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Os sujeitos da interação verbal on-line determinam o conteúdo, a forma e o estilo de seus enunciados; determinam como devem participar das relações dialógicas entre eles; coordenam suas ações comunicativas por meio de atos de entendimento. Alguém inicia o diálogo (interação verbal); aquele que é o primeiro enunciador. Ele retira do estoque social de signos, disponíveis nos múltiplos contextos sociais dos quais participa, o conteúdo e a

136 Fala-se no sentido da manutenção, de modo normativo e cognitivo, de um padrão de atividades, em um

dado número de unidades, que é assumido como legítimo, seja a partir de uma lei, de um costume ou do conhecimento (Cf. MEYER; BOLI; THOMAS apud MEDEIROS, 2004, p. 48).

forma de sua enunciação; ele constrói a primeira significação (provisória, é claro!) sobre um objeto/tema, considerando o “auditório social” que ele imagina; pressupõe compartilhar com ele (auditório social) compreensões comuns oriundas dos contextos que ambos conhecem e vivenciam. Ele também se orienta pelo “campo de argumentação” ao qual pertence. A partir deste campo, organiza a racionalidade de sua fala e enuncia, primeiramente, o sentido que o campo solicita. Ele constrói a primeira estratégia discursiva, utilizando procedimentos de discursivização e de textualização. O primeiro enunciador é quem começa a gerenciar a construção de nova significação (sentido e apreciação valorativa contextualizados).

O primeiro enunciador, no contexto estudado, é o governo, por meio do governador (autoridade instituída). O primeiro enunciador, só assim o é, quando outro enunciador o compreende e aceita sua oferta de fala. Isso quer dizer: há um horizonte social que os une, um contexto que possibilita uma compreensão responsiva ativa. Cada um deles opera o movimento do conteúdo interior (pensamento) à exteriorização objetiva (expressão do pensamento) para outrem. Nesse movimento, cada participante do diálogo muda a natureza do conteúdo interior e produz suas significações (provisórias) sobre certo tema. No fluxo discursivo, próprio da interação verbal on-line, um dado tema recebe tantas significações quantos forem as situações reais vividas ou percebidas por cada participante do diálogo. Pode-se perguntar: quem é este sujeito que se enuncia e enuncia algo? Quem são esses sujeitos enunciadores desenhados pela interação (verbal)?

É pelo enunciado, na condição de unidade da comunicação discursiva, que se nota a individualidade do sujeito enunciador, com sua posição semântica em relação ao seu objeto de discurso, com seu movimento sensível137 em direção ao seu interlocutor (ao

outro) e com suas convergências e divergências de sentido na relação com outro enunciado. Para Bakhtin (1979-2011, p. 329), “a relação com os enunciados dos outros não pode ser separada da relação com o objeto (porque sobre ele discutem, sobre ele concordam, nele as pessoas se tocam) nem de relação com o próprio falante. Trata-se de uma tríade viva”.

Bakhtin faz perceber que a “tríade viva do enunciado” é formulada no plano individual de enunciação. É ela que revela o plano de dizer de cada enunciador. Ao observar cada enunciado, descobre-se a relação dialógica entre: a) o enunciador e o objeto

137 Movimento que busca a subjetividade do outro, valorizando o que Bakhtin chamou de “vivenciamento

de seu discurso, b) o enunciador e o(s) enunciado(s) do(s) outro(s) e c) o objeto dos discursos e o(s) enunciado(s) do(s) outro(s), como se ilustra na Figura 13.

Figura 13 – Tríade viva do enunciado

Enunciado(s) do(s) outro(s)

Objeto Falante

Fonte: Bakhtin (1979-2011, p. 329), adaptada pela autora (2016)

Ao se visualizarem as relações dialógicas contidas em cada enunciado escrito e postado, identifica-se sua tríade viva, que expõe o sujeito que enuncia, com sua identidade e expressividade, sua posição semântica e apreciativa sobre o assunto (objeto do ato de fala); identifica-se o movimento sensível que ele faz para obter a atenção do seu interlocutor e a relação dialética de sentidos produzida após a resposta do interlocutor. Enxergar a “tríade viva do enunciado” é entender como cada enunciador coordena suas ações discursivas para interagir com o outro. A autoridade instituída do governo elabora seu plano de enunciação. Neste caso, ele é institucional. Cada cidadão elabora seu plano de enunciação. Neste caso, é individual. Em tese, cada enunciador preserva sua individualidade, mesmo que participe de uma enunciação coletiva.

4.2.2.1 O governo: dos pontos de vista administrativo, político e discursivo

Do ponto de vista administrativo, o governo decide e produz o lugar de enunciação: a plataforma digital de colaboração. Decide qual deve ser o “mecanismo legal de interlocução com a sociedade civil”: consulta pública digital. Decide a arquitetura e o procedimento da ferramenta criada para materializar essa interlocução: o “Governador Pergunta”. Do mesmo modo que decide a metodologia de coleta e análise das informações postadas pelos cidadãos. Neste sentido, governo é órgão que utiliza procedimentos técnico- materiais para efetivar um objetivo público.

Nesse cenário, considerando que a consulta pública pode ser facultativa ou obrigatória, por força de lei específica, sua estruturação e seu procedimento metodológico

fica, como se diz no campo jurídico, “a juízo da autoridade”. Nesse sentido, o processo, à luz das concepções política e jurídica, não parte de um comum acordo entre governo e cidadãos sobre o procedimento metodológico, apesar da instauração da consulta pública na Administração Pública Federal no Brasil, por força da Lei 9.784/1999, ser condicionada a requisitos como:

(i) o interesse público revelado pela matéria discutida no processo, (ii) a

motivação, através da qual se explica o fato e o direito que levaram o

administrador a instaurá-la (a exposição da existência, veracidade e coerência dos motivos) e (iii) a ausência de prejuízo para o interessado... (MELLO; MARQUES, 2012, p. 7, grifo nosso).

Os requisitos citados apenas orientam o processo administrativo, no âmbito da Administração Pública Federal, sobre o caráter do objeto de discussão da consulta pública, sobre a necessidade de explicar as razões de instaurá-la e sobre a proteção ao indivíduo que dela participa. Não há obrigação, para Administrações Públicas de estados e municípios, de seguir esta orientação.

Do ponto de vista político, neste caso, é pelo governo que começa a responsabilidade de: a) empoderar os cidadãos, aproveitando a forma produtiva da liberdade comunicativa138; b) alcançar o entendimento com os cidadãos sobre um assunto

de interesse geral (coletivo), isento de violência e de manipulações, por meio do fluxo de opiniões, contribuições e argumentações; e c) considerar a formação pública e racional da opinião e da vontade dos cidadãos, ao exercer seu poder administrativo (sanção, organização e execução), na gestão pública do Estado (HABERMAS, 1992-1997, v.1., p. 190-210). Neste sentido, governo é compreendido como “o conjunto de pessoas que exercem o poder político e que determinam a orientação política de uma determinada sociedade” (LEVI, 1997, v.1, p. 553).

Do ponto de vista discursivo, o governo é o primeiro enunciador que provoca efeitos de sentido em e resposta de outrem. Utiliza estratégia discursiva para instituir o discurso situado em dada relação “espaço/tempo139”. Utiliza estratégia discursiva para

realizar a primeira significação e, assim, gerenciar o contato do seu “auditório social”, com

138 No sentido habermasiano, é “a possibilidade – pressuposta no agir que se orienta pelo entendimento – de

tomar posição frente aos proferimentos de um oponente e às pretensões de validade aí levantadas, que dependem de um reconhecimento intersubjetivo” (HABERMAS, 1992-1997, v. 1, p. 155).

139 Nesse sentido, “o tempo aparece como elemento móvel, o que flui como devir, enquanto o espaço é o

o que foi postado (enunciado escrito), e o efeito de sentido daí produzido. Precisa-se pensar até que ponto, utilizando estratégia discursiva, com apoio textual, este sujeito concreto organiza sua própria participação na interação verbal on-line, que efetiva o diálogo (com os cidadãos).

4.2.2.2 Os cidadãos: respondentes do primeiro enunciado

Os cidadãos têm responsabilidades distintas. Sua respondibilidade pode ser vista pelas perspectivas política e discursiva. Do ponto de vista político, estes atores políticos utilizam a força produtiva da liberdade comunicativa que têm para expor uma situação social imediata vivenciada e sua vontade particular e, em regra, utilizam a função expressiva da linguagem como um traço de sua racionalidade, com o objetivo de influenciar a produção de decisão política.

Do ponto de vista discursivo, são responsáveis imediatos pelo fluxo de discurso, já que, sem a sua participação, ele não se constitui. Assim como o primeiro enunciador, utilizam estratégias discursivas e apoios textuais, após compreenderem e aceitarem a fala do outro (primeiro enunciador), para estabelecer relação com o objeto/tema do seu próprio enunciado e com sua produção de significação, tanto quanto para estabelecer relação com seu(s) interlocutor(es), gerenciando, através da construção discursiva, o contato dele(s) com seu ponto de vista, sobre o tema em pauta, e com a sua vivência. Os cidadãos buscam um entendimento com seus interlocutores (governo e outros cidadãos); buscam uma saída comum, quando possível. Portanto, eles atuam, tanto na perspectiva de uma comunicação racional, que produz objetivações sobre um objeto/tema de interesse geral, quanto numa perspectiva dialógica, que negocia e produz a totalidade do sentido sobre um objeto/tema que compartilham. Precisa-se pensar até que ponto, utilizando estratégia discursiva, este sujeito concreto (cidadão) organiza, também, sua participação na interação verbal on-line, visando, talvez, influenciar a produção de decisões políticas.

Governo e cidadãos, em uma interação verbal on-line, se quiserem, produzem juntos dois movimentos: um interno, a própria interação, e um externo, a objetivação de vontades que influencia e legitima a produção de decisões políticas em prol da própria população. Os dois movimentos podem ser percebidos pelo dialogismo entre enunciados individuais e pela racionalidade comunicativa que marcam a interação verbal on-line.

4.2.3 Dialogismo entre enunciados individuais: uma das marcas de interação verbal

Benzer Belgeler