4. BULGULAR VE TARTIŞMA
4.2. Tartışma
Neste módulo, iniciamos a comparação entre telejornais. Para tanto, foram exibidos, em sala de aula, parte da programação de dois telejornais locais, sendo um no formato que chamamos, neste trabalho, de popular, e outro que chamamos de formal.
Serviram de exemplos de telejornais populares os programas “A Patrulha da Cidade”, veiculado pela TV Borborema, em Campina Grande, e “Correio Verdade”, veiculado pela Rede Record, com abrangência estadual. Como exemplo de jornal formal, usamos o JPB, veiculado pela emissora TV Paraíba, também com alcance estadual.
A escolha por esses programas se deu em virtude das preferências dos alunos, que apontaram os programas mais assistidos por eles. Pensamos, portanto, na perspectiva de que o trabalho com projetos deve partir desse apreço para atraí-los à participação e à execução das demais etapas.
Concordamos, então, com Cortella (2014), quando afirma que é importante saber quais os campos de interesse dos estudantes para, a partir daí, promover situações de aprendizagem que visem ao conhecimento, pelo encantamento.
Neste trabalho, vamos também ao encontro de Carneiro (2000), que defende o uso pedagógico da televisão como objeto de estudo, pensando na educação com/para/pelas mídias. Sendo assim, buscando atender os objetivos deste módulo, tomamos como norte os mesmos critérios de análise seguidos pelos alunos em suas observações em casa, a saber:
i) O espaço dedicado às notícias consideradas positivas e às consideradas negativas;
ii) A ordem em que os fatos são noticiados, considerando esse teor de positividade e de negatividade;
iii) A linguagem utilizada, observando a variação quanto à formalidade; iv) O público a quem o telejornal se dirige;
v) A presença ou ausência da opinião imbricada à exposição dos fatos noticiados. Definidos os critérios, foram levados à sala de aula trechos de três telejornais, sendo os já citados em módulos anteriores desta seção “A Patrulha da Cidade”, “Correio Verdade” e “JPB”. Junto com os alunos, a professora foi tratando de cada critério, comparativamente, em cada perfil.
Sobre o primeiro critério – espaço dedicado a cada tipo de notícia – os alunos concluíram que há certa preferência pela divulgação de fatos ruins, principalmente nos telejornais populares, até porque eles se propõem a integrar a especialidade do jornalismo
policial. No entanto, os alunos perceberam que há uma supervalorização da desgraça, chegando um deles a fazer a seguinte afirmação, referindo-se aos de perfil popular: “Quanto mais notícia ruim para eles melhor, mais drama eles podem fazer e mais a gente assiste. É engraçado demais”.
Em se tratando da ordem de organização das notícias a serem divulgadas, os alunos demonstraram estar diante de uma novidade. Somente depois de observado em sala, e rememorando os que haviam assistido em casa para cumprimento da etapa anterior, é que eles perceberam um padrão nessa ordem: geralmente se inicia com as notícias mais graves e encerra com as de conteúdo mais leves.
Os estudantes inferiram, portanto, que se trata de uma estratégia para “laçar” o receptor que é atraído por esse tipo de notícia, e, ao fim do jornal, fica menos incomodado com a realidade que o cerca.
No que se refere à linguagem, os alunos apontaram as evidentes diferenças entre os dois perfis de programas, afirmando que os populares são, claramente, mais descontraídos e coloquiais. Nas palavras de um aluno “são mais diretos, sem enrolação, parecem com a gente falando”. Em relação ao jornal formal, os estudantes conseguiram perceber que também há informalidade, contudo, parece ser mais monitorada e, por isso, artificial.
Tal coloquialidade varia pelo tom de voz, pelas escolhas lexicais, pela expressão corporal, que se complementam e apontam para um público específico para quem são pensadas a produção e a veiculação.
Assim, adentramos no critério do público-alvo de cada telejornal. Nesse aspecto, os alunos também se mostraram surpresos quanto à relação entre a linguagem e o público a que o jornal pretende atingir.
Até então, eles não tinham essa ideia assimilada, e somente depois de refletir sobre o perfil de telespectador é que concluíram o porquê da opção por determinada linguagem, bem como a importância dessa linguagem como estratégia de conquista da audiência.
Vale salientar que muitos alunos se reconheceram nesse critério e, se percebendo como pertencente a uma classe social menos favorecida, pareciam ter encontrado um motivo que justificava a sua preferência e a de seus familiares pelo referido perfil de telejornal.
O trecho a seguir ilustra essa identificação: “É mesmo, professora! O pessoal mais pobre é que gosta desses programas mesmo. Eu adoro, porque parece que ele conhece a gente e diz tudo o que a gente está pensando”.
A partir de interferências feitas pelos alunos, como a acima citada, iam sendo discutidos os interesses do emissor em promover tal identificação na busca pela audiência.
Percebemos, então, que houve, nessa atividade, o amadurecimento dos estudantes, enquanto receptores de mensagens televisivas.
No que diz respeito à presença ou à ausência da opinião, cabe relatar que os alunos, claramente, conseguiram perceber que o ponto de vista do telejornal formal era apresentado de forma sutil, em algumas expressões inseridas nas chamadas, enquanto que no de perfil popular essa opinião é constante e se dá de maneira bem explícita.
Terminado este módulo, consideramos que se tratou de uma experiência exitosa, porque contou com boa participação dos alunos e interferiu na visão que antes tinham dos telejornais, corroborando a ideia de que é preciso incitar os alunos à reflexão da mídia televisiva para que possam melhor compreender as mensagens que não estão na superfície do verbal.