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TARLA Tesisi helyum soğutma sistemi testleri

4. BULGULAR

4.4 TARLA Tesisi Soğutma Sistemleri

4.4.4 TARLA Tesisi helyum soğutma sistemi testleri

Motivado não unicamente pela “quebra” da rotina, mas também pela possibilidade de praticar esportes como surf e snowboard, é que o carioca Marc montou os roteiros de duas de suas viagens de longa duração sobre as quais mais conversamos. Na primeira, o litoral, obviamente, foi referência para visitação. Contudo, Marc esforçou-se por empreender uma jornada que proporcionasse a experiência de surfar não uma onda qualquer, mas lugares

“consagrados” para a prática do esporte. Sua jornada, como se vê na figura a seguir95, começa

94 A partir de trabalho de campo efetuado na Espanha e na Índia, D´Andrea (2007) busca compreender a

instituição de uma rede globalizada de experiências contraculturais que tomam forma a partir da adoção de um estilo de vida baseado em noções como as de espiritualidade, cosmopolitismo e individualismo. O trânsito de

sujeitos “expatriados”, termo do próprio autor, entre os dois países, motivado pelo cenário da música eletrônica, é tomado como empiria privilegiada para se pensar aquilo que ele denomina de “neo-nomadismo” ou “nomadismo global”.

95 Nos mapas que representam os trajetos percorridos pelos interlocutores apresentados nesta tese, o balão verde

indica a localidade em que a viagem se inicia e o vermelho, por seu turno, sinaliza o lugar de término do deslocamento.

pelo lugar considerado a “meca do surf”, segundo suas próprias palavras, o Havaí. A experiência no arquipélago, um dos 50 estados que compõem os Estados Unidos, foi tão significativa que o bartender e professor de inglês tatuou um mapa representando as ilhas que o formam em seu ombro. Dos oito meses em que passou em trânsito, quase quatro foram vividos no lugar.

O desembarque de Marc no estado Havaí se deu após um curto período entre outros estados norte-americanos, onde o carioca procurou revisitar amigos que fez durante seu período de intercâmbio. Após tais reencontros, o surfista tomou um voo da Califórnia para Honolulu, capital do estado a ser visitado, e a partir daí começou seu périplo pelas demais

ilhas em busca dos “picos”96 que anteriormente só “conhecia” por meio de filmes e

fotografias de surfistas famosos.

96 Por “pico” os surfistas entendem o lugar onde ondulações que favorecem a prática do surf podem ser

localizadas. Uma localidade, bem como uma mesma praia, podem ser possuidoras de vários “picos”, que

diferenciam-se entre si pela direnção das ondas e pelo fundo do mar (pedra, recife ou areia), por exemplo.

“Picos”, por vezes, são motivos de disputa, expressando uma reivindicação por exclusividade territorial que opõe “surfistas locais” e “sufistas de fora”. Alguns “Picos” são considerados secretos e tendem a permanecer assim

pelo esforço dos poucos que os conhecem e a eles tem acesso, no jargão dos surfistas esses lugares escondidos são os secret spots.

Figura 1 – Roteiro de Marc pelo Havaí

Fonte: Produção do autor no Google Maps.

Terminados os quase quatro meses em que Marc permaneceu envolvido pela atmosfera havaiana, o carioca resolveu dar continuidade a sua jornada, uma vez mais procurando estabelecer como destinos prioritários praias com constantes ondulações. Desse modo, a Austrália apresentou-se como destinação seguinte. O primeiro ponto de desembarque naquele país foi a cidade de Sidney, mas depois de alguns dias ela foi “preterida” em prol de outra famosa região para a prática do surf: a Gold Coast97. Passadas várias semanas em

Queensland, Marc resolveu visitar a cidade de Melbourne e depois retornou a Sidney para

tomar um voo rumo à Auckland, capital da Nova Zelândia. Importante dizer que este país – por sua geografia diversa, composta de praias, montanhas e inúmeros rios e lagos – é considerado um paraíso para os amantes de esportes radicais, sendo o turismo advindo de tal

97 Assim como o Havaí, a Austrália é inquestionavelmente considerada um lugar privilegiado para a prática do

surf e outros esportes aquáticos. Dentre seus variados destinos para prática desses esportes, a Gold Coast localizada na região de Queensland – se destaca, sendo objeto de constantes publicações esportivas. Muito sugestivamente, a cidade comporta um subúrbio, que também é praia, chamado de Surfers Paradise, que se tornou destinação turística mundialmente conhecida.

reconhecimento uma das principais atividades econômicas da Nova Zelândia98. A seguir, mais um mapa representando a rota criada por Marc:

Figura 2 – Roteiro de Marc pela Austrália, Nova Zelândia e Indonésia

Fonte: Produção do autor no Google Maps.

Depois da experiência nos dois países da Oceania, Marc decidiu aproveitar a proximidade e explorar, especificamente, dois destinos localizados na Indonésia, país compreendido entre o citado continente e o sudeste asiático. As localidades escolhidas para visitação, como não poderia deixar de ser, novamente tinham relação com o surf, eram as províncias de Jacarta e Bali. A primeira, capital e maior cidade da Indonésia, na realidade,

98A ideia de promover um “turismo mais ativo” é o carro-chefe das inúmeras agências turísticas presentes em

solo neozenlandês. Segundo Reis (2010), com mais de 30% de sua terra protegida em áreas de conservação e reservas florestais e detentora de uma topografia bastante diversa, de clima imprevisível, a Nova Zelândia, nos últimos trinta anos, vem tornando-se importante destino turístico do Pacífico. Interessante perceber é que

“belezas naturais” do país e sua “vocação para a aventura” são constantemente trabalhadas pelo trade turístico

local, reforçado por políticas governamentais para desenvolvimento do turismo. Escaladas em rocha, caça e pesca, vela e mountain biking são apenas algumas das atividades apresentadas por uma pluralidade de brochuras e anúncios criados por operadoras turísticas.

conforma-se quase que como uma parada obrigatória, haja vista que a maioria dos voos para o restante do país saem de lá. Bali, por seu turno, era o destino final para o carioca, uma ilha repleta de praias, segundo ele, com “ondulações perfeitas”. Bali também marca, para Marc, o término de sua primeira viagem de longa duração. Após o período em tal ilha, os deslocamentos são apenas os de retorno ao Brasil (Bali-Jacarta, Jacarta-Sidney e Sidney-Rio de Janeiro).

Embora os termos “novidade” ou “estranheza”, para alguns, não possam ser empregados à viagem de Marc de forma a não gerar ruídos – afinal, com a maturação dos meios de transporte e tecnologia (O´REILLY, 2006) estas noções parecem ser difíceis de se sustentar –, a experiência do carioca levanta uma questão importante para se pensar a natureza do tipo de viagem em questão. Antes de apresentá-la, no entanto, não custa ressaltar mais uma vez a disposição criacional, o esforço inventivo, em relação ao roteiro, mobilizado pelo jovem surfista. Isso, por si só, já é considerado entre vários sujeitos viajantes como uma forma distintiva presente em suas práticas de viagem, afastando-os do turista convencional ou institucionalizado ou ainda do turismo de massa (COHEN, 1972, 1973).

Feita tal menção, retorno a questão - por mim considerada de extrema importância - que a jornada de Marc suscita: a da relação entre o corpo e viagem. Conforme apontam MacCannell (1976) e Urry (1990), o turista até recentemente foi representado como um “contemplador”, um sujeito que consumia os lugares visitados apenas pela “observação”, pelo “olhar”. A disposição fotográfica e a passividade diante dos monumentos podem ser consideradas, para J. Urry, exemplos dessa postura sightseer. No entanto, esse paradigma visual, nas últimas décadas, vem dando lugar a um conjunto de reflexões acerca das viagens e demais atividades turísticas que levam em consideração também a “corporeidade das práticas” (VEIJOLA; JOKINNEN, 1994). A jornada de Marc mobiliza sensações físicas, abre-se à busca do “extraordinário” em termos de sensibilidades corporais, faz-se calcada num ideal de atividade frente ao lugar e não de passividade, o que impõe a citada relação – corpo e viagem

– como necessário objeto de reflexão99.

99Para Reis (2010, p. 297), os estudiosos do turismo têm esquecido que “toda e qualquer experiência é vivida,

sentida e apreendida por meio de nosso corpo”. Sendo a corporeidade uma parte fundamental da experiência humana, o turismo – de maneira alguma – poderia esquivar-se de refletir sobre questões concernentes ao corpo. Tal esquecimento, ainda conforme a autora, pode ser relacionado à manutenção de grandes dicotomias (sociedade/natureza ou sujeito/objeto) estruturantes do pensamento científico moderno. Assim, a apartação entre corpo e mente teria sido responsável pela posição de invisibilidade, até recentemente, ocupada pelo primeiro termo. É importante destacar que a consideração da corporeidade no turismo acompanha o movimento reflexivo

– iniciado ao final da década de 1960, com as críticas advindas do feminismo, da “revolução social”, do esporte

e do body-art – que interpela a condição corporal dos sujeitos, pensando a corporeidade humana como um fenômeno social e cultural (LE BRETON, 2009b). Especificamente na seara dos estudos do turismo, é válido frisar que algumas reflexões sobre o corpo – como as promovidas por Hottola (2004) - também procuram

Em uma leitura apressada, a natureza poderia ser evocada como o único elemento de enlace entre o corpo e a viagem. Ou seja, o lugar-natureza seria privilegiado no sentido de estimular as dimensões físicas e sensoriais dos sujeitos a partir, por exemplo, da caminhando por um relevo acidentado ou dos desafios propostos por esportes como o surf, caso de Marc, mas também montanhismo, canoagem etc. Entretanto, não gostaria de reproduzir aqui mais uma dicotomia: as experiências físicas e sensoriais também são elaboradas no lugar-cidade ou no lugar-urbano, é o que se verá debruçando-se sobre as narrativas de Benny e Ceci, a seguir. O que está em pauta, portanto, é um deslocamento de paradigma que culmina em apreciações sobre as atividades turísticas que igualmente reconhecem o corpo como elemento de dotação de significado no que se refere às experiências de viagem.