Inicia-se com uma fala direta de Bakhtin (1979-2011, p. 320, grifo nosso): “dois enunciados alheios confrontados, que não se conhecem e toquem levemente o mesmo tema (ideia), entram inevitavelmente em relações dialógicas entre si. Eles tocam no território do tema comum, do pensamento comum”. É impossível a existência de qualquer interação verbal (presencial ou on-line) sem um pensamento comum. Uma das condições de existência de relações dialógicas é uma pré-compreensão comum entre distintas consciências, como observaram Bakhtin e Habermas. Bakhtin (1929-2010) chamou o lugar
134 Considera-se essa expressão como a produção enunciativa (ato de fala) de cada indivíduo/sujeito social,
apesar dela poder ser considerada uma contradictio in adjecto (contradição em termos), como observara Bakhtin (1929-2010, p. 132).
do pensamento comum de “situação social dada”. Habermas (1981-2012, v.1) chamou-o “contexto de ação do ator social”. As duas designações são resumidas, aqui, como contextos.
No capítulo anterior, múltiplos contextos dão pistas de como uma cultura política se forma, e nela, como são construídos modos de negociação para sujeitos enunciadores produzir uma enunciação objetiva (ou não) e empregar uma racionalidade no processo de participação e deliberação, envolvendo questões de interesse geral, em dada sociedade.
Os contextos histórico-políticos – as distintas “matrizes espaçotemporais” – expostos anteriormente, explicam o desenvolvimento de determinado padrão de democracia que vislumbra, através da interlocução entre governo e cidadãos, vários protagonistas com poder de influenciar, propor e/ou decidir sobre a orientação política de projetos e ações governamentais que visem melhoria social. O contexto particular do Rio Grande do Sul, com o desenvolvimento de uma cultura política própria – ora com ênfase comunitarista, ora com ênfase liberal, ora com ênfase participativa –, pode explicar o hábito (BOURDIEU, 2004) de participação popular no estado, através da experiência acumulada de coordenar ações individuais para alcançar um acordo comum entre os atores do processo político, passando por confrontos e/ou acordos. Dentro desse contexto particular, o processo de redemocratização e suas experiências de inserção da participação popular nas decisões governamentais trouxeram a explicação sobre as construções de sistemas complexos e contemporâneos de prática consultiva135 e/ou deliberativa a respeito
de políticas públicas, projetos governamentais, orçamento público, obras e serviços públicos – os casos dos COREDES e COMUDES, do Orçamento Participativo e da Consulta Popular – destarte o desenvolvimento dessa prática de forma complementar, às vezes combinada, pelos modos presencial e on-line. Tais experiências ajudam a compreender como governo (ou seus agentes) e cidadãos gaúchos chegaram ao ponto de produzir várias formas de diálogo e negociação sobre suas questões coletivas, assim como o movimento de avanço e retrocesso nesse sentido. Entretanto, no momento em que tal desenvolvimento democrático torna-se mais explícito, muitas questões surgem.
135 Consultar é ouvir o outro. Para Bakhtin (1979-2011, p. 334, “a audibilidade como tal já é uma relação
dialógica. A palavra quer ser ouvida, entendida, respondida e mais uma vez responder à resposta, e assim ad infinitum. Ela entra no diálogo, que não tem final semântico (mas que pode ser fisicamente interrompido ou por esse ou aquele participante). [...] O rompimento entre eles só acontece na palavra deliberadamente falsa, isto é, naquela que visa a enganar (o rompimento entre a intenção concreta e a intenção de audibilidade e inteligibilidade).
Os contextos organizam a forma ocasional das relações dialógicas entre enunciados individuais, impondo-lhes um tipo de ressonância como, por exemplo, “a exigência ou a solicitação, a afirmação de direitos ou a prece pedindo graça, um estilo rebuscado ou simples, a segurança ou a timidez, etc.” (BAKHTIN, 1929-2010, p. 118). Os vários contextos submetem os participantes em diálogo à tomada de consciência e a certas pressões sociais; eles determinam os ouvintes possíveis – formam seu “auditório social” – de um dado discurso, já que são responsáveis pela criação ideológica do grupo social e da época a qual pertencem.
Segundo Bakhtin (1929-2010, p. 118), “o grau de consciência, de clareza, de acabamento formal da atividade mental é diretamente proporcional ao seu grau de orientação social”. Ou seja, em tese, quanto mais submetido forem os sujeitos enunciadores de uma interação verbal on-line a uma orientação social, mais consciente e claro será seu raciocínio e, por conseguinte, seu discurso interno e a objetivação dele para outrem e, consequentemente, a materialização de relações objetivas. Sujeitos enunciadores que estão submetidos à mesma orientação social têm, para si, um território comum para compreensão de determinado tema, que dele brota. Isso possibilita a inter-relação entre o uso da linguagem, o entendimento entre os interlocutores e a força da interação verbal, no processo de coesão sociopolítico.
Conforme observa Habermas, coincidindo com a visão bakhtiniana, os contextos sociais e os contextos práticos específicos (campos de argumentação) são essenciais à ação comunicativa argumentativa/discursiva. Eles orientam e/ou determinam as falas dos interlocutores rumo à compreensibilidade (comum). Ser inteligível é pressuposto para concretizar pretensões de verdade, de correção normativa e de veracidade, próprias do uso racional da linguagem, em uma ação comunicativa, assim como aborda Habermas (1981- 2012, v.1). A ação racional pela linguagem exige inteligibilidade que, por sua vez, é determinada pelos contextos, ou seja, sem eles não se consegue uma pré-compreensão comum entre os interlocutores. O sentido do que é dito e entendido é dependente do contexto. Por outro lado, os contextos são constituídos pela ação comunicativa racional dos interlocutores que conseguem objetivar suas estruturas de pensamento. Dito de outra forma, “nosso acesso ao mundo já está sempre impregnado pela linguagem” (REESE- SCHÄTER, 2012, p. 29).
Os contextos histórico-políticos brasileiro e gaúcho e as experiências de institucionalização136 da participação popular no Rio Grande do Sul fornecem, a esses
atores em diálogo (governo e cidadãos gaúchos), conhecimentos comuns; podem criar hábitos e capacidades de organização coletiva e de articulação de espaços de interlocução – capacidade de discussão e de decidirem coletivamente; possibilitam a utilização desse arcabouço de informações acumuladas na própria enunciação, para disputar ou negociar, no campo simbólico, manutenção ou mudança de suas ideias ou opiniões, na síntese provisória de cada diálogo estabelecido, no seu tempo-espaço particular. Os “campos de argumentação”, como é o caso do campo político, orientam as pretensões de inteligibilidade, de verdade e de correção normativa, em seu interior, assim como a produção de sentido sobre algo e/ou alguém. Os sujeitos enunciadores, orientados por um campo de argumentação, ao falarem, enunciam também o sentido dado por esse campo e expõem o seu “lugar de fala”. As situações sociais imediatas, por sua vez, dão origem a determinado objeto/tema do diálogo on-line entre governo e cidadãos. Os temas são reflexos de uma dada realidade vivenciada e/ou percebida ao longo de uma época. Esse conjunto responde pelo estoque social de signos disponíveis, utilizados no diálogo, e por um signo social concreto do diálogo, construído e reconstruído por seus participantes. Entretanto, apesar do uso da linguagem atender a determinações históricos-sociais e institucionais, apesar da expressão verbal ser socialmente dirigida, “diante da linguagem, o sujeito é, ao mesmo tempo, livre e determinado; embora seja impensável algo fora da linguagem, temos possibilidades ilimitadas dentro dela” (ATAÍDE, 2011, p. 29).
4.2.2 Governo e cidadãos: sujeitos organizadores e determinadores da interação