A Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad), criada em julho de 2004, é uma secretaria do Ministério da Educação. Nela, estão reunidos temas antes distribuídos em outras secretarias como alfabetização e EJA, educação do campo, educação ambiental, educação escolar indígena e diversidade étnico-racial. Seu objetivo é contribuir para a redução das desigualdades educacionais por meio da participação de todos os cidadãos em políticas públicas que assegurem a ampliação do acesso à educação.
A Secad concentra as políticas para a inclusão social e racial pertinentes ao MEC. É reconhecida como legítima para exercer tal função tanto pela SEB quanto pela Undime, assim como por gestores, representantes dos movimentos sociais e coordenadores de Neabs entrevistados.
Pela sua especificidade de ação, se fez necessário verificar em que medida as ações empreendidas pela Secad/MEC, de 2004 a 2009, tem uma continuidade para a implementação do artigo 26-A. Se estabelece parcerias com as demais secretarias do MEC, em especial a SEB, e como se dá a relação com a Undime?
Para este estudo analisamos as informações disponibilizadas pela Secad, no sítio do MEC e sistematizadas no Plano Nacional de Implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações e para o ensino de História e Cultura africana e afro- brasileira (2009) e africana elaborado pela Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad) em parceria com a Secretaria Especial de Políticas de promoção da Igualdade Racial (Seppir), com as contribuições de diferentes sujeitos do processo, como Undime, Consed, Unesco, Ministérios, intelectuais, movimentos sociais e organizações da sociedade civil.
Esse Plano resulta da mobilização e esforços dessas muitas instituições e parte do entendimento que a Lei 10.639, de 9 de janeiro de 2003, é um marco histórico. Ela simboliza, simultaneamente, um ponto de chegada das lutas antirracistas no Brasil e um ponto de partida para a renovação da qualidade da educação brasileira (SEPPIR, 2009: p. 4).
Desse documento depreende-se o papel indutor do MEC da política de implantação dos conteúdos da lei, no sentido de orientar os sistemas de ensino e as instituições dedicadas à educação para que incorporem a diversidade étnico-racial nas práticas escolares.
O Plano tem como base estruturante, seis eixos estratégicos extraídos do documento “Contribuições para a implementação da Lei 10.639/03”, a saber: i) fortalecimento do marco legal; ii) política de formação para gestores e profissionais de educação; iii) política de
formação material didático e paradidático; iv) gestão democrática e mecanismos de participação social; v) avaliação e monitoramento e vi) condições institucionais.
O eixo i) fortalecimento do marco legal visa a institucionalizar a temática via institucionalização da Lei 10.639/03 e 11.645/06 no âmbito dos estados, municípios e Distrito Federal e a inclusão da temática no PNE e PDE.
Os eixos ii) política de formação para gestores e profissionais de educação, e, iii) política de formação material didático e paradidático, constituem as principais ações operacionais do Plano, pois exigem uma revisão da política curricular articulada e define o protagonismo do MEC na indução da implementação das referidas leis, por meio de uma Política Nacional de Formação Inicial e Continuada de Profissionais da Educação.
O eixo iv) gestão democrática e mecanismos de participação social demonstra o esforço a ser empreendido pela União, por meio do MEC, para coordenar o processo de desenvolvimento da política nacional de educação, articulando os diferentes sistemas de ensino e exercendo função normativa, redistributiva e supletiva, em relação às demais instâncias educacionais (cf. Art. 8º da LDBEN).
O eixo v) avaliação e monitoramento aponta para a construção de indicadores que permitam o monitoramento da implementação do Artigo 26-A no que diz respeito a Lei 10.639/2003. E, o vi) condições institucionais, indica os mecanismos financeiros e rubricas orçamentárias para que a Lei seja implementada. Reafirma a necessidade de criação de setores específicos para a temática étnico-racial e diversidade nas secretarias estaduais e municipais de educação (SEPPIR, 25-26).
Com base nesses indicadores, um estudo detalhado do material permitiria traçar um panorama geral das ações da Secad em todos os níveis de ensino e seus principais parceiros. Todavia, sendo objeto deste estudo a implantação do artigo 26-A na Educação Básica, priorizou-se a articulação entre Secad, Undime, SEB e o movimento negro.
Dentre as metas norteadoras para a Educação Básica constantes no Plano Nacional (SEPPIR, 2009) notam-se, em meio a várias ações e parcerias, propostas para serem executadas de 2009 a 2015 e o esforço da Secad para atuar junto às diferentes secretarias do MEC, SESu, Seed, Setec, especialmente com as SEE e SME, Undime, Consed e Unesco, Conselhos de Educação e Fóruns de Educação e Diversidade Etnico-racial. Entretanto, o diálogo com a SEB não foi contemplado. Constam apenas duas ações que agregam SEB e Secad, uma no eixo (ii) e uma no eixo (iii), ambas para serem executadas em curto prazo (2009-2010). São elas:
• incluir as DCNs para a educação das relações e ensino de Historia e Cultura africana e afro-brasileira e os conteúdos propostos na Lei 11.645/08 nos programas de formação de funcionários, gestores e outros (programas de formação de conselheiros, de fortalecimento dos conselhos escolares e de formação de gestores);
• reforçar junto às comissões avaliadoras e analistas dos programas do livro didático a inclusão dos conteúdos referentes à Educação das Relações e à história da cultura afro- brasileira e africana nas obras a serem avaliadas.
Nota-se nessas metas, a preocupação com a formação dos profissionais, gestores e consultores sobre os conteúdos da educação das relações étnico-raciais e a cultura afro- brasileira e africana. Mas, a identificação de apenas duas metas que contemplam a parceria SEB e Secad, num montante de quarenta e nove propostas, corrobora a invisibilidade da questão racial constatada nas ações da SEB, de 2004 a 2008, e com a dificuldade de inserir a temática nas ações da SEB denunciada pela Secad no Relatório de Gestão 2005.
A discussão sobre a implantação da Lei 10.639 não tem sido uma pauta nas discussões da SEB, conforme análise dos Relatórios de Gestão 2004 a 2007; e o quadro traçado pela Undime demonstra que a discussão sobre diversidade nas políticas educacionais ocorre se pressionada por agentes externos, movimentos sociais, pela sociedade civil organizada, organizações não-governamentais ou pela Secad. Também a análise mais aprofundada do Quadro de Metas, 2009 - 2015 desvelam outras propostas que exigiriam o diálogo entre Secad e SEB.
Duas Metas no eixo i servem de exemplo: divulgar amplamente as DCNs e seu significado para a garantia do direito à educação de qualidade e para o combate ao racismo; e atualizar e inserir nos manuais, diretrizes e demais documentos norteadores dos currículos da educação básica e superior as alterações necessárias para o ensino das DCNs. Em ambas, menciona-se o MEC como parceiro, sem determinar as secretarias responsáveis, e em tempos de fragmentação, definir responsabilidades torna-se essencial.
Indaga-se porque na meta referente ao eixo ii) políticas de formação de gestores e profissionais de educação, voltada para “ promover formação para os quadros funcionais do
sistema educacional de forma sistêmica e regular mobilizando de forma colaborativa atores como os Fóruns de Educação, IES, NEABs, Secad/MEC, sociedade civil, movimento negro, entre outros que possuam conhecimento da temática”, está direcionada apenas às SEEs e SMEs e não inclui a SEB.
Os exemplos parecem demonstrar que, se as temáticas da diversidade não estão imbricadas no bojo das discussões sobre qualidade da educação no âmbito da SEB, orientada
para financiamento (Fundeb, salário educação, piso salarial), mecanismos de controle e avaliação da qualidade da educação por meio de instrumentos como Prova Brasil, Provinha Brasil, Enem, Ideb e outros temas de cunho universalista, e, de sua parte, a Secad parece tê-la descartado como uma parceira em potencial.
A análise documental desvelou uma indisposição ao trabalho conjunto entre as duas Secretarias, com isto, prejudica-se o sucesso da implantação da política nacional antirracismo; pois, o peso dos conflitos raciais nas ações cotidianas, influencia nos índices de permanência, evasão e aprendizagem significativa e deve perpassar toda política sobre qualidade da educação.
Os dados estatísticos além de demonstrar que a escola pública precisa melhorar, estão intrinsecamente conectados à percepção de que há uma cultura negra, que se configura numa teia com muitos nós, muitos deles forjados na omissão e no silenciamento que camufla a cultura do racismo. E, precisa coragem para ser enfrentada (SAUER, 2003). Esses indícios advertem, concretamente, que os princípios da Secad e da SEB precisam estar atrelados.
A análise das metas constantes no Plano Nacional comparado ao diagnóstico da SEB desvelou a ausência de ações articuladas para a implantação do artigo 26-A. Demonstrou ainda, que ambas, SEB e Secad, têm privilegiado o diálogo com Secretarias Municipais e Estaduais, mas não entre si. Há de indagar os impactos desta fragmentação percebida no âmbito federal, nos municípios; e no projeto governamental, que tem uma proposta de educação sistêmica, que envolva todos os níveis e modalidades de ensino, e se transforme numa política de Estado. Então, há de se considerar os impactos dessa falta de comunicação entre a SEB e a Secad, para o sucesso da articulação entre os diferentes sistemas de ensino e a implantação do artigo 26-A.
Os municípios estão às voltas em atender a várias exigências vindas da SEB, como a elaboração dos Planos Municipais de Educação/PME e do Plano de Ação Articuladas/PAR, e da Secad, com programas e projetos que contemplem as temáticas da diversidade tais como educação quilombola, educação de jovens e adultos, educação indígena, educação que considere gênero e orientação sexual, educação ambiental e educação das relações étnico- raciais. No conjunto, são muitas demandas e pouca articulação.
A Secad propôs a SEB algumas atividades tentando inserir a temática racial nos programas e ações em andamento no âmbito do MEC e dos diferentes ministérios, conforme sistematizadas abaixo.
Quadro 6.
Propostas de Aderência às Ações da Secad à SEB - 2008
Programa/projeto/ação Proposta de aderência/secad
Proconselho – Programa de Capacitação de Conselheiros Municipais de Educação
Inserir nas oficinas de capacitação de Conselheiros a temática étnico-racial, segundo Resolução 01/2004 CNE Programa Nacional Escola de Gestores da Educação
Básica
Inserir a temática na formação do Gestor Educacional Pró-Letramento - Mobilização pela Qualidade da
Educação
Inserir a temática do enfrentamento ao racismo no programa. Inserir a temática na formação do professor, segundo o nível em que atuará.
Prolicenciatura- Programa de formação inicial, parceria das Secretarias de Educação Básica
Inserir no programa a cobrança da disciplina a obrigatória: História e Cultura da África e dos Afro-brasileiros em todas as licenciaturas acompanhando o Parecer 03/2004 e Resolução 01 do CNE.
Proinfantil - Curso em nível médio, a distância, Normal. para professores da educação infantil em creches e pré-escolas públicas
Inserir a temática do enfrentamento ao racismo no programa. Inserir a temática na formação do professor, segundo o nível em que atuará.
Programa Ética e Cidadania - Fóruns Escolares de Ética e de Cidadania
Inserir a temática étnico-racial nas ações do Programa. Projeto Saúde e Prevenção nas Escolas - parceria
MS, MEC, UNICEF e Unesco. Articula governo e sociedade para as ações de saúde e educação.
Inserir a abordagens das doenças que acometem principalmente a população negra: Hipertensão e Anemia Falciforme.
Profuncionário - Curso de educação a distância, médio, para trabalhadores da educação em funções administrativas
Inserir a temática étnicorracial como fator de prevenção ao racismo institucional e no relacionamento profissional/aluno.
Programa Nacional do Livro Didático para o Ensino Médio – PNLEM
Estabelecer condições de análise dos livros propostos a partir do conhecimento das abordagens da política de enfrentamento ao racismo, a resolução 01/2004 e a LDB/10639-03
O Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) Estabelecer condições de análise dos livros propostos a partir do conhecimento das abordagens da política de enfrentamento ao racismo, a resolução 01/2004 e a LDB/10639-03
Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), Aumentar a cota de materiais promotores do ensino das relações etnicorraciais a ser distribuída e incluir a valorização da auto-estima e da identidade da população negra.
Programa de Fortalecimento do Semi-árido brasileiro (Proforte)
O UNICEF/Brasília está com um projeto chamado Município Aprovado visando ajudar a implementar a Lei 10639/03 nos municípios daquela região.
Fonte: Secad/MEC, Relatório de Atividades 2003-2008, 2008
Mesmo que o Quadro de Propostas de Aderência às Ações demonstre o esforço da Secad para estar presente nas ações da SEB, a leitura dos Relatórios da SEB, do encaminhamento da Undime e das metas estabelecidas no Plano Nacional, acrescido das análises das posturas dos diferentes gestores, denunciam que o encaminhamento da política não está tão encadeado como aparece nos documentos oficiais. Nesse sentido, a complexidade
cultural e política que permeia as políticas educacionais se tornam prementes. Trata-se de um campo de tensões e jogos de interesses nem sempre explicitados, que induzem a outra questão:
Questão: Se todas as Secretarias, Secad, SEB, SEE e a SME precisam ser parceiras na tarefa de implementar o artigo 26-A da LDBEN, o que impede que a parceria se estabeleça?
O estudo dos Relatórios e ações da Secad objetivou elucidar esta questão. Compete à Coordenação-Geral de Diversidade e Inclusão Educacional/CGDI - Secad, propor, estimular e apoiar instituições para que realizem a capacitação sobre a temática étnico-racial.
Consta no “Relatório de Progresso do Programa Diversidade na Universidade” (SECAD, 2005) um intenso movimento de mapeamento, monitoramento para a implantação da Lei 10.639/03, além de várias tentativas de parcerias com diferentes instituições governamentais e não-governamentais.
Em relação a parceria SEB e Secad menciona-se dois programas, Pró-Letramento - Mobilização pela Qualidade da Educação e Prolicenciatura- Programa de formação inicial. Relata-se também a ausência da temática étnico-racial nos diferentes programas da SEB, daí as tentativas de aderi-la à política de combate ao racismo.
Consta do referido Relatório (2005) a tentativa de parceria para a construção das Orientações Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (OCNEM) encampada pela Secad e proposta à Diretoria de Políticas de Ensino Médio da SEB/MEC, fornecendo subsídios para inclusão da temática étnico-racial nas orientações curriculares para a educação infantil e para as orientações curriculares para o ensino médio.
Para o encaminhamento dessa proposta, a CGDI/Secad propôs integrar o grupo de trabalho para a revisão dos Parâmetros Curriculares para o Ensino Fundamental e Educação Infantil; entretanto, segundo consta, literalmente, no Relatório “essas propostas de parceria nem sempre eram bem recebidas no MEC”.
Talvez em face dessa resistência da SEB, no “Relatório de Progresso do Programa Diversidade na Universidade” (SECAD, 2006), não haja referência explicita à SEB.
O contato estabelecido no ano de 2005, para a parceria no “Projeto Inovador de Fortalecimento de Negros e Negras no Ensino Médio”, com a finalidade de fortalecer experiências voltadas para o diagnóstico e a superação da situação de desigualdade racial e social vividas por estudantes negros(as) do Ensino Médio, resultou em convênios com quatro secretarias estaduais de educação, com o acompanhamento da CGDIE, mas a SEB não foi citada para intermediar ou compor a agenda. O mesmo se deu com o “Projeto de Capacitação
de Professores de Ensino Médio em Município de Comunidades Remanescentes de Quilombos”, com a finalidade de capacitar professores do Ensino Médio para a valorização e a afirmação da cultura e dos valores no sistema de ensino; o diálogo se estabeleceu com as secretarias estaduais, mas não com a SEB.
Apesar das tentativas frustradas de diálogo entre SEB e Secad, outras parcerias se estabeleceram (Secad/MEC, 2005) com a Undime e a Consed, além da formação de uma Comissão Assessora de Diversidade para Assuntos Relacionados aos Afro- descendentes/Cadara.
A Cadara solicitou informações sobre as ações do Consed e da Undime para a implantação da Lei, articulou-se com a Fundação Roberto Marinho, que resultou no projeto “A Cor da Cultura” e com a ONG Ágere, com a qual, realizou cursos de ensino à distância sobre “História e Cultura Africana”, reuniões para articulação com o Consed e Undime, e com o Secretário da Secretaria de Educação Básica/SEB, visando a parceria e o comprometimento com a implementação de ações para a diversidade étnico-racial (Secad/MEC, 2005).
Os impedimentos detectados para a implantação do artigo 26-A junto à SEB e outras organizações desvelaram-se no registro das tentativas de institucionalização da temática étnico-racial empreendidas pela Secad. Diferentes facetas da cultura do racismo, se configuram no racismo institucional, conforme consta no trecho abaixo do “Relatório de Progresso do Programa Diversidade na Universidade”:
As atividades desenvolvidas nesse Componente [Fortalecimento Institucional] atingiu o seu objetivo de fortalecimento da temática da diversidade étnico-racial, tanto internamente como externamente. Persiste a necessidade de fortalecer ainda esta temática, visto que a temática é de difícil aceitação pelos gestores internos do MEC. Fato que se nota inclusive no sistema de ensino em nível estadual e municipal (Secad/MEC, 2005).
No ano seguinte, o racismo institucional persiste registrado no segundo Relatório enviado ao Banco Interamericano de Desenvolvimento/BID, nele fazem parte as dificuldades de renovar contrato, agora com a Unesco, além da descontinuidade da política:
A mudança dos representantes da Unesco, desde a saída de Jorge Whertein, exigiu uma revisão de todos os acordos estabelecidos. Nesse semestre, devido à recusa da Unesco em estabelecer os contratos com as 5 secretarias estaduais de educação selecionadas para a execução do projeto inovador de fortalecimento de negros e negras no ensino médio, houve a necessidade de redirecionarmos o projeto para convênio direto com as secretarias via MEC. A Unesco, embora tivesse sinalizado durante todo o processo a legitimidade na seleção das secretarias, ao final apresentou obstáculo e rejeitou efetivar os contratos (MEC/Secad, 2006: p.3).
Outras informações demonstram as dificuldades que a equipe da Secad encontrou para viabilizar as ações afirmativas propostas:
Outra dificuldade decorreu do processo de acompanhamento e avaliação dos PICs. O obstáculo refere-se à ausência no mercado de profissionais especializados em avaliação de políticas de ação afirmativa. Este dado retarda o processo de monitoramento porque a equipe dos PICs precisa intervir sistematicamente no processo para correção de desvios e afinamento dos discursos (MEC/Secad, 2006: p.3)
Nota-se que a não aceitação da temática racial persiste não só no interior da SEB, mas se estende à Unesco e aos consultores contratados para acompanhar e avaliar a política, ratificando que os impedimentos estão intrinsecamente imbricados às visões de mundo e convicções dos gestores. Como desdobramento, percebe-se resistências que, se em algumas situações poderiam ser percebidas como de natureza particular, individual, tomam uma feição coletiva e tornam-se institucionalizadas. Indivíduos que ocupam a função de gestores e que tem, em algum momento, a incumbência de propor políticas de ações afirmativas ou mesmo viabilizá-las, a partir da aderência de propostas feitas pela Secad; mas se negam a fazê-lo, obstaculizam a implantação da lei e materializam suas visões de mundo, e a cultura do racismo.
Outros dados, além da dificuldade de diálogo interinstitucional entre a SEB e a Secad, demonstram a descontinuidade da política. A relação de livros e materiais publicados pela Secad, uma das principais demandas dos municípios - materiais específicos sobre a temática racial, compõe esse debate.
A publicação ou apoio de materiais para divulgação da temática étnico-racial, entre 2005 e 2008, chegou a 23 títulos, somando uma tiragem de 1.223.900 exemplares. Desse montante, a CGDI teve seu apogeu na gestão de 2005 e 2006, perfazendo 1.191.400 exemplares Não há publicações em 2007 e, no ano de 2008, apenas 25.000 exemplares foram publicados.
Uma explicação possível para a ausência de registros de ações na Secad e SEB, e nos documentos da Undime (2004-2007), emerge no contexto da fala da gestora da Dcoceb que define bem a situação: “a temática racial não tem um tratamento diferenciado dentro do conjunto de políticas pensadas para a Educação Básica”.
A Secad concentra as ações mais direcionadas para a implementação da Lei 10.639/03 e a Undime alçou uma centralidade, talvez, não esperada, principalmente com o direcionamento dado pelo MEC, na figura do Ministro Fernando Haddad, de consolidar o pacto federativo e a gestão em regime de colaboração, com os municípios. Teoricamente, a
perspectiva de educação sistêmica articula todos os níveis e modalidades de ensino, no que tange à inserção da temática étnico-racial ela se insere num conjunto vasto de propostas para a educação e diversidade. Mas, concorre por todos os lados, com outras demandas nucleares