Essa relação entre Luis e Ana é tratada tanto no filme (1977) quanto no romance (2004). No romance, porém, Saura acrescenta outra relação amorosa de Luis: é a relação entre ele e Carmen. No romance, Luis lamenta a morte de Carmen, a mulher assassinada perto da sua casa, depois confessa para Elisa que Carmen havia sido sua namorada:
Cuando despertó, un profundo dolor le subió por las entrañas a la altura de los riñones. Se preguntó cómo era posible que transcurridos tantos años no hubiera podido eliminar de su mente imágenes tan dolorosas, que todavía ahora le perturbaban. Recordó que no fue de día, sino de noche cuando aquello sucedió, y que nunca hubiera imaginado que esa noche iba a ser un camino sin fin que conduciría a Carmen a la muerte (SAURA, 2004, p. 6).
As últimas palavras do personagem, quando recorda a morte da ex namorada, são
carregadas de melancolia: “[...] nunca hubiera imaginado que esa noche iba a ser un camino sin fin que conduciría Carmen a la muerte” (SAURA, 2004, p. 6). Sobre essa relação, ausente
no filme, Saura deixa pistas através dos diálogos entre Luis e Elisa, também por meio das memórias de Luis. Em um diálogo com Elisa, Luis confessa que Carmen havia sido sua namorada, mas que haviam terminado o relacionamento porque eram muito diferentes.
Carmen gostava de sair, conversar, ir ao teatro, aos concertos e ele é uma pessoa que gosta do isolamento, mesmo assim se referiu a Carmen com certa nostalgia: “[...] – Sonrió con la noltalgia de un buen recuerdo – [...]” (SAURA, 2004, p. 115).
Na continuidade desse diálogo, a descrição de Carmen sugere que pensemos novamente no trabalho de Freud, Luto e melancolia (1915), pois Luis a descreve como uma mulher transtornada pela morte do marido, que durante um tempo não havia saído de casa, havia abandonado o emprego e não recebia ninguém. Pouco a pouco, porém, a ferida foi cicatrizando e Carmen voltou a sair de casa e retomou o emprego na escola onde Luis trabalhava.
Conheceram-se na escola e apesar das diferenças começaram a namorar. Mantinham um relacionamento aberto. Luis conta para Elisa que não pediu a Carmen que ela fosse fiel. Um dia ela disse para Luis que havia conhecido outro homem e ele simplesmente desejou que
ela fosse feliz: “[...] Como yo sabía que eso iba a ocurrir tarde o temprano, me lo tomé con
filosofía y le deseé que fuera feliz. Ella se marchó llorando, y entonces lamenté no haber hecho un mayor esfuerzo para que continuara conmigo, quizá Carmen esperaba una reacción
así [...]” (SAURA, 2004, p. 117).
Luis parece se arrepender por não fazer nada para que Carmen continuasse com ele, e isso o faz sofrer, como sofreu quando fugiu de casa abandonando a esposa e as filhas. Mas Carmen não estava disposta a viver isolada com Luis. Mais uma vez, Luis prefere isolar-se a continuar um relacionamento. Podemos considerar, talvez, como uma segunda fuga do personagem. Na primeira, vivia a crise do casamento e preferiu fugir a enfrentá-la. Da segunda vez, simplesmente deixou que a namorada se fosse porque ela havia conhecido outro homem, sem fazer nenhum esforço para que ela continuasse com ele.
Embora isso lhe tenha causado sofrimento, também não tentou retomar a relação com Carmen. Luis parecia não estar disposto a abrir mão do seu isolamento, do silêncio, dos seus
hábitos, suas manias, embora, reafirmando nossa análise, ele sofresse por não tê-la mais como companhia. A prova disso é a angústia e tristeza que demonstra quando conta para Elisa
sobre a morte de Carmen: “[...] – Es una imagen que nunca podré olvidar, verla allí en el camino, desangrada y muerta... [...]” (SAURA, 2004, p. 116).
Retomando a Égloga I, de Garcilaso de la Vega, que originou essa obra de Saura, e lembrando que Saura com ela dialoga ao tratar de crises amorosas, analisaremos, a partir de agora, a crise no casamento de Elisa e Antonio. Em relação a essa crise, Saura expõe no romance os conflitos gerados pela crise atual do casamento de Elisa e Antonio. Elisa se queixava da dor que sentia ao pensar na separação definitiva:
La enfermedad de su padre coincidió con la crisis de su matrimonio. Bueno, con una de las crisis, porque Antonio y ella se llevaban mal, y estaba claro que así no podían continuar. El dolor de una separación definitiva le rompía el corazón y apenas le dejaba vivir. Trataba de distraerse, de concentrarse en su trabajo, pero todo resultaba inútil. No podía evitar que los recuerdos felices se mezclaran con otros en donde el desacuerdo provocaba cada vez con mayor frecuencia desavenencias y discusiones que habían llegado a ser violentas (SAURA, 2004, p. 13).
Lembramos que Luis fugiu por não conseguir encarar os problemas conjugais. De certa forma, Elisa, que morava na França com o marido, também encontrou um pretexto para se afastar de Antonio: o telegrama da irmã que contava sobre a gravidade da doença do seu pai e a necessidade de ela ir à Espanha para visitá-lo.
Em um diálogo entre Elisa e Isabel, as duas comentam sobre os problemas do casamento de Isabel e Julián. Elisa reflete, melancolicamente, sobre como era doloroso falar
dos seus sentimentos: “[...] Le dolía hablar de sentimientos. Le dolía porque su herida estaba
todavía reciente y sin cicatrizar [...]” (SAURA, 2004, p. 58). Concretiza-se aqui a melancolia de Elisa originada por questões amorosas.
Nesse diálogo, Isabel pergunta à irmã se está acontecendo alguma coisa com ela. Elisa responde que o casamento passa por uma crise e ela não sabe o que fazer:
– Y a ti? A ti te pasa algo, ¿verdad? – le preguntó Isabel.
Con un estremecimiento, todavía perturbada, Elisa trató de recuperarse. Su hermana esperaba una respuesta.
– No sé lo que pasa. No sé lo que voy a hacer. No soy capaz de tomar ninguna decisión. No sé qué hacer, pero no puedo vivir con Antonio. No puedo. Lo he intentado todo, pero no puedo (SAURA, 2004, p. 59).
No segundo capítulo do romance, ao ler uma carta que o pai escrevera sobre sua relação com Antonio, fica surpresa e se pergunta como o pai adivinhara que seu casamento
não ia bem e reflete sobre sua vontade cada vez maior de se separar: “[...] Lo cierto era que
cada vez se afianzaba más en ella la idea de esa separación, ¿Por qué no terminaba de reconocer que su historia con Antonio había terminado? [...]” (SAURA, 2004, p. 146). Mesmo estando segura sobre sua decisão de separar-se, Elisa ficava melancólica ao pensar no momento de confrontar-se com Antonio para falar da separação: “[...] Le horrorizaba pensar en el momento en que tendría que decirle: „Lo siento, Antonio, ya no te quiero. No quiero
vivir más contigo. Me voy para siempre de tu lado‟ [...]” (SAURA, 2004, p. 146).
Depreendemos que a decisão de Elisa sobre a separação, bem como suas implicações, gerava seu estado melancólico; ela sabia que devia fazê-lo, mas não sabia como fazê-lo e isso a deixava triste. Se pensarmos na Égloga I, de Garcilaso de la Vega como fonte de inspiração para a obra de Saura, podemos associar a tristeza e melancolia de Elisa com a poesia. Por um lado, Elisa chora pela possibilidade de traição de Antonio, por outro, chora pela morte do amor entre o casal. Em um diálogo entre Luis e Elisa, ela conta ao pai sobre sua desconfiança de traição:
– Pues sí, así están las cosas. Y además, me engañaba.
– Eso es lo que más me duele.
– Pues mira, no. Aunque al principio sí, me dolió es que incumpliera el pacto que habíamos hecho de ser sinceros el uno con el otro. Si no éramos honestos, ¿para qué vivir juntos? Yo no quería un amante ocasional, sino alguien en quien confiar plenamente, con quien compartir todas las cosas, las buenas y las malas.[...] (SAURA, 2004, p. 160).
Essa suposta traição não se confirma, nem no romance nem no filme. No romance, Elisa dialoga com o pai sobre sua desconfiança e relata que desconfiava de um romance entre
Antonio e Marta, sua melhor amiga. Para a construção de Marta, Saura parece dialogar com Carmen (1845), de Prosper Mérimée, que narra o amor de Don José por Carmen, uma mulher inconstante, que é morta pelo amante. Esse romance foi adaptado para uma ópera, por Bizet, em 1875, e, posteriormente, para o cinema pelos diretores C. B. de Mille (1915); E. Lubitsch (1918); J. Feyder (1926); Raoul Walsh (1927); Christian-Jaque (1943); Charles Vidor (1948); Otto Preminger (1953); Carlos Saura (1983) e Francesco Rosi (1984).
Baseado no romance de Prosper Mérimée (1845) e na ópera de Bizet (1875), Saura recria Carmen (1984), na qual Antonio, coreógrafo da Companhia de Balé, está selecionando a bailarina ideal para interpretar Carmen. A história do filme se desenroladurante os ensaios do espetáculo. Uma jovem dançarina, também chamada Carmen disputa o papel principal, a personagem Carmen. Antonio se apaixona pela bailarina e começa a agir de forma obcecada, como o personagem da ópera. Carmen também demonstra possuir o mesmo caráter da personagem que interpreta: uma mulher independente, sensual e narcisista. Iniciam um romance que se confunde com a história de Mérimée e Bizet. Os acontecimentos da peça, como amor, ciúme, ódio e tragédia vão se transformando em realidade nas vidas de Antonio e de Carmem. Apaixonado pela bailarina, Antonio desenvolve uma relação de amor e ódio que acaba na morte trágica de Carmen.
Uma das características da obra de Saura é a repetição de nomes de personagens, e, muitas vezes, a repetição de personagens. O personagem que supostamente se envolve com Marta, amiga de Elisa, em Elisa, vida mía (filme e romance) se chama Antonio. Posteriormente, o nome do personagem que efetivamente se envolverá com a bailarina Carmen, no filme Carmen (1984), de Saura, também se chamará Antonio. Em Elisa, vida mía, filme (1977) e romance (2004), ao tratar da história entre Elisa, Antonio e Marta, Saura parece fazer um intertexto com Carmen de Mérimée e Bizet, pois a própria personagem Elisa considera Marta como uma Carmen moderna: “– Marta era una mujer atractiva que tenía
éxitos con los hombres. A veces me contaba sus amoríos. Era una de esas mujeres que no quieren sujetarse a ningún hombre y buscan aventuras pasajeras, una especie de Carmen
Moderna [...]” (SAURA, 2004, p. 16).
No episódio no qual Elisa conta para o pai sobre a morte de Marta, a melhor amiga, que supostamente teve um caso com seu marido, fica evidenciada a comunicação entre o texto de Saura e os textos de Mérimée e Bizet. Em Elisa, vida mía, filme (1977) e romance (2004), na história contada por Elisa, Marta é encontrada morta no apartamento em que morava:
– Entonces me dirigí al dormitorio. Abrí la puerta. En medio de la habitación había una cama de matrimonio, y sobre ella una mujer vestida con el mismo traje de seda roja que había dibujado en la mesa de arquitecto. Me aproximé temerosa a la cama. No pude gritar. Te juro que no podía gritar porque me había quedado sin voz. No podía apartar la mirada del cadáver ya momificado de Marta. Estaba muerta desde ya hacía mucho tiempo, y la piel y los huesos de su cara le daban la horrible apariencia de una de esas momias egipcias, sólo que esta vez el traje de seda roja se desparramaba por la cama, y los zapatos de tacón, muy livianos, negros, colgaban de los huesos de los tobillos en posición imposible. Un vaso que todavía conservaba en su interior un poso blancuzco llamó mi atención. Marta se había suicidado (SAURA, 2004, p.170).
Há outro episódio em Elisa, vida mía (2004) no qual Saura dialoga com Carmen, de Mérimée e Bizet. Nele, Elisa recria a morte da personagem Carmen, mulher assassinada perto da casa do seu pai, e, ao recriá-la, comparaà Carmen de Bizet. A Carmen de Elisa era como a Carmen de Mérimée e Bizet, uma mulher independente, que não se subjugava aos homens e com eles jogava perigosamente, frequentementehumilhando-os:
[...]Ese tipo era un hijo de puta que había acribillado a cuchilladas a una mujer por el simple hecho de que ya no le quería. ¿Sería por eso? Por celos, por despecho, porque no podía aceptar que Carmen Alvarado fuera una mujer independiente que quería hacer lo que le viniera en gana sin depender de ningún hombre, y si tenía otro amante, era su problema sólo su problema. Quizá fuera una presunta suicida que, como la Carmen de Bizet, sabía antes de morir que iba a ser asesinada, porque su muerte había sido anunciada en las cartas de baraja [...] (SAURA, 2004, p. 218).
A Églogla I, de Garcilaso de la Vega, além de falar de tristeza pela morte de Elisa, também fala da infidelidade de Galatea e mostra a tristeza de Salicio por causa da traição de sua amada. Em Elisa, vida mía, filme (1977) e romance (2004), Saura representou a
infidelidade pelo episódio que acabamos de comentar, pela suposta infidelidade de Antonio e pela infidelidade declarada de Isabel. No primeiro capítulo, Isabel conta a Elisa que tem um amante:
Isabel, en voz baja y ligeramente desafiante, le contestó:
– En eso tienes razón. Tengo un amante, y por supuesto él no sabe nada.
La crudeza de la respuesta le sorprendió. Había pensado que la cosa iba por otro lado, pero trató de no hacer de la confidencia un drama.
–¿Te sorprende? – le preguntó su hermana.
– No. Bueno, no demasiado. Si tú eres feliz... ¿Le quieres mucho?
– Sí, mucho. Más que nadie en el mundo (SAURA, 2004, p. 58).
Esse diálogo mostra as diferenças entre as duas irmãs. Isabel é firme, forte, e poderíamos assim compará-la à personagem Carmen, do romance e ópera Carmen, mulher independente e bem resolvida: “[...] Era más guapa que Elisa, más resultona, y siempre tuvo
más éxito con los hombres, a los que llevaba de la calle y hacía sufrir con sus veleidades [...]”
(SAURA, 2004, p.7). Essa última característica apontada na citação confirma o comportamento de Isabel em relação ao marido. Confessa à irmã, muito naturalmente, que tem um amante e que o ama muito. Sobre a relação com o marido, diz que continuam vivendo juntos porque se suportam. Diferente de Elisa, que sofre por causa da crise no casamento, Isabel não demonstra sofrimento em nenhum momento.