EJA).
A turma da manhã, pertencente ao grupo “A”, foi criada pela demanda dos próprios funcionários da escola, que trabalhavam à noite. Posteriormente, outras demandas foram surgindo e novos alunos foram se matriculando no turno da manhã. Como a escola oferece o ensino fundamental nos três ciclos, a expansão de novas turmas de EJA se torna inviável por falta de espaço físico.
A turma da manhã, ela já foi aberta em função do trabalho de vários de nossos alunos, né? Outras demandas são as demandas da própria cidade mesmo, porque a gente avaliou que não cabia, só porque é EJA tem que ser à noite. Essa é uma demanda da cidade, e tinha uma demanda dos nossos funcionários que... fazem aquele trabalho da infra-estrutura e estavam ficando excluídos do processo da escolarização em função do horário. Eles pegam serviço às duas e largam às dez. Então, não podiam estudar conosco, e a grande maioria não tem o ensino fundamental completo. Então, a gente puxou a fila com oito funcionários que trabalhavam e que não tinham o ensino fundamental. Então, o trabalho deles é que fez construir a EJA da manhã (trecho da entrevista com a coordenação da EJA na EMAF).
Num período do ano, um movimento que mobiliza todos os alunos da educação de jovens e adultos se dá por meio do Projeto Oficinas. Os alunos optam por disciplinas e/ou trabalhos que querem cursar e se inscrevem para os mesmos. Assim, são
constituídas turmas que agrupam alunos de todos os grupos, atendendo aos interesses dos mesmos.
A oferta das oficinas, também denominadas de optativas, tenta responder às demandas dos alunos obtidas no questionário do perfil dos alunos21. Ao entrevistarmos a coordenação, pudemos ver um gráfico que ela havia feito a partir das respostas dos alunos ao questionário. A demanda maior dos alunos era pelas aulas de computação; em segundo lugar, vinham as aulas de inglês, seguidas pelas aulas de culinária, desenho, espanhol e capoeira, entre outras coisas, o que retrata uma diversidade de interesses dos alunos por novas aprendizagens.
As inscrições são feitas nas oficinas que os alunos escolherem, desde que não ultrapassem o número de vagas em cada uma. Nem sempre, a equipe consegue satisfazer todos os alunos, já que a maior parte das oficinas é oferecida pelos próprios professores, que, além de tentar atender a demanda, têm de demonstrar habilidades para o trabalho a ser desenvolvido. Um aspecto interessante a considerar é que algumas oficinas foram oferecidas por alunos da EJA ou estagiários da escola, valorizando saberes que esses sujeitos possuem.
Nesse ano, foram oferecidas as seguintes oficinas: inglês (duas turmas), espanhol, capoeira (oferecida por um aluno da EJA), informática, forró (oferecida por um estagiário da EMAF), arte e cultura corporal, culinária e produção de velas.
21As questões do questionário que a escola aplicou para obter tais dados se refere a: “A escola oferece diversas
oficinas (as optativas). Que habilidades e/ou conhecimentos você gostaria de desenvolver, neste ano?”; e “Se você possui alguma habilidade bem desenvolvida, você gostaria de ensiná-la na escola?
As oficinas aconteciam uma vez na semana, à noite. A turma de EJA da manhã não participou, já que as oficinas não foram oferecidas no horário de aulas dela. Entretanto, esses alunos tiveram aulas de inglês, espanhol e corporeidade, além das outras atividades que já são desenvolvidas cotidianamente.
Outras formas de enturmações são os reagrupamentos de leitura e escrita. Um dos aspectos que pode ser considerado como um desafio para o trabalho com a educação de jovens e adultos é o de lidar com as dificuldades da leitura e escrita desse público 22.
Os reagrupamentos de leitura e escrita buscam envolver os alunos em atividades que visam a desenvolver a capacidade de ler e escrever com autonomia, usando vários tipos de textos. Os grupos de alunos são reunidos de acordo com as habilidades que apresentam, o que pode criar vários tipos de enturmações: dois ou mais sub-grupos numa mesma turma, o agrupamento de duas ou mais turmas de alunos, etc. Quando a turma é dividida, cada professor fica com um grupo e trabalha com uma atividade específica que atenda as necessidades desses alunos. Se os professores notam que uma mesma atividade é interessante para alunos de turmas diferentes, eles são reagrupados conforme o objetivo proposto.
O horário das aulas já é determinado para o desenvolvimento das diversas atividades, que englobam os reagrupamentos de leitura e escrita, as disciplinas
22Pode-se dizer que a preocupação com as habilidades de leitura e escrita é central nos três grupos de trabalho. Além da observação, os documentos (referentes aos Relatos de Experiência de cada grupo) e o Seminário de Organização do Trabalho Docente apresentaram evidências a esse respeito.
específicas, os projetos e ainda vários movimentos que ocorrem ao longo do ano, como: assembléias, palestras, Semana Literária, Jogos pela Paz, Sarau, Projeto Oficinas/Optativas, Projeto Ocupação dos Espaços da Cidade (que inclui idas ao cinema, ao Festival de Arte Negra, ao Palácio das Artes, ao Mercado Central, ao Museu Abílio Barreto, a clubes, etc).
Os espaços da escola são também utilizados para algumas atividades, como: pesquisas na biblioteca e na sala de informática, filmes na sala de vídeo (sala 10) e na sala 35 (sala maior usada também para apresentações, palestras), aulas no laboratório de ciências, assembléias na quadra coberta, jogos na quadra aberta, etc.
Os professores propõem o trabalho dos alunos em duplas ou em grupos. Às vezes, esse movimento ocorre espontaneamente, pelo desejo dos próprios alunos. Com exceção de algumas atividades, a maioria dos professores não se incomoda com essa organização.
Notamos uma flexibilidade quanto ao tempo e espaços escolares que se reflete na organização do trabalho docente e pedagógico. Consideramos esses movimentos importantes, já que eles tornam a aprendizagem um processo rico e humano, no qual subjaz uma concepção ampla de educação, que não se restringe ao tempo e espaço da sala de aula.
Acreditamos que os alunos da EJA se mostram, inicialmente, resistentes a essa flexibilidade, considerando o passado escolar deles. Mas percebemos, ao final do
ano, pela avaliação dos próprios alunos, o quanto a experiência vivenciada é validada por eles. Isso vai se tornar mais explícito no capítulo referente à avaliação.
2.2.3 A interação humana: o princípio dialógico mediando as relações entre