Segundo Saldanha (2004), a “construção da demanda”, se dá geralmente em projetos de pesquisas e desenvolvimento, que focalizam questões em aberto, onde a ajuda especializada não dispõe de práticas e vivências para solucionar tais questões, e o seu ponto de partida é, em geral, a demanda provocada. A autora ainda afirma que a demanda provocada não se configura espontaneamente pela empresa, mas a partir de propostas feitas por parte da equipe de ergonomia para a empresa/situação de foco. Na demanda provocada, é necessário persuadir a empresa (ou responsáveis pela comunidade onde será desenvolvida a pesquisa) de que é imperativo desenvolver e implementar uma intervenção. (SALDANHA, 2004)
Desta forma, é o pesquisador que procura a empresa (ou como no caso da presente pesquisa, um Núcleo de produção artesanal) e esta demanda provocada é construída a partir de uma série de hipóteses de demandas concebidas a partir do conhecimento prévio a respeito do assunto abordado. Este conhecimento pode ser adquirido através de pesquisas em situações de referência práticas ou teóricas e suposições feitas a respeito do local em questão, seja este uma empresa ou uma comunidade artesanal (SALDANHA, 2004).
A construção da demanda do presente projeto teve início a partir da análise dos dados contidos no Programa de Pesquisa e Extensão - Rendeiras da Vila – GREPE (Saldanha et al, 2007,2008). O projeto tinha por objetivo a formação de novas rendeiras e a capacitação de rendeiras experientes, numa tentativa de diminuir os riscos de extinção do ofício na Vila de Ponta Negra. Esta demanda inicial serviu como base para o desenvolvimento do projeto.
Para a reconstrução da demanda, foram realizadas pesquisas bibliográficas em livros, dissertações e artigos científicos (vários deles publicados pelo GREPE), visitas a comunidades produtoras de artesanato (de diversas tipologias) e visitas ao Núcleo de Produção Artesanal (local de estudos). Assim, pôde-se ter um panorama geral da atividade realizada pelas rendeiras. Embasados nos conhecimentos adquiridos, pudemos então observar aspectos relacionados a esta demanda existente, de modo a possibilitar a modelagem progressiva desta.
Os estudos realizados apontavam para a demanda existente, uma Oficina de Renda de Bilros que contemplava a formação de novas rendeiras, através do repasse das técnicas da renda e do desenho dos moldes da renda de bilros, no intuito de capacitar rendeiras no referido Núcleo de Produção Artesanal, para que estas pudessem aguçar a capacidade criativa na elaboração de novos produtos, sendo esta demanda diretamente relacionada com a formação de novas rendeiras e a inovação dos produtos desenvolvidos por elas.
A proposta inicial do projeto Oficina-escola de Renda de Bilro do GREPE contemplava a formação e capacitação de rendeiras envolvendo tanto a produção da renda como a concepção de novos produtos e desenhos. Tal proposta não foi implementada na íntegra, em função da realização de uma oficina de renda, por parte de uma instituição fomentadora externa no Núcleo de Produção, no período de Janeiro a Junho de 2009. Neste período, houve a oportunidade da equipe de mestrandas participar da oficina de renda como alunas, possibilitando vivenciar a experiência como rendeiras aprendizes, frequentar o Núcleo duas vezes por semana (totalizando 46 visitas no período da oficina de renda) e uma maior aproximação dos grupos que envolvem a construção social do projeto da oficina de desenho. A análise dos dados levantados neste período permitiu uma modelagem participativa da demanda, que teve como foco principal o repasse das técnicas do desenho da renda de bilros, de modo que a demanda ergonômica negociada, a Oficina de Desenho da Renda de Bilros, estaria diretamente relacionada com a formação de novas rendeiras e a capacitação das antigas
rendeiras do Núcleo, com a inovação dos produtos,a consequente inserção no mercado, além dos aspectos sócio-culturais.
Podemos observar que a demanda central, a necessidade de repasse de técnicas de desenho para as rendeiras, está no cerne de quatro áreas: 1. a inovação (onde a capacidade de desenhar está intrinsecamente ligada com a criação de novos produtos); 2. o mercado (a inserção de novos produtos poderá incrementar a comercialização); 3. a questão social (repasse de conhecimentos relacionados à formação e capacitação de rendeiras, contribuindo para a perpetuação da arte ofício) e a cultura (através da habilidade de desenhar, será possível a recuperação e resgate dos antigos moldes, herdados pelas rendeiras antigas), e 4. a concepção de novos moldes, recuperando e ampliando o acervo de desenhos e produtos.
De acordo com Braverman (1987), Fleury&Vargas (1983), Fleury & Fleury (1997), a produção artesanal é caracterizada pelo domínio do processo e do produto. No caso das rendeiras da Vila de Ponta Negra, o domínio do produto era parcial, já que ao longo dos anos, o domínio das técnicas do desenho dos moldes havia sido perdido. A capacitação das
rendeiras neste sentido é, portanto, uma tentativa de resgatar este domínio total, do processo e do produto.
Através das análises realizadas (Saldanha, 2006, 2008; Bezerra, 2007; Barros e Saldanha, 2007, Barros e Saldanha, 2008 e, Barros, 2009), observamos que desenhos feitos por pessoas externas ao contexto do Núcleo não consideram os aspectos culturais e antropotecnológicos, bem como a tradição embutida na arte-ofício. Assim, verificamos que foi de extrema relevância a concepção de um método de repasse das técnicas de desenho da renda, o que possibilitou que os novos produtos que foram criados pelas próprias rendeiras estivessem inseridos na sua cultura e tradição, sem descaracterizar a tipologia.
A implementação deste método, através de uma oficina, possibilitaria o resgate da capacidade de criação das rendeiras, possibilitando a inovação permanente dos produtos através da criação de novos desenhos para a renda, de novas modelagens de roupas e de novas coleções. Este processo também contemplou a recuperação de antigos desenhos e uma melhor conscientização a respeito da formação de preços dos produtos também foi abordada, otimizando as estratégias de comercialização. Outro ponto atingido foi a inserção de novas pessoas no ofício, valorizando e mantendo viva esta arte.