• Sonuç bulunamadı

1. BÖLÜM

5.1. Tartışma-Sonuç

Rui de Oliveira, no livro Pelos Jardins Boboli, alerta o leitor para o fato de que

não podemos esquecer que a imagem literária se autojustifica, ou seja, não precisa necessariamente de qualquer imagem-visual ou de recursos além de seu silêncio. Em muitos momentos do texto, a palavra possui um universo abstrato que deve ser preservado. Nem tudo pertence ao universo da ilustração. (2008, p.33)

Portanto, como tratar das ilustrações em graphic novels baseadas em obras literárias? Conforme verificou-se, ao longo desta análise, as três versões do conto “A Cartomante” (em graphic novel), apresentam soluções distintas. Notamos que C1 não suprime o texto de Machado de Assis, com exceção dos verbos dicendi. Verificamos que a principal função dada ao texto visual é a de simplesmente ilustrar o texto verbal. Ao longo da narrativa, percebemos que o texto imagético, muitas vezes, ilustra as metáforas e presentes no texto literário (fig.65,66 e 67).

Figura 65 - Camilo e Rita no carro de Apolo (C1)

Figura 66 - O sorriso amarelo de Camilo (C1)

Figura 67 - Unhas de ferro (C1)

Ao ilustrar de forma explicativa uma metáfora, todo o trabalho de seleção vocabular da linguagem literária utilizada por Machado de Assis é apagado. Essa estratégia imagética pode justificar-se pelo caráter pedagógico de C1. Porém, a tentativa de explicar em excesso o texto de um autor que tem como principal característica fazer com que o leitor “leia nas entrelinhas” faz com que a graphic novel perca traços do estilo literário da obra de Machado de Assis.

Assim como a explicação excessiva de metáforas e expressões através do texto visual, C1 faz uso de quadros descritivos, que, aliados ao texto visual, tornam-se redundantes e desfavorecem as relações entre eles (fig.68 e 69).

Figura 68 - Camilo e Rita sobre ervas e

pedregulhos (C1) Figura 69 - Camilo olha o relógio (C1)

Fonte: ASSIS, 2006a, p.16. Fonte: ASSIS, 2006a, p.20.

Tomemos também como exemplo o trecho do texto machadiano que descreve a escada que dá acesso à casa da cartomante “a luz era pouca, degraus comidos dos pés, o corrimão pegajoso” (ASSIS, 2008a, p. 451).

A imagem descritiva nada acrescenta visualmente ao que é dito, perdendo a oportunidade de riqueza de diálogo entre o que é dito no texto verbal e no texto visual, conforme demonstrado na vinheta (fig.70):

Figura 70 - Escada da casa da cartomante (C1)

Fonte: ASSIS, 2006a, p. 29.

O discurso de Machado de Assis é marcado por uma escrita sugestiva, composta por sutilezas e ambiguidades que sugerem diferentes níveis de leitura de seus textos. Para que a publicação seja fiel ao original, ela deve manter as características da linguagem machadiana. Dessa forma, de nada adianta manter o texto literário integralmente e explicitar, com as ilustrações, todas as ambiguidades presentes na obra. Destacamos que há, em C1, um propósito educacional e esta pode ser a razão pela qual faça uso excessivo de explicações visuais. Porém, ao pedagogizar o texto machadiano, a

graphic novel perde características da linguagem dos quadrinhos, pois faz demasiado

uso de trechos descritivos e não promove a interação entre os textos verbais e visuais. Da mesma forma, não há adequação à linguagem literária, pois o texto de Machado de Assis é descaracterizado através da evidenciação das ambiguidades presentes no texto do autor.

Embora a explicação em excesso tenha feito com que a graphic novel perdesse características específicas das linguagens quadrinizada e literária, devemos compreender o propósito editorial de cada publicação. C1 é, evidentemente, uma obra voltada para o público escolar e, possivelmente, tem o objetivo de introduzir o texto de Machado de Assis entre os estudantes, já que há, ao final da publicação, atividades de

compreensão textual, assim como um breve texto, que apresenta “um pouco da vida de Machado de Assis” (p. 43). A pedagogização da obra pretende, através do texto visual, facilitar a leitura e compreensão do texto machadiano. Soares (2006) discute a forma como a literatura vem sendo escolarizada. A autora mostra que não há problemas em escolarizar a literatura, porém, o que deve ser modificado é a forma como esse processo tem se dado. Para Soares,

O que se pode criticar, o que se deve negar não é (grifo da autora) a escolarização da literatura, mas a inadequada, a errônea, a imprópria escolarização da literatura, que se traduz em sua deturpação, falsificação, distorção, como resultado de uma pedagogização ou uma didatização mal compreendidas que, ao transformar o literário em escolar, desfigura-o, desvirtua-o, falseia-o. (2006, p.22)

Surgem, portanto, os questionamentos: haveria a necessidade de explicitar visualmente as ambiguidades do texto machadiano? Não seriam os alunos capazes de interpretar o texto literário? Se o objetivo da obra é o de introduzir o texto de Machado de Assis aos alunos, o que seria o resultado da leitura da graphic novel, já que deturpa o texto literário? Estariam os alunos lendo realmente Machado de Assis?

Embora Soares (2006) trate da transposição do texto literário para o livro didático, podemos também compreender o que a autora diz ao pensarmos na transposição da linguagem literária para a linguagem dos quadrinhos.

Ao ser transportado do livro de literatura infantil para o livro didático, o texto tem de sofrer, inevitavelmente, transformações, já que passa de um suporte para outro: ler diretamente no livro de literatura infantil é relacionar-se com um objeto-livro-de-literatura completamente diferente do objeto-livro-didático: são livros com finalidades diferentes, aspecto material diferente, diagramação e ilustrações diferentes, protocolos de leituras diferentes. Se a necessidade de escolarizar torna essas transformações inevitáveis, é, porém, necessário que sejam respeitadas as características essenciais da obra literária, que não sejam alterados aqueles aspectos que constituem a literariedade do texto. (2006, p. 37)

O caráter pedagógico, evidente em C1, faz com que a publicação se aproxime do conceito de adaptação, com a linguagem muitas vezes modificada e até simplificada se comparada à linguagem da obra original.

Diferentemente de C1, C2 mantêm trechos literários, mas preserva o que Rui de Oliveira chama de “universo abstrato” da linguagem literária. Walter Benjamin

classifica o “universo abstrato” como aquilo que não pode ser traduzido em uma obra. O autor considera o “intraduzível” como o núcleo essencial da linguagem literária, ou seja, no caso da narrativa machadiana, o intraduzível constitui-se pela polissemia e sutilezas do discurso do autor. Conforme ilustrado nas vinhetas que narram o envolvimento entre Camilo e Rita, o texto visual acompanha as sugestões de Machado de Assis. Em uma leitura despretensiosa, podemos dizer que C1 é a publicação que mais se aproxima da obra de Machado de Assis. Porém, ao fazermos uma análise meticulosa das HQs, podemos chegar à conclusão de que C2 se assemelha mais ao discurso do autor. Os trechos descritivos, como o cenário da casa da cartomante, são completamente transpostos para a linguagem visual, não necessitando, assim, das descrições verbais (fig.71).

Figura 71 - A casa da cartomante (C2)

Fonte: ASSIS, 2008c, p. 57.

Em C2 e em C3, a narrativa visual permite que o ilustrador, através da supressão de trechos literários, evidencie a dimensão estética do seu trabalho, fazendo com que as publicações se aproximem do que Haroldo de Campos chama de recriação.

Para o autor, sempre que a tradução do intraduzível tem como produto final um trabalho artístico, este pode ser chamado de recriação. Traduzir o intraduzível presente nas obras literárias, para Haroldo de Campos, significa “ser fiel ao ‘espírito’, ao ‘clima’ particular da peça traduzida.” (CAMPOS, 1992, p.37)

Assim, as publicações C2 e C3 mantiveram as sutilezas presentes no texto machadiano e, ao transpor a linguagem literária para a linguagem das graphic novels, criaram narrativas marcadas pelo trabalho estético.