4. BULGULAR
4.4 TARLA Tesisi Soğutma Sistemleri
4.4.3 TARLA Tesisi helyum soğutma sisteminin çalıĢma prensibi
A procura por interação com outros sujeitos, longe de seu cotidiano – podendo ser também viajantes ou habitantes locais –, como visto, é uma das principais motivações de Benny para empreender suas jornadas. De maneira significativa, o apreço pelas possíveis associações em seus deslocamentos, o valor da “imanência da estrada”, aproximam sua disposição de fabricar um roteiro à de Ceci. Ambos, assim, não se importam em “desembarcar” em “portos” conhecidos, mas objetivam viver tais espaços de modo a distanciar-se de comportamentos ou visões prescritas por roteirizações de agências. Como relatei, conheci Benny em um percurso que tinha como destino Ilha Grande, no Rio de Janeiro, apenas uma das paradas que o economista pretendia fazer ao longo de alguns países que compunham a América do Sul. Sua viagem era dividida, segundo ele, visitações a lugares
urbanos e de natureza, mas seu objetivo geral – conhecer pessoas – era o mesmo nas duas ambiências.
Especificamente acerca da viagem sobre a qual mais conversamos, que duraria 06 meses de acordo com seus planos iniciais, ela começou na cidade do Rio de Janeiro, onde o inglês passou cerca de um mês. Depois, motivado pelo relato de outros viajantes, decidiu-se por visitar o litoral carioca, buscando, a partir daí, cruzar a divisa com a intenção de também conhecer a costa paulista. Foi nesse momento inicial de sua viagem, como pontuado, que nos conhecemos. Do litoral paulista, sempre no sentido de dar forma uma movimentação que cotejasse grandes e pequenas cidades, dirigiu-se à Florianópolis. Após algumas semanas na capital de Santa Catarina, efetuou um deslocamento rumo à cidade de Porto Alegre, onde passou um par de dias e tomou um ônibus para Montevidéu, no Uruguai. No referido país, ainda visitou as localidades de Punta del Leste e de Punta del Diablo, conhecidos destinos turísticos, porém frequentados por perfis diferentes de viajantes. Nas palavras de Benny,
Punta del Diablo foi uma “experiência única”, devido à calmaria e as conversas constantes
com os habitantes locais.
Terminado o tempo no Uruguai, o economista cruzou o Rio da Plata e desembarcou em Buenos Aires. Após duas semanas na capital argentina, as cidades de Rosário, Córdoba e Mendoza foram visitadas. Em Mendoza, especialmente, as vinícolas foram bastante mencionadas no discurso de Benny, um argumento que ressaltava a beleza do lugar e os passeios ciclísticos diários realizados por ele na companhia de outros viajantes. Depois disso, Benny rumou para Santiago, de onde também visitou as cidades de Valparaíso e
Viña del Mar. Passados alguns dias nesta última cidade litorânea, o destino apresentou-se
como sendo o sul do Chile: Puerto Varas e Puerto Montt, na Região dos Lagos, foram percorridas. Continuando sua trajetória, o destino seguinte do economista, após uma breve parada em Santiago, foi o norte do país, de onde cruzou a fronteira com o Peru para visitar Arequipa e Lima. De lima, Benny encaminhou-se para aquilo que – conforme suas palavras – foi uma das experiências inesquecíveis de sua viagem: a visitação de Cusco e, em especial,
Machu Picchu. Esta última localidade descrita pelo inglês a partir do emprego de adjetivos como “mágico”, “único” e “original”.
Figura 5 – Roteiro de Benny pela América do Sul
Fonte: Produção do autor no Google Maps.
Para além de reflexões acerca da posição de centralidade que os encontros ou associações com outros sujeitos ocupam nos empreendimentos de viagens, algo que já foi discutido nas considerações sobre as experiências de Ceci, a análise da composição do roteiro de Benny pode levantar questões acerca de um tema clássico na literatura dos estudos do turismo. Desde Boorstin (1992) e MacCannell (1999), por exemplo, a “autenticidade” é pontuada como um dos propulsores da atividade turística102. E, em certo sentido, não estaria
102 Ao analisar a moderna sociedade estadunidense, Boorstin (1992) aponta como seus elementos de estruturação
a superficialidade, a massificação e a mercantilização das experiências pessoais. Segundo o pensador, o progresso tecnológico e crescente domínio da natureza pelo homem foram responsáveis pela criação de expectativas que não podem ser cumpridas, um deslocamento, então, entre realidade e desejo operou-se. No
sentido de tentar satisfazer tais expectativas inatingíveis, contudo, “pseudoeventos” são criados e
mercantilizados, podendo ser entendidos como experiências fabricadas/encenadas para um consumo que não dirige-se mais ao que é do registro do “autêntico”. A “bolha ambiental” – onde o viajante é substituído pelo turista que busca, mesmo na distância de sua comunidade de origem, o comodismo, a segurança e a familiaridade – seria, portanto, uma expressão da superficialidade destacada, sendo o turismo moderno
conformado a partir dos citados “pseudoeventos”. Exótico e diferente são apontados por Boorstin (1992) como
imagens perdidas no tempo, solapadas pela atuação de turistas, empresas e governos que fazem o comércio de atrações por ele consideradas homogêneas e, por isso mesmo, inautênticas. De forma próxima a caracterização
Benny a procura disto quando opõe a viagem a seu cotidiano de relações mecanizadas ou quando fabrica suas rotas de modo a visitar não somente grandes cidades, mas igualmente cidades ou localidades de pequenas dimensões ou interioranas? O pensador francês Amirou (2007) possui uma posição interessante acerca da noção de “centro” presente em alguns empreendimentos de viagem: segundo ele, o interior ou centro de um país reserva para si, na opinião de alguns viajantes, um sentido de originalidade, primitivismo ou intimidade. Assim, atingir ou buscar atingir o centro ou interior de um país ou região seria o equivalente a conhecê-lo de forma profunda, a “fuga” dos roteiros que priorizam apenas as grandes cidades seria mobilizadora de um imaginário acerca do centro que contrapõe a autenticidade nele presente à artificialidade das periferias103.
A maneira como Benny reporta-se às experiências localizadas em Machu Picchu talvez possam ser consideradas indícios do que aqui se discute. A localidade peruana é descrita como “original”, como “mágica” e como “única”, ganhando proeminência em relação a outros destinos. Ainda sobre Machu Picchu, o inglês afirma ser impossível ir ao Peru sem conhecer tal lugar, reforçando uma vez mais a impressão de incontornabilidade do centro, do “interior mítico”, conforme Amirou (2007), para o real acesso ou conhecimento do país. O mesmo pode ser dito em relação às sensações de Benny no que diz respeito à localidade de
da sociedade norte-americana feita por Boorstin, MacCannell (1999) realça a superficialidade e a fragmentação da experiência como componentes constituintes das sociedades modernas, sendo o cotidiano dos homens definido por modo de vida alienante, inautêntico. Mas, ao contrário de Boorstin, MacCannell não considera os turistas como reprodudores e consumidores, em suas viagens, da alienação pelo primeiro criticada. Para ele, os turistas em seus périplos buscam reintegrar a dimensão de autenticidade perdida em seu mundo ordinário, o envolvimento com as culturas e sociedades visitadas configurariam-se como essas vias de superação da
alienação, oportunizando o estabelecimento de relações “reais”. Turista e peregrino se associariam, em termos de
imagem, como aqueles que em seus caminhos procuram algo sagrado para redefinir suas experiências ordinárias. Importante frisar que não necessariamente as viagens são proporcionadoras de encontros com a autenticidade, as lógicas mercantis também atuam sob tal domínio, fabricando cópias e simulacros de expressões autênticas. Baseado nesse movimento de cópia é que o autor, inspirado em Goffman (2007) desenvolveu o conceito de
“autenticidade encenada”, relacionando-o com os de “região de fachada” e “região de fundo” ou “bastidores”.
No turismo massificado, a lógica mercantil ofereceria apenas encenações da diferença, constituindo uma fachada
comumente acessada pelos turistas. Nos “bastidores”, em contraponto, é que residiria a autenticidade, o dado original do lugar que se visita. Entretanto, o acesso à “região de fundo” é difícil, sendo ela mesma objeto de
preparação, de encenação, uma vez mais para receber os turistas.
103 Para Amirou, a atividade turística não envolve apenas uma geografia física, ela serve-se igualmente de uma
“geografia mítica”. Os mitos do “coração de um país”, do “verdadeiro em um país”, do “segredo de um país”,
desta forma, concorrem para a fabricação da atividade, muito pelo trabalho da publicidade ou do marketing turístico, tanto quanto a efetiva experiência de cruzar um deserto ou uma pradaria. Sobre a dimensão mítica que engloba o espaço do turismo, o autor afirma: “A descoberta de um sítio torna-se assim uma prática semântica, uma procura (dirigida e ritualizada) de sentido. Deste modo, o circuito turístico progride desde o mais superficial, o mais conhecido ou menos diferente (o hotel, o banco, etc.), rumo às ´profundezas´ e à autenticidade. Este movimento é vivido como um simulacro de exploração semelhante a um fantasma de desfloração. Fazer quilômetros equivale a ir mais longe no ‘conhecimento profundo’ e íntimo de um país. Advém assim uma forma simbólica de divisão radiocêntrica da extensão, materializada por itinerários que vão da
Punta del Diablo104, no Uruguai. Para o economista, a tranquilidade do lugar, associada ao caráter desértico de suas praias e a rusticidade de sua arquitetura, revelam um espaço ainda não tão explorado e que por isso mesmo devendo ser conhecido e valorizado enquanto destino. Como o extremo oposto de Punta del Este – lugar da agitação turística, das mansões e grandes resorts -, é que a antiga colônia de pescadores é prestigiada, sítio onde se pode “comer um peixe fresco” ou “comprar artesanato diretamente das mãos dos moradores”, nas palavras do viajante inglês.
Escusado dizer que a questão da “autenticidade” dialoga de forma bastante próxima com a ideia de um roteiro off the beaten track, mencionada no tópico anterior. O roteiro feito fora do considerado pelo “turismo convencional”, do que é preparado de antemão por uma agência de turismo, tende a ser envolto por certo senso de “acesso profundo”, “conhecimento genuíno”, “apreensão do original” em relação ao lugar que se visita. Mobilizado por essas ideias é que Benny, como último exemplo a ser discutido, resolveu – em sua volta ao Rio de Janeiro – participar de um baile funk em uma favela carioca. O economista afirmava que os tours105 oferecidos durante o dia não se apresentavam como atividade de seu interesse porque tomavam a favela apenas como mais um “objeto para se ver”. Em sua opinião o baile funk, ao contrário, proporcionaria uma oportunidade privilegiada de se apreciar como as pessoas que habitam o citado lugar “realmente vivem”, a festa seria
104 O vilarejo de Punta del Diablo é, de forma recorrente, evocado por um grande número de viajantes como
destino de destaque na América do Sul. A proximidade com o Brasil, coloca-o na condição de fácil acesso, sendo mais um ponto a ser visitado por aqueles que se propõem a fazer um turismo baseado em práticas litorâneas. Importante dizer que a calmaria e a tranquilidade citadas por Benny parecem, unicamente, ter lugar em Punta del Diablo durante o dia ou nos períodos de baixa estação, uma vez que sua “noite” é descrita para mim por muitos
viajantes como bastante “agitada”, oferecendo diversas opções de festas que podem se estender para além das
madrugadas. Embora seja apontada como um destino concorrido, sobretudo no verão, Punta del Diablo distancia-se muito, segundo Benny e outros viajantes, do famoso balneário de Punta Del Este, mais próximo da capital uruguaia, Montevidéu. Na segunda, por exemplo, a arquitetura consiste em amplas casas de veraneio e prédios altos, configurando um turismo de segunda residência, que contrasta com a rusticidade arquitetônica da primeira. Para maiores discussões sobre o desenvolvimento do litoral uruguaio e, principalmente, de Punta del Este como atração turística, ver Campadônico e Cunha (2009).
105 A conversão da favela carioca em destino turístico foi, de forma detalhada, objeto de investigação de Freire-
Medeiros (2009). Para a pesquisadora, em termos macroestruturais, dois fenômenos concorrem para tal conversão: o primeiro, diz respeito à emergência dos chamados reality tours, elaborados no sentido de oferecer aos turistas uma proximidade maior com aquilo que antes era inconcebível de figurar entre seus “objetos de
olhar”. Exemplo clássico desses reality tours, são os passeios por bairros como Soweto, na África do Sul,
associados à memória do apartheid naquele país. Ao lado dessas “experiências singulares”, para Freire-
Medeiros, a circulação da favela enquanto “marca” – ambiência de novelas, filmes e videoclipes (como o de
Michel Jackson, no morro Dona Marta) – também contribuiu para a consolidação de interesses e olhares curiosos sobre o lugar. A experiência de Benny no citado baile funk na favela carioca, portanto, abre espaço para a discussão do consumo de tours por parte de viajantes que antes o criticavam, por buscar fazer seus deslocamentos sem mediações de agências. Ao mesmo tempo, em um plano maior, a atuação de tais operadoras turísticas na favela engendra uma necessária reflexão sobre as relações entre turismo e comunidade, chamando à baila, inclusive, o tratamento de questões morais como uma possível exploração da pobreza ou da admissão da precariedade como atração turística em nome do chamado “turismo de experiência”. Para mais sobre o tema, ver
um dos canais, portanto, de manifestação do “genuíno” da favela. As relações lá estabelecidas seriam, então, mais autênticas.
O que Benny, contudo, parece não ter se dado conta é de que – como afirma Freire-Medeiros (2009) – a favela e suas múltiplas expressões, incluindo o baile, nos últimos anos foram alçados à condição de “pontos turísticos”, figurando como espaço de constante exploração levado à cabo por empresas que tomaram para si a tarefa de elaborar tours ou passeios fora da alçada daquilo que era considerado convencional, objetivando atingir um perfil de viajantes que – em outrora – caracterizava-se pela evitação deste tipo de mediação. O
baile funk visitado por Benny, assim, era também um “produto” oferecido por uma “operadora de turismo mochileiro”, como seu próprio site a definia, que tinha sugestivamente como slogan a expressão: “Não seja um gringo, seja um local!”. Ou seja, o que talvez possa ser dito em relação à posição de Benny diante da compra de um tour - antes criticado - para a festa na favela, é que a imagem daquele espaço como algo da ordem do “primitivo”, “original”, “autêntico”, “natural” ou “simples”, se sobrepõe à insatisfação no que concerne aos processos de mediação que serão experimentados: o deslocamento em transporte sugerido pela agência contratada, a vinculação a um guia turístico e o posicionamento, por vezes, em áreas denominadas VIP´s (camarotes reservados aos turistas), onde a interação com a população local é reduzida.