3.1 Delimitação do universo e constituição do corpus
Para a composição do corpus, coletamos 20 projetos de dissertação qualificados nos últimos cinco anos, sendo 10 de alunos do Programa de Pós-Graduação em Lingüística, da Universidade Federal do Ceará (UFC) e mais 10 de alunos do Programa de Pós-Graduação em Lingüística Aplicada, da Universidade Estadual do Ceará (UECE). Diferenças de sexo, idade ou posição social não foram analisadas, já que todos os informantes são considerados iniciantes na prática discursiva de produção de projetos de dissertação.
As seções de justificativa destes projetos foram analisadas quanto a sua organização retórica e quanto à estrutura argumentativa, mas, por questões de recorte metodológico, utilizamos apenas projetos de dissertação da área de Lingüística, embora tenhamos intenção de ampliar o modelo que vamos propor às outras áreas de conhecimento, de maneira semelhante ao que fizemos em relação ao trabalho de Biasi-Rodrigues (1998) sobre resumos acadêmicos (cf. OLIVEIRA et al., 2001).
3.2 Definição da terminologia
Utilizamos, como Biasi-Rodrigues, (1998) os termos unidade retórica para movimento e subunidade para passo (do modelo de SWALES, 1990) ao identificar as unidades de informação da peça genérica seção de justificativa. As unidades retóricas correspondem aos blocos textuais que se organizam de acordo com as funções retóricas a serem desempenhadas e serão preenchidas por subunidades que realizam tais funções.
O que denominamos de unidades de informação corresponde ao conceito de unidades retóricas (cf. BIASI-RODRIGUES, 1998), que são as estratégias de organização
das informações utilizadas para compor os textos em cada gênero. Já aquilo que chamamos de subunidades retóricas são os caminhos escolhidos para preencher as funções retóricas de cada unidade, ou seja, as formas em que se realizam as unidades retóricas.
3.3 Simbologia adotada
Cada bloco textual correspondente às subunidades realizadas nas seções de justificativa analisadas é delimitado por uma linha horizontal, que tem extensão maior que o próprio texto. Na parte direita desta linha horizontal indicamos a unidade retórica a que pertence a porção textual e na esquerda a subunidade em que esta unidade retórica está sendo realizada (ver Figura 8). Cada unidade retórica identificada é representada pelo símbolo “Un” acompanhado de um número cardinal (ex. Un1) e cada subunidade é representada apenas pelo seu número, de acordo com a unidade retórica a que pertence (ex. S1.1, S2.2, S3.1, etc.)
As unidades ou subunidades, cuja informação não conseguimos identificar, são representadas pelo sinal “?” e aquelas cuja informação aparece apenas sugerida, são representadas pelo sinal “!”, acompanhando a representação da unidade ou subunidade sugerida, seguindo a orientação metodológica deixada por Biasi-Rodrigues (1998) p (ex: Un1! / 1.1!).
Un1
Texto texto texto texto texto texto texto texto texto texto texto texto texto texto texto texto texto texto texto texto texto texto texto texto texto texto
texto texto texto texto S1.1
Quadro 2 – Modelo de segmentação para análise de seções de justificativa
As unidades de informação encontradas nas seções de justificativa de projetos de dissertação foram tabuladas em planilhas do Microsoft Excel ® e colocadas em gráficos que permitem verificar seu grau de recorrência no corpus. As unidades que apareceram
apenas sugeridas foram contadas nestas tabelas, porém as que não puderam ser identificadas, logicamente, não foram quantificadas.
Uma vez determinadas as unidades retóricas que caracterizam a seção de justificativa de projetos de dissertação como uma peça genérica, identificamos a seqüência textual realizada nestes textos e delimitamos as porções textuais que correspondem às macroproposições que se realizam nesta seqüência textual. Não marcamos a seqüência predominante nos textos por entender que esta marcação seria desnecessária, já que em todos os textos predomina a seqüência argumentativa. As macroproposições da seqüência predominante, que é sempre a argumentativa, são indicadas entre colchetes, ao final de sua realização (Ex. [dados]). As seqüências inseridas também são marcadas no final de sua realização e estão indicadas entre colchetes, porém, cada seqüência inserida é indicada com uma cor específica, estando a cor vermelha reservada para a seqüência explicativa (ex:
[seqüência explicativa]), a cor verde para a seqüência descritiva (ex: [seqüência descritiva]), a cor laranja para a seqüência narrativa (ex: [seqüência narrativa]) e a cor azul para a seqüência argumentativa (ex:[seqüência argumentativa]5).
As macroproposições que se realizam dentro de uma seqüência inserida também são indicadas entre colchetes, mas neste caso entre dois colchetes e indicadas também com a cor da seqüência de que elas são parte. Também esta indicação aparece ao final da realização da macroproposição referida (ex. [[dados]] ou [[esquematização inicial]]).
As indicações das unidades e subunidades retóricas e as das macroproposições foram feitas, a principio, em textos diferentes. Posteriormente, os textos foram contrastados para investigar se há seqüências que aparecem mais regularmente em determinada unidade ou subunidade retórica.
5 A marcação da seqüência argumentativa somente será feita se ela aparecer como inserida dela mesma, por
exemplo, quando ocorre toda uma seqüência argumentativa para funcionar como um dos dados que apoiará a tese defendida na seqüência argumentativa dominante.
3.4 Tratamento dos dados
A partir de uma amostra do corpus coletado (10 seções de justificativa), elaboramos um modelo preliminar de distribuição de informações semelhante ao proposto por Swales (1990) para introduções de artigos de pesquisa. Em seguida, segmentamos todo o corpus conforme o padrão resultante desta amostra. A segmentação possibilitou verificar se projetos de dissertação produzidos por alunos dos cursos de mestrado em lingüística apresentam uma organização retórica prototípica, ou seja, as mesmas “estratégias de condução de informações” (cf. BIASI-RODRIGUES, 1998).
Paralelamente, segmentamos a mesma amostra em termos da seqüência dominante nas seções de justificativa de projetos de dissertação (cf. ADAM, 1992). Depois verificamos se as porções de texto que compõem as suas macroproposições correspondem a porções de texto resultantes da segmentação feita em termos de unidades retóricas. Numa segunda etapa, o restante do corpus recebeu o mesmo tratamento.
Em resumo, todas as seções de justificativa dos projetos de dissertação foram investigadas por meio dos seguintes procedimentos:
• identificação das unidades de informação nos exemplares do corpus, com apoio de pistas lexicais e/ou referenciais
• verificação da recorrência das unidades de informação;
• formalização de um padrão de organização retórica, com o preenchimento das unidades de informação mais recorrentes resultantes da análise;
• identificação das macroproposições da seqüência dominante e das seqüências inseridas nos exemplares do corpus;
• verificação das funções desempenhadas pelas seqüências textuais ou pelas macroproposições na sua materialização em diferentes unidades de informação.