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3. MARDĐN VE MARDĐN EVĐ

3.2. Geleneksel Mardin Kentsel Dokusu

3.2.1. Tarihsel süreç ve geleneksel kent dokusu

Neste ambiente é que surge a Folia de Reis, como uma prática híbrida: ao mesmo tempo em que é cristã, tem muito de magia popular, esoterismo, curandeirismo e outras práticas populares que são regidas por um universo não cristão, mas que se tornou prática diária do cristianismo:

A partir do século VI, o catolicismo é a religião oficial do reino visigótico, cujos reis e conhecem a autoridade dos Concílios. A Igreja, triunfante no aspecto temporal, se esforça por afiançar o domínio espiritual, indicando aos fiéis a necessidade de rejeitar tudo o que estivesse em contradição com os cânones estabelecidos. Mas os velhos deuses familiares ainda vivem no imaginário popular, especialmente nas regiões do Norte da Península que aceitam o Evangelho com certa dificuldade. Perante esta realidade, nas situações em que a natureza dos ritos pagãos o permite, estes são santificados e incorporados ao cristianismo oficial. Porém, quando a incompatibilidade com a ortodoxia é evidente, as divindades pagãs, tão caras aos camponeses, ficam reduzidas à condição de demônios e seu culto e rituais a práticas mágicas. Existe, pois, uma contradição entre o culto oficial controlado pela autoridade eclesiástica, e a vida privada onde as velhas crenças continuam enraizadas. (Jayo, 1998, p. 10)

107 | P á g i n a Vemos alguns fiéis que buscam nesta religiosidade popular o seu compromisso com o sagrado e, mesmo que sejam católicos fiéis, estão sempre interessados nas promessas, nas graças que irão alcançar. Vejamos um exemplo de simpatia que é muito comum entre os fiéis de Folias de Reis, a encontramos publicada num site de uma rede de supermercado do Rio Grande do Sul:

Simpatia das romãs

No dia de Reis, coloque três caroços de romã dentro da carteira para ter dinheiro durante o Ano Novo. No Dia de Reis, dia 6 de janeiro, pegar uma romã e retirar 9 sementes pedindo aos 3 Reis Magos, Baltasar, Belchior e Gaspar que nesse ano que se inicia você tenha muita saúde, amor, paz, dinheiro. Depois pegue 3 das nove sementes e guarde num saquinho, papel, o que der. Essas sementes ficarão dentro da carteira para nunca faltar dinheiro. As outras 3 você engole e as últimas três que sobraram você joga pra trás fazendo o pedido que desejar. É infalível. Você pode não ficar rico, mas na sua carteira vai ter sempre algum dinheiro.34

Entendemos que estes fazeres são muito importantes, se pensarmos que os símbolos tem a característica de serem realmente eficazes. A eficácia do sagrado, como vimos em outros momentos, caracteriza a Folia de Reis.

Os fiéis buscam cura, bom emprego, felicidade no amor, entre outras coisas, e não veem o cortejo como um teatro. Na verdade eles estão juntamente com os foliões revivendo o nascimento de Jesus e, com isso, buscando a realização pessoal.

Para entendermos como que essas performances causam toda esta reflexão, não podemos nos furtar a observar um tema que foi levantado por Richard Schechner; esse pesquisador entende que há uma diferença marcante entre as performances rituais e as artísticas. Esta diferença está na ênfase que é dada a uma motivação específica. Schechner, neste sentido, aponta então para a diferenciação entre a “Eficácia” e o “Entretenimento”. (Schechner, 2008, p. 130).

Ambos estão presentes em todas as performances, mas, dependendo da função de cada uma das performances, podemos dizer que tendem para o espetáculo, ou para o ritual. A polaridade básica é então entre eficácia e entretenimento, e não entre teatro e ritual. Esta definição nos ajuda a compreender porque as performances têm este poder de transformação, pois a performance que está no cerne destas manifestações depende

108 | P á g i n a das circunstâncias dadas. Quando uma performance propõe uma transformação, ela está ligada à eficácia, à motivação de resultados, não de diversão.

No caso da diversão ser a prioridade de uma performance específica, por exemplo, quando vemos a apresentação do teatro de Bali (teatro ritual da ilha de Bali), estamos vendo uma representação folclórica do rito que em sua originalidade é fruto de uma complexa realização de constituição do tempo sagrado. Mas fora deste contexto, esse rito passa a ser um objeto de apreciação estética, pura e simplesmente. Isso ocorre quando os grupos vêm para o ocidente apresentar a sua cultura.

Schechner alerta para a compreensão da não separação total entre ambos, pois mesmo na Broadway temos os bastidores das apresentações, a relação dos indivíduos com as apresentações, a sua saída de casa, as estruturas sociais, econômicas etc. Assim como não podemos perder de vista que há uma grande beleza e uma preocupação com o belo que está irremediavelmente presente nos ritos. (Schechner, 2008, p. 131).

Schechner nos apresenta um conjunto de relações que achamos importantes tratar aqui neste momento, em uma tabela que vamos decompor, ele apresenta muitos elementos que tratamos até agora.

São oposições que representam a presença da eficácia/entretenimento: • Resultado/diversão,

• Tempo simbólico/ ênfase no agora,

• Ligação com “um outro” ausente/ligação com os presentes,

• Performer em possessão ou transe/ Performer sabe o que está fazendo, • O público participa/ o público assiste,

• O público acredita/ o público aprecia,

• Criticismo desencorajado/ criticismo floresce, • Criatividade coletiva/criatividade individual.

Em todos os casos podemos, sem muitas preocupações, lembrar muitos exemplos dados até aqui. Pois estamos falando de elementos que são constituintes destas performances, o tempo, os símbolos, o transe etc. (Schechner, 2008, p. 130).

Estas definições nos ajudam a compreender como os símbolos, mais que meros elementos linguísticos, são de extrema importância para a transformação dos sujeitos da performance. A transformação das identidades e o novo status social que estes artistas

109 | P á g i n a alcançam são fruto desta eficácia. Assim como podemos falar do trabalho dos indígenas, ou das religiões africanas, em que a performance visa a eficácia, seja a cura ou uma feitiçaria, estas performances garantem que o ato de magia se torne eficaz e verdadeiro. A eficácia que podemos observar destes símbolos é real para quem acredita e crê em suas potencialidades transformadoras.

Schechner fala de uma atualidade primeira e uma atualidade segunda para exemplificar este processo de transformação. A realidade é a mesma, mas a atualidade é outra. Não é mais como era anteriormente, pois sofreu uma modificação do tipo, espaço-temporal, que garante uma nova revalidação do mundo. (Schechner, 2008, p.157).

Ao constituir mundo, este homem também constitui a cultura. E como vimos no início deste capítulo, a luta pela cultura é a luta pela vida, pois ao darmos a devida atenção a estes símbolos ancestrais, iremos dar nova perspectivas ao mundo, ao nosso modo de ser, como afirma Eliade.

A experiência coletiva liminar dos símbolos é a que garante esta força de transformação social, portanto não podemos falar de uma experiência individual, mas de uma intencionalidade social comunitária. Sendo assim, as performances têm um trabalho muito longo pela frente, que é a função de ressignificar a realidade, uma função que o homem moderno perdeu quando secularizou o mundo.

As performances, por estarem inseridas em contextos de eficácia, em estados de liminaridade e sem os tabus que regulariam a contundência destas experiências, geram uma vivência humana dos símbolos coletivos inimagináveis, ilimitadas, como afirma Turner. Esta possibilidade de mudança é fundamental para pensar o homem de hoje e como as identidades podem ser repensadas a partir de uma análise mais aprofundada dos símbolos.

Podemos ver imediatamente que esta possibilidade de verdade e crença na força dos símbolos é uma nova possibilidade de conhecimento. Se nos atentarmos a estas questões com mais carinho, observando que se tratam de algo mais do que uma simples apresentação artística, poderemos ver a potencialidade, os fluxos de energia que fluem destas performances. Sua eficácia é a possibilidade de repensar o homem atual.

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