4. ARAġTIRMA SONUÇLARI VE TARTIġMA
4.6. TARTIġMA
A narrativa na perspectiva de Walter Benjamin e a literalização na ótica de Schmidt (1990) foram os recursos/instrumentos metodológicos utilizados nesta pesquisa, os quais serão expostos a seguir nesta mesma ordem.
Walter Benjamin, embora não seja autor específico da Psicologia nem da fenomenologia, representa um ícone em nossa trajetória metodológica ao apresentar a narrativa como via de acesso à experiência das pessoas. Em Magia e Técnica (1994) o autor define narrativa como sendo uma forma artesanal de comunicação que mergulha a coisa na vida do narrador para, em seguida, retirá-la dele.
A narrativa é uma expressão afinada com a pluralidade de conteúdos e a constante mudança temporal, características desta elaboração (Benjamin, 1985). Dessa forma, poderíamos supor que a narrativa serve como veículo de registro, elaboração e transmissão da experiência.
Dutra (2000) comenta que para Benjamin, a arte de narrar constitui um acontecimento inesgotável, isto porque, ao contrário do acontecimento vivido, que é finito, a narrativa tem o poder de perpetuar a vivência de modo sem limites.
A narrativa não seria uma lembrança acabada, e sim, um intercâmbio de experiências, pois na medida em que narramos algo, também re-significamos e re-vivemos o que foi dito. O ato de narrar está impregnado pelo sentido da subjetividade de quem o realiza. Deste modo, o narrador retira da experiência o que ele conta, ou seja, a sua própria experiência ou aquela relatada pelos outros, incorporando as coisas narradas à experiência dos seus ouvintes. Assim sendo, temos que a subjetividade do pesquisador está implicada em todo o seu percurso investigativo.
De acordo com Benjamin (1985) o narrador transita entre as figuras dos mestres e dos sábios. Além disso, sabe dar conselhos para muitos, pois recorre ao acervo de toda uma vida; seja sua experiência ou a experiência alheia.
Nesse sentido, o narrador, assim como o pesquisador, realiza um duplo movimento de aproximação-distanciamento; ou seja, para narrar não basta transmitir o “puro em si” da coisa narrada como uma informação ou relatório. É preciso mergulhar na coisa, para em seguida, retirar-se dela. O mesmo ocorre com o pesquisador que procura situar-se diante das circunstâncias que o levaram a optar por investigar um dado fenômeno, e em seguida, afasta-se do contexto investigado para apreender melhor a realidade. Contudo, esse movimento de aproximação-distanciamento do fenômeno não se dá de forma absoluta, visto que há sempre implicações subjetivas que perpassam a relação entre o pesquisador e o tema investigado.
Heidegger compreende a linguagem enquanto dimensão constitutiva do ser. E isto se aproxima da perspectiva de Benjamin, que considera a narrativa como instrumento de acesso à experiência do outro e que é comunicada através da linguagem oral. Para Benjamin (1985), narrar é criar sentidos, é intercambiar experiências.
A narrativa, tal como adotada nesta pesquisa, designa um recurso que possibilita apreendermos a experiência e da qual emerge o desvelamento do Ser.
Elegemos a narrativa como instrumento de acesso à experiência dos nossos entrevistados por acreditarmos que este seria o modo de comunicação que mais se aproxima da experiência humana e de nossa perspectiva epistemológica.
O conceito de narrativa proposto por Benjamin perpassa toda nossa trajetória metodológica. Vale salientar que a narrativa não implica apenas uma pura descrição dos fatos ou a veracidade deles, mas sim uma reconstrução da fala a partir da própria experiência de quem fala.
Nesta perspectiva, a narrativa designa a maneira pela qual se transmite ou se descreve depoimentos. É o narrador quem pode contar sua vida por inteiro através de uma relação poética e espontânea com os interlocutores, transformando sua experiência e a dos outros em produto sólido e único através de um trabalho processual, reflexivo e interminável, uma vez que haverá sempre resquícios para serem contados, recortados e ampliados (Morato, 1999b. p.439).
Narrar consiste na arte de contar e/ou descrever histórias através de depoimentos. O termo depoimento pode ser entendido a partir de Queiroz (1991, p.07) como: “(...) o relato de algo que o informante efetivamente presenciou, experimentou, ou de alguma forma conheceu, podendo assim certificar.”
Portanto, os depoimentos foram tomados não em uma conotação jurídica e sim, na perspectiva das Ciências Sociais.
Nos depoimentos, o pesquisador pode dirigir a entrevista em direção ao assunto que lhe interessa em apenas um encontro, se desejar brevidade, como realmente ocorreu em todas as nossas entrevistas. Vale salientar que:
(...) embora o depoimento seja apenas uma parte da história de vida do narrador, o relato de sua experiência revela e transmite dimensões existenciais que assumem configurações próprias naquele momento, com aquele pesquisador, que também é "tocado" na sua experiência por tal narrativa. Embora seja a história de algo que lhe aconteceu, naquele momento a experiência ganha um novo formato e se revela de acordo com o total da estrutura existencial das pessoas envolvidas. (Dutra, 2000, p.113).
Diante disto, percebemos que embora nossas entrevistas tivessem por objetivo, apreender a experiência dos entrevistados (a respeito de como é ser psicólogo na OP), nossa escuta foi além do que fora previamente semi-estabelecido. Quando pedíamos aos entrevistados que narrassem suas experiências, criava-se um espaço de abertura e liberdade, o que, ao nosso ver, pareceu facilitar a expressão de afetos e sentimentos que nos acompanhavam enquanto
pesquisadora. Isto nos sugere que o momento do contato suscitava emoções que eram revividas e acompanhadas por momentos ora de angústia, pesar e medo, ora de recompensa, realização e gratificações.
As palavras de todos os entrevistados, de uma maneira ou de outra, nos tocaram enquanto pessoas, pesquisadores e colegas de trabalho mobilizados por uma causa comum: a assistência psicológica à criança com câncer. Além disso, as falas evidenciavam o processo existencial que naquele momento significava o compartilhamento de dificuldades, anseios, dúvidas, dor e satisfação. Nas palavras de Dutra (200, p.113), é o Ser-com que aí se revela, pois é na fala que o homem se manifesta, explicita-se e capta o significado de suas experiências. Na medida em que o homem se expressa, ele também se transforma e exercita sua possibilidade de vir-a-ser constante. Isto nos leva a explicitar que nossa postura enquanto pesquisadora não é meramente de observadora-ouvinte. Transcende a isso, uma vez que não se trata de analisar, interpretar a lógica da fala ou de excluir o "que não interessa". Ao contrário, trata-se de colocar- se na posição de acolhimento e abertura ao Ser que se dá e se desvela no momento do encontro. Se somos, somos no mundo e não fora ou separado dele.
Dutra (2000, p.106) refere-se à narrativa proposta por Benjamin tendo como base o pensamento de Heidegger acerca da linguagem enquanto uma das dimensões da existência do Ser-aí:
(...) podemos pensar a narrativa e a sua ênfase na experiência como uma das formas através da qual o ser-no-mundo exercita a sua compreensibilidade, pois à medida que o narrador conta a sua história, esta carrega consigo os significados que constituem o seu estar-no-mundo, cujo ser-aí se revela e se encobre na palavra, principal articuladora da sua compreensão num modo de existência.
Por essa compreensão, a narrativa tal como proposta por Benjamin (1994) aproxima-se do Ser-aí. Isso nos leva a pensar que o uso que fazemos da narrativa para compreender a experiência sugere o reconhecimento de uma relação pesquisador-pesquisado que vai além dos
papéis destinados a estes numa pesquisa científica tradicional. Portanto, é preciso reconhecer que esta relação acontece na dimensão da experiência intersubjetiva de ambos (Dutra, 2000).
Diante disto, buscamos realizar uma trajetória metodológica que mais se aproximasse de nosso objetivo. Para tanto, adotamos a narrativa seguida pela técnica de literalização, conforme proposta por Schmidt (1990) em sua tese de doutoramento.
Segundo Schmidt (1990) a literalização consiste em transformar as narrativas em um texto literário através da condensação e organização cuidadosa dos depoimentos de cada um dos depoentes, neste caso dos psicólogos entrevistados, resguardando o máximo possível as propriedades da linguagem oral e a tonalidade afetiva correspondente às falas.
Recorremos a Critelli (1996) para explicitarmos melhor a escolha por essa trajetória metodológica até então descrita. A autora nos fala do testemunho enquanto desvelador da ontológica pluralidade humana. É pela presença do outro e pelo próprio testemunho que o homem garante que o desvelado/revelado se consolidem simultaneamente. Portanto, o testemunho é aqui compreendido como sendo aquilo que dá legitimidade para tudo que se abre em comum entre os homens; e ao mesmo tempo como aquilo que confere realidade a si mesmos mutuamente.
Neste sentido, os testemunhos dos psicólogos depoentes podem ser compreendidos, não apenas como um ver e ouvir, mas sim, como um dispositivo que abre e fecha espaço na existência para as coisas, pessoas e modos de se viver. O testemunho constitui o olhar do eu, que por sua vez, se constitui a partir do olhar do outro, da coexistência (Critelli, 1996).
Portanto, os depoimentos presentes nas narrativas têm o valor de testemunho. Na medida em que se fala de uma experiência, testemunha-se os acontecimentos (vivências). Este testemunho, por sua vez, indica o desvelamento do vivido.
Sendo assim, ao analisarmos as literalizações, estaremos recortando também alguns fragmentos a fim de articularmos e alicerçarmos melhor nossas reflexões. Os critérios de recorte
dos fragmentos se baseiam na leitura cuidadosa e exaustiva dos dados, bem como numa escuta atenta e sensível dos depoimentos que sugerem o desvelamento da experiência de como é ser psicólogo na OP. Além disso, buscamos apreender fragmentos que explicitassem as implicações da prática clínica e de seus possíveis desdobramentos. Portanto, para efetuar a análise procedemos ao recorte de trechos que nos pareceram ilustrativos dessa experiência, tendo como base os autores anteriormente citados.