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O Domínio das Tecnologias do Fogo / Um Mundo Ampliado Pelo Fogo / O Fogo Celeste e a Esfera Terrena: A Alteração da Perspectiva Intuitiva.

Uma outra descoberta ou domínio não menos importante, contribuiu para que as relações com o meio ambiente natural fossem grandemente alteradas: o domínio das técnicas de controle do fogo, ou do fogo celeste.

O fogo, esse elemento familiar e dominado há séculos, talvez tivesse significados bem mais amplos do

66

Escritos de Filosofia II - Ética e Cultura, op. cit., pgs. 45 e 46.

67A “Fenomenologia do Ethos”, in: Escritos de Filosofia II - Ética e Cultura, op. cit., pgs. 11 a 36, será abordada com maior

que os explorados pelos autores consultados. Os comentários de DURANT (1966),68 restringem-se apenas a situar historicamente a sua dominação, ELIADE (1993),69 sequer o coloca entre as formas hierofânicas e LEROI-GOURHAN (1971), expõe que poucas aquisições humanas excitaram tanto a imaginação humana.70 Contudo, esse autor não comenta nada que ultrapasse as descrição das diferentes tecnologias apropriadas para a sua obtenção, conservação ou o seu uso.71

A figura 08 72, ao lado, mostra algumas dessas tecnologias recolhidas a partir de LEROI-GOURHAN (1971). Tratam-se de tecnologias apropriadas, pois que desenvolvidas de acordo com as possibilidades materiais e características específicas do meio ambiente natural e ainda de acordo com o que se denominou

acima de propriedades culturais. São ainda formas de reificação do fogo celeste.

Contudo sabe-se que o fogo participava de um sem-número de ritos religiosos, festividades, sacrifícios e tudo o mais que se possa imaginar em termos de religiosidade. Não se sabe se por prudência ou por ausência de provas concretas, a abordagem desse episódio da história da humanidade é sempre parcimoniosa, sempre objetiva e fixada nas benesses de ordem material ou do conforto imediato. Assim os argumentos aqui expressos não possuem sustentação satisfatória no que se refere às provas materiais, mesmo porque, aparentemente elas não existem e nem existirão. Por outro lado, nenhum argumento expressamente contrário à abordagem aqui experimentada foi encontrado. Fica então a advertência: essa abordagem conta apenas com a plausibilidade de seus argumentos.

Inicialmente, o uso do termo fogo celeste quer designar uma qualidade do fogo que se coloca para além de suas propriedades positivas,73 ou propriedades que não referem-se diretamente às coisas que o seu domínio propiciou.

Com isso quer-se dizer que as benesses de ordem pragmática advindas do domínio do fogo por si só não explicitam outros elementos tão consideráveis quanto importantes. Tratam-se certamente de elementos de ordem mais abstrata, menos palpáveis. Nesse contexto, é somente a partir de sua utilização nas antigas práticas ritualísticas que seu significado pode ser ampliado e remetido a tempos mais distantes.

68

A História da Civilização - Tomo I - Nossa Herança Oriental, op. cit., pg. 67.

69

ELIADE, M.: Tratado de História das Religiões, São Paulo, Martins Fontes, 1993, todo o livro.

70“Poucas aquisições humanas excitaram tanto a imaginação. A conquista do fogo surge como símbolo do combate espetacular

que o homem das cavernas travou contra os elementos.” Evolução e Técnicas - I - O Homem e a Matéria, op. cit., pg. 51.

71 Evolução e Técnicas - I - O Homem e a Matéria, op. cit., pgs. 51 a 58.

72 Eis os comentários sintetizados da figura 08 relacionados segundo três tipos de percussões diferentes: “A) percussão oblíqua-

arremessada: 1 - Acendedor de ferro contra sílex, Rússia. 2 - Acendedor de ferro contra sílex e o modo como se batem as partes

próximo à estopa. 3 - Acendedor de ferro com bolsa para a pedra e a estopa, Sibéria, Buriate. 4 - Caixa com três divisões para o acendedor de lâmina de ferro, a pedra e a estopa, Japão, séc. XIX. 5 - Acendedor de êmbolo: é um cilindro de madeira dentro do qual se movimenta um êmbolo que tem a estopa na extremidade. Aplicando uma pancada violenta no punho do instrumento, comprime-se o ar no cilindro e a elevação da temperatura é suficiente para levar a estopa à ignição. Bornéo, Daiaque. B)

Percussão oblíqua-apoiada (predominam na Oceania): 6 - Fogo por percussão oblíqua-apoiada, Melanésia. 7 - fogo obtido

raspando um escudo com um propulsor, Austrália. 8 - Jogo infantil, Ucrânia. 9 - Fogo de uso mágico obtido raspando uma acha, Noruega. C) Percussão circular: 10 - Vareta rolada com as palmas das mãos, África, Saara. 11 - Vara-berbequim, Argentina. 12 - Vareta com corda, Groenlândia ocidental. 13 - Vareta com arco, Sibéria.” Evolução e Técnicas - I - O Homem e a Matéria, op. cit., pgs. 53 a 55 e 244, respectivamente.

73

O termo positivo relaciona-se à tonalidade objetiva emprestada à ciência e os seus descobrimentos pela escola positivista de Auguste Comte. Isso o prova a sua acepção vulgar constante nos dicionários. “Positivismo. [Do fr. positivisme.] S.m. Filos. Conjunto de doutrinas de Auguste Comte, filósofo francês (1798-1857), caracterizado sobretudo pelo impulso que deu ao desenvolvimento de uma orientação cientificista ao pensamento filosófico, atribuindo à constituição e ao processo da ciência positiva importância capital para o progresso de qualquer província do conhecimento; comtismo.” Novo Dicionário da Língua Portuguesa, op. cit., pg. 1120. Complementando: “Positivismo. No seu sentido mais restrito e de acordo com o seu significado histórico „positivismo‟ designa a doutrina e a escola fundadas por Auguste Comte. ... Como teoria do saber, o positivismo nega- se a admitir outra realidade que não sejam os fatos e a investigar outra coisa que não sejam as relações entre os fatos. Pelo menos no que se refere à explicação, o positivismo sublinha decididamente o como e evita responder ao quê, ao porquê e ao para quê. Junta-se a isso, naturalmente, uma decidida aversão à metafísica e isso a um extremo tal que, por vezes, se considerou que esse traço caracteriza insuperavelmente a tendência positivista.” MORA, J. F.: Dicionário de Filosofia, Portugal, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1982, pgs. 387 e 388.

Exemplificando: o relâmpago que provoca incêndios, estará, num futuro ainda longínquo, associado a Zeus.74

Antecedendo em milhares de anos ao Mito de Prometeu, questões sobre como conseguir o fogo, sua primeira ignição, como conservar sua chama e sua utilização, foram lentamente solucionadas. Essa descoberta propiciou a ampliação do espectro de gêneros comestíveis e consequentemente o aumento populacional. Mais do que isso o fogo significou a conquista da segurança em dois sentidos: como arma e a possibilidade de visão noturna. Esses são os elementos de ordem positiva.

Contudo, para além de propiciar esses avanços e conquistas positivas, como a ampliação do espectro de gêneros comestíveis pela cocção, a proteção contra o frio e os animais selvagens, enfim, aquisições que tornassem a vida menos árdua, a dominação do fogo chamado celeste provavelmente representou a primeira relação materializada com uma entidade abstrata, com a intuição do divino, dado que o seu domínio agora o colocava ao alcance das mãos.75

Hoje se sabe ser o fogo uma reação química, seu brilho e calor advêm de certas propriedades de certos materiais e que tudo se passa numa escala de observação infinitamente pequena, molecular, inalcançável aos olhos e à percepção daqueles homens do período Paleolítico. Do amplo espectro de coisas existentes no mundo daquela época poucas coisas poderiam despertar maior interesse e medo simultaneamente. Se por um lado suas características físico-químicas eram absolutamente desconhecidas, por outro, sua proveniência também era assustadora. Ou o fogo se apresentava a partir das erupções vulcânicas, ou era visto a partir das descargas elétricas dos relâmpagos. É diante dessas duas possibilidades, sua emergência tectônica ou sua aparição celeste, que o fogo ganha conotações as mais variadas e sempre associadas a uma instância superior e insuperável: metafísica ou divina.

O fogo habita duas esferas diametralmente opostas, uma humana, onde se pisa, onde se vive, a terra, a esfera dos vulcões. Outra celeste, inalcançável, inatingível, impossível: os céus, a esfera celeste. Nessa perspectiva de procedências antagônicas e de sua própria imaterialidade, nada poderia ser mais distante da ordem normal das coisas. Assim, o fogo, muito antes de significar a possessão estável de algum conforto, era incompreensível por sua própria natureza e, não espanta o fato de que em várias culturas posteriores ao seu domínio tê-lo considerado como uma reificação do divino, do distante e do abstrato transposto à esfera terrestre.

Inexplicável, inapreensível, intrigante, brilhante, quente, mágico, destrutivo, dúbio. Assim o domínio do fogo, apesar de não existirem comprovações cabais, abriu a perspectiva da experimentação do mundo, alterou as formas de ser e estar no mundo. O seu controle, na condição de elemento sagrado e reificado, pois, posto na ordem normal do mundo sob o domínio do humano e não mais do divino, se não significava o próprio controle do divino, indicava no mínimo, uma grande aproximação entre as duas esferas: a humana e a divina.

Pelo fogo o homem assenhora-se do divino, do que está para além da normalidade do mundo físico, do então metafísico, ali materializado e posto sob o seu domínio. Ali materializado e posto sob o domínio humano, estabelece-se definitivamente um arco entre duas esferas antes intangíveis. O domínio do fogo, ou o fazer de sua primeira ignição e sua posterior conservação, pode ter significado para aqueles homens um equiparar-se com uma ordem de coisas ao mesmo tempo imaterial e divina. Colocou o homem numa invejável posição de potência em relação ao mundo natural já que significa ao mesmo tempo as capacidades da vida e da destruição.

Nessa ordem, abrem-se novas e corajosas perspectivas de apreensão e intuição, o mundo jamais poderia ser igual aos olhos daqueles homens. O grau de importância é tal que milhares de anos depois o Mito de

74

Conforme ELIADE (1993): “... Zeus conserva os valores onomásticos de „brilho‟ e „dia‟ e, etimologicamente, esse termo está tão relacionado com dios como o latim dies. Mas, evidentemente, não devemos limitar o seu domínio àquilo que se chamou

abusivamente „o céu sereno, luminoso, brilhante‟, considerando as suas funções meteorológicas como desenvolvimentos

ulteriores ou influências estrangeiras. A arma de Zeus era o raio, e os lugares batidos pelos relâmpagos, Enelysia, eram-lhe consagrados.” Tratado de História das Religiões, op. cit., pg. 72.

75

Ver ANEXO 05 “A Antigüidade do Fogo” sobre as controvérsias das datações dessas tecnologias e o plausível cenário de irracionalidade no qual se deu o seu controle.

Prometeu é criado no interior do sistema cosmogônico Grego como atestado da potência humana frente aos deuses.

Séculos depois, já na Grécia Helênica, ou no período helênico grego, o fogo sagrado continua a ter seus significados nos cultos familiares. São os deuses lares simbolizados numa chama cuidadosamente sempre acesa. Segundo PUECH (1986):

“A lareira, (hestia) era motivo de um culto cuja origem remonta ao passado indo-europeu. A chama

que lá ardia materializava a permanência da família, e assim como em Roma, era uma grave falta deixa-la extinguir-se. O cântico homérico a Afrodite elucida as principais prerrogativas da deusa Hestia narrando uma das raras lendas que circulavam a respeito. Segundo o poeta, Héstia haviam recusado as insinuações de Apolo e de Posídon para consagrar-se a uma eterna virgindade, o que significa que o fogo sagrado deve permanecer livre de toda mácula: Hesíodo recomenda abster-se de todo ato inconveniente ante a sua presença. Parece que quando falecia um membro da família deixava-se que o fogo se apagasse para que fosse reaceso ritualmente.” 76

O domínio dessas técnicas, ou a captura de algo absolutamente imaterial como é o fogo, posto se tratar de uma reação puramente química e assim ininteligível aos olhos daqueles homens, dotou-os de algo muito significativo posto para além da concreção do mundo circundante. Por seu significado inapreensível e por sua imersão num conjunto de significados que o colocava entre o celeste e o terreno, o seu domínio, pode ter representado a apropriação desse mesmo elo entre o divino e o terreno. Sua reificação nas técnicas de seu próprio controle pode ter significado um vertiginoso aproximar-se dessa esfera distante, dessa esfera ao mesmo tempo inatingível, incompreensível, e divina.

Assim, o apropriar-se do fogo pode ter significado o apropriar-se do divino, e mais do que isso, pode ter significado a potência de abertura de um certo intuitivismo 77 à abstração, de uma certa disposição ao

abstracionismo 78.

Isso significa um passo definitivo para a abertura se um mundo sensório para além da concreção do mundo. Significa a expansão de perspectivas antes jamais pressentidas e somente possíveis pela abertura no mundo do sentido da abstração. A utilização controlada do fogo pode ter implicado numa nova disposição mental frente à natureza, alterando a percepção daqueles homens de si mesmo e do mundo, implicando na dimensão da intuição do abstrato.

A mais contundente prova dessa potência à abstração humana aberta pelo domínio do fogo celeste encontra-se por um lado, na sua utilização permanente em suas fogueiras, e por outro na sua permanência secular no imaginário daqueles homens. Sua importância atravessou centenas de milênios de anos para reencontrar o seu destino na materialidade da escrita, no Mito de Prometeu, somente possível muito depois da estruturação da linguagem oral.

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Benzer Belgeler