O objetivo da pesquisa apresentada aqui foi encontrar, de modo sistemático, características de uma tradução premiada que revelassem a expertise do tradutor. Usamos um corpus paralelo com o original do livro DNA – The secret of life, de autoria de James Watson, e a sua tradução para o português, feita por Carlos Afonso Malferrari. A análise nos trouxe os seguintes achados: (i) tamanho do vocabulário compatível com textos originais, visto que o tamanho do vocabulário do texto traduzido ficou próximo do tamanho do vocabulário típico dos textos originais escritos em português, na norma culta brasileira, representados pelo corpus de base. Ou seja, a tradução premiada não parece exigir do tradutor um conhecimento maior de vocabulário (de leitura) do que um outro texto publicado no Brasil (segundo o representado no corpus de base; vide capítulo de metodologia). Assim, a tradução premiada enfocada aqui não parece exigir do leitor um conhecimento de vocabulário acima do que é esperado para ler outros textos no original. Isso nos pareceu um traço importante de uma tradução premiada. Em termos teóricos, isso se contrapõe ao universal de estabilização (leveling out), que previa que a tradução seria distante (em vários sentidos, incluindo o tamanho do vocabulário) de textos originais e que, ao mesmo tempo, as traduções, quaisquer que sejam, seriam mais semelhantes entre si do que em relação a seus originais. Nossos resultados apontam para outra direção: a tradução premiada tem características de um texto original. Como temos apenas um texto analisado, não podemos refutar a hipótese do universal, mas podemos pelo menos colocar em dúvida a sua aplicabilidade em todos os casos (sua própria universalidade). Talvez haja traduções que, como a investigada aqui, sejam de fato bem parecidas, na sua fluência, escolha vocabular, padronização, a um texto original. É preciso mais pesquisas para saber se há realmente outros casos como esse e se eles podem, no conjunto, refutar a hipótese
de universalidade da semelhança entre traduções colocada por Baker (1993). (ii) desprendimento da tradução imediata, visto que o tradutor não se deixou influenciar pela proximidade morfológica e etimológica entre LA e LF. As escolhas que o tradutor premiado fez não são previsíveis. Ele não parece ter usado prima facie como um critério de tradução. (iii) multidirecionalidade, visto que ele empregou a mesma tradução para várias palavras e padrões do original. Assim, embora tenha havido uma profusão de traduções para cada item, o texto não ficou carregado, denso de vocabulário. Os achados (i) e (iii) estão diretamente relacionados, pois essa multidirecionalidade fez com que o tamanho do vocabulário fosse mantido em níveis próximos a outros textos originais, podendo revelar um mecanismo interno do tradutor que controla os limites em que o texto pode ser produzido.
Como qualquer pesquisa, a nossa também possui limitações. A primeira é o tamanho do recorte dos dados. Enfocamos quarenta itens apenas; com mais itens talvez pudéssemos ter uma visão mais detalhada das características da tradução premiada. A segunda é a quantidade de textos analisados. Pudemos verificar apenas uma tradução; novamente, caso pudéssemos ter investigado outras traduções premiadas, talvez tivéssemos encontrado mais detalhes.
Com a pesquisa aqui apresentada, esperamos, pode ter vindo a colaborar com a aproximação contínua entre a Lingüística de Corpus e os Estudos da Tradução. Nosso foco em uma tradução de qualidade pode ter trazido subsídios para outros textos e mesmo para a formação de tradutores, visto que as características reveladas aqui podem servir para formar profissionais, além do que, o exame cuidadoso das escolhas do tradutor serviu-me, particularmente, para o aprimoramento de minha prática profissional como tradutora.
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