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Şirketimizin 20.06.2020 tarihinde yapmış olduğu KAP açıklaması aşağıdadır:

No Brasil, os estudantes vinham se organizando contra as medidas autoritárias do regime de modo crescente. O governo de Castello Branco buscou, por meio de uma fachada legalista, institucionalizar a ditadura: quatro atos institucionais editados, a nova Constituição, a Lei de Imprensa, a nova Lei de Segurança Nacional e a criação do SNI, medidas fundamentais para a repressão que se aprofundaria nos anos seguintes.

Em meio aos atos adicionais do governo Castello Branco, o AI-2 se destacou. Afirmando que “a revolução está viva e não retrocede”, o AI-2 foi decretado, em grande medida, como uma resposta à vitória da oposição nas eleições de dois estados: Minas Gerais e Guanabara. Mais do que uma resposta à oposição, o AI-2 marcou o início da solidificação do sistema autoritário e mostrou os planos dos militares de permanecer no poder por um tempo mais longo do que o esperado, inclusive por parte das lideranças civis que participaram do golpe.

O AI-2 instaurou a eleição indireta para presidente da República, fechou os partidos políticos existentes e fortaleceu a Justiça Militar, expandindo sua abrangência e atuação em crimes relativos à segurança nacional – algo que se abria para um leque bem amplo e inconsistente de ações. No intento de simular uma democracia, o ato permitiu a criação de um

sistema bipartidário. Além disso, reforçou os poderes do Executivo, possibilitando que o presidente pudesse fechar o Congresso Nacional, as Assembleias Legislativas e as Câmaras dos Vereadores, decretar Estado de sítio por 180 dias, intervir em estados, suspender os direitos políticos dos cidadãos por 10 anos e cassar mandatos legislativos federais, estaduais e municipais. Somando-se a isso, concedia fortes prerrogativas ao presidente em matérias legislativas.1

O primeiro semestre de 1966 foi marcado por forte violência contra reuniões e protestos estudantis, seguindo a orientação dos órgãos de segurança e do próprio presidente marechal Castelo Branco: “O governo chegou à conclusão de que a agitação estudantil que se observa neste momento tem inspiração comunista e alcance subversivo e vai agir em consequência.”2 Em Minas Gerais, um dos estados em que a oposição havia conseguido a

vitória para governador em 1965, foi marcada a realização do 28º Congresso da União Nacional dos Estudantes. A preocupação com o movimento estudantil já havia se tornado central para os militares e a repressão não se fez esperar:

Alguns meses depois, fins de julho, o governo federal acionou a polícia militar e tropas das Forças Armadas em Belo Horizonte, a fim de impedir a realização do 28º Congresso da União Nacional dos Estudantes. Deu-se início aí à prática de ocupar as áreas centrais das cidades com imensos aparatos policiais e militares com o propósito de dissuadir e reprimir as atividades estudantis. Conforme relato da época, nessa ocasião, “eram cinco mil homens e 400 carros da Polícia Militar, do Exército, da Aeronáutica e da Guarda Civil”, além de forças de outros organismos de repressão política. No entanto, apesar dessas medidas, a ‘ex-UNE’ conseguiu reunir-se no interior de um convento católico.3

Outras reuniões e manifestações continuaram sendo duramente reprimidas ao longo do ano e em todo o país. As prisões arbitrárias e a violência desencadeada geraram uma reação do movimento estudantil que se espalhou pelo país e estabeleceu o dia 22 de setembro como o “Dia Nacional de Luta contra a ditadura”. Um dia após a data escolhida, ocorreu o “Massacre da Praia Vermelha”, acontecimento em que houve extrema violência policial e repercutiu em todo o país:

A ação policial militar de maior repercussão nacional teria lugar, entretanto, justamente no centro estudantil mais ativo e politizado do país. No Rio de Janeiro, um grupo de dois mil estudantes foi cercado por forças militares no interior do prédio da Faculdade Nacional de Medicina (Praia Vermelha),

1 AARÃO REIS, Daniel. Ditadura e democracia no Brasil, p. 62-66; NAPOLITANO, Marcos. 1964, p. 73-81. 2 Visão, 29 de abril de 1966, p. 12 apud MARTINS FILHO, João Roberto. Movimento estudantil e ditadura militar, p. 100.

quando já se esgotava o ciclo de protestos do Dia Nacional da Luta. A iminência de uma invasão, com consequências imprevisíveis, levou parlamentares e dirigentes da universidade a conseguir o levantamento do cerco. Apesar dessas tentativas, os chefes da operação ordenaram que as portas do edifício fossem derrubadas e, em seu interior, os jovens foram caçados e longamente espancados, enquanto familiares e a imprensa esperavam do lado de fora. À saída, formou-se um “corredor polonês”, com novas e agora visíveis violências contra os estudantes presos. Os caríssimos equipamentos da escola foram totalmente destruídos; houve inúmeros feridos. Posteriormente, ouviram-se denúncias de violências sexuais contra as estudantes.4

As manifestações se tornaram menos intensas após o “Massacre da Praia Vermelha” e se esgotaram ainda em outubro, sendo retomadas apenas no ano seguinte. Diferentemente do que ocorreria em 1968, as manifestações de 1966 não conseguiram apoio de outros setores da sociedade, mas serviram como sinal para a ditadura militar de que o movimento estudantil estava se fortalecendo e poderia contagiar outros segmentos.

Em 1966, os estudantes protestavam contra a Lei Suplicy, a supressão das liberdades democráticas, a falta de vagas nas universidades para os excedentes e denunciavam os primeiros passos rumo à reforma universitária que a ditadura desejava implementar sem uma discussão com a sociedade. Entre as críticas feitas à preparação da reforma universitária estava a influência estrangeira representada, principalmente, nas figuras da United States Agency for International Development (USAID) e do consultor Rudolph Atcon.

O planejamento da reforma universitária andou a passos lentos no período de 1964 a 1967. Em 11 de maio de 1964, na gestão do ministro Flávio Suplicy de Lacerda, foi publicada no Diário Oficial a lei nº 296, que designava uma Comissão integrada por alguns professores universitários para “apresentar estudo objetivando o aperfeiçoamento do sistema universitário e o anteprojeto do Estatuto do Magistério”.5 Um dos integrantes da comissão era o professor

Raymundo Moniz de Aragão, da UFRJ (até 1965, UB). Membro da Diretoria do Ensino Superior, Moniz de Aragão seria um dos principais defensores e articuladores da reforma universitária ao longo do governo Castello Branco.6 O presidente da comissão, o professor

Paulo de Goés, também da UFRJ, seria o primeiro adido científico brasileiro junto à embaixada em Washington em 1966. O cargo foi criado para estreitar os laços acadêmicos e

4 MARTINS FILHO, João Roberto. Movimento estudantil e ditadura militar, p. 101-102. 5 Diário Oficial de 11/05/1964. P. 4139-4140. Biblioteca Municipal de Belo Horizonte.

6 CUNHA, Luiz Antônio. A universidade reformanda, p. 73; MOTTA, Rodrigo Patto Sá. As universidades e o regime militar, p. 70.

buscar convênios técnicos e científicos com os EUA.7 O relatório produzido, no entanto, não

teve repercussão imediata.

No mesmo ano, em 18 de agosto de 1964, a partir da lei nº 573 foi indicada a composição do Fórum Universitário, que objetivava, por meio de uma Comissão Organizadora, “realizar debates sobre os problemas universitários”, “propor as reformas do ensino universitário no país”, “estabelecer bases para a ação harmônica das universidades dentro de uma política nacional de ensino superior condizente com o desenvolvimento do país e as suas condições socioeconômicas e financeiras”, entre outras finalidades.8

Paralelamente ao Fórum, o IPES, representando os interesses empresariais e de técnicos da área econômica, também se inseriu nos debates sobre a reforma do ensino superior. Em seminário organizado ao final de 1964 e início de 1965, os representantes do IPES criticaram o “populismo” do governo Jango, elogiaram o modelo universitário estadunidense, defenderam um maior investimento nas áreas científica e tecnológica e a cobrança de taxas dos alunos.9

Algumas sugestões similares à do IPES também apareceram na I Conferência Nacional de Educação, realizada no primeiro aniversário do golpe. O Plano Nacional de Educação de 1962 foi revisado, também em 1965, pelo Conselho Federal de Educação e algumas mudanças foram feitas, como, por exemplo, reservar parte dos recursos do Fundo Nacional do Ensino Superior à subvenção de universidades particulares. A partir dessa data, houve um progressivo e exponencial aumento de recursos públicos transferidos ao setor privado.10

Parte do pensamento liberal no que tange às universidades serviu como influência para que na Constituição de 1967, ao fim do governo Castello Branco, fossem incluídos dispositivos que vislumbravam a possibilidade de cobrança nas universidades públicas, além de isentar a União do compromisso com gastos mínimos na educação. Essas propostas, defendidas pelos grupos mais liberais ligados à ditadura, seriam amplamente criticadas e

7 MOTTA, Rodrigo Patto Sá. As universidades e o regime militar, p. 76.

8 Diário Oficial de 18/08/1964. P. 4139-4140. Biblioteca Municipal de Belo Horizonte.

9 CUNHA, Luiz Antônio. A universidade reformanda, p. 70-71; MOTTA, Rodrigo Patto Sá. As universidades e o regime militar, p. 71.

combatidas, não somente pelo movimento estudantil, como por setores dentro das próprias Forças Armadas, que possuía nacionalistas defensores de um Estado forte em todas as áreas.11

Apesar dessas primeiras discussões em direção à reforma, muito pouco foi feito durante a gestão de Suplicy de Lacerda. O ministro se destacou mais por suas políticas repressivas do que por estruturar um plano concreto de reforma universitária. Os cortes nos orçamentos das universidades, defendidos pelos liberais que coordenavam a política econômica do governo do Castello Branco também ajudaram na imobilidade das ações referentes aos problemas do ensino superior.12

A única medida efetiva em relação às universidades públicas na gestão de Suplicy de Lacerda foi a lei nº 4759, de 20 de agosto de 1965, que obrigava as universidades controladas pela União a acrescentar “Federal” no nome, no intuito de buscar uma uniformização. A lei externava a ânsia centralizadora do regime e, apesar de seu caráter simbólico, foi considerada como um dos primeiros passos rumo à reforma.13

As primeiras leis que realmente buscaram reestruturar o ensino superior brasileiro só vieram ao final do governo Castello Branco, quando Moniz de Aragão assumiu (ainda que de forma interina) o Ministério da Educação e Cultura. Ao longo do segundo semestre de 1966, a reestruturação das universidades foi discutida, tendo por base o anteprojeto de lei de autoria do CFE, justificado por um parecer do professor Valnir Chagas, membro do conselho.14 Os

moldes sugeridos para a reestruturação do ensino superior seguiam o modelo da UnB. Como explicita Motta:

A UnB foi a primeira universidade planejada para funcionar como centro de pesquisa, com departamentos e institutos no lugar de cátedras e faculdades. A expressão “instituto” servia para designar unidades universitárias com vocação para a pesquisa, distinguindo-se das faculdades tradicionais. No plano original a UnB teria oito institutos ligados às áreas científicas básicas, que seriam complementados por faculdades de formação profissional – direito, administração, educação, engenharia etc. De modo semelhante ao projeto do ITA, a UnB nasceu sem catedráticos e pagava salários mais altos que a média, oferecendo regime de tempo integral. Além da pesquisa, ela implantou de imediato cursos de pós-graduação, que deveriam funcionar simultaneamente aos recém-instalados cursos de graduação. Também na

11 MOTTA, Rodrigo Patto Sá. As universidades e o regime militar, p. 71-72. 12 MOTTA, Rodrigo Patto Sá. As universidades e o regime militar, p. 73-74.

13 CUNHA, Luiz Antônio. A universidade reformanda, p. 80-81; MOTTA, Rodrigo Patto Sá. As universidades e o regime militar, p. 75.

UnB se adotou pela primeira vez o sistema de créditos por disciplina, mais flexível que o formato de turmas com cursos de duração anual.15

Apesar de considerada o modelo a ser seguido, a UnB representava o projeto de educação do governo Jango, portanto estava fora de cogitação para os militares se referirem a ela como a inspiração da reforma universitária. A solução foi buscar em outras universidades, que já estavam fazendo reformas, um referencial a ser seguido.

Na UB, as discussões sobre reestruturação começaram em 1963, porém ficaram paralisadas devido à resistência de setores mais conservadores da instituição e só foram devidamente retomadas quando o próprio Moniz de Aragão assumiu a reitoria em 1967, na já renomeada UFRJ. Na USP, as discussões acerca da reforma universitária se iniciaram ao final de 1966 e se dividiram em uma comissão no âmbito do Conselho Universitário e em diversas comissões paritárias organizadas no âmbito das unidades da instituição. O Relatório Ferri (chamado assim devido ao seu presidente, o professor Mário Guimarães Ferri) foi entregue em 26 de junho de 1968 e foi duramente criticado por Florestan Fernandes e por algumas comissões paritárias, que o acusaram de alienado e elitista.16

Entre as universidades públicas brasileiras mais conhecidas, a UFMG era a que o processo de reestruturação estava mais avançado. Como já mostrado no capítulo anterior, o reitor Aluísio Pimenta havia sido eleito com a promessa de reestruturar a instituição mineira, e contava com significativo apoio interno para efetuar a reforma. Alguns aspectos da reforma na UFMG serão trabalhados no capítulo seguinte, porém cabe salientar que as leis da gestão de Moniz de Aragão, influenciadas pelo modelo da UnB, passaram pelo que Cunha chamou de “conexão mineira”, mesmo que não tenha sido explicitado pela ditadura e pelo ministro, como mostra o autor:

Na sua reconstrução da história, Moniz de Aragão disse que, como ministro da Educação, promoveu, em 1967, a reforma acionada pelo decreto-lei 53/66 “com base nos resultados já atingidos pelos estudos realizados na Universidade do Brasil”. No entanto, pelo menos desde abril de 1964, quando assumiu a Diretoria do Ensino Superior, Moniz de Aragão acompanhou de perto as transformações em curso na UFMG, não sendo descabido, pois, supor, que essa universidade, mais do que a sua própria, tenha sido a inspiradora maior daquele decreto.17

15 MOTTA, Rodrigo Patto Sá. As universidades e o regime militar, p. 69.

16 CUNHA, Luiz Antônio. A universidade reformanda, p. 109-110 e 124- 153; MOTTA, Rodrigo Patto Sá. As universidades e o regime militar, p. 80.

Além do mais, a UFMG, como já mencionado, também era vista com desconfiança por alguns militares, principalmente por ter como reitor um professor ligado ao extinto PTB, por possuir um significativo número de professores que apoiava uma reforma ampla e mais democrática e por possuir um forte movimento estudantil com ligações com a esquerda armada.

Dessa maneira, em 18 de novembro de 1966 foi editado o Decreto-Lei nº 53 e, em 28 de fevereiro de 1967, o Decreto-Lei nº 252. O primeiro tinha como aspectos essenciais a determinação da unidade do ensino e pesquisa, a eliminação da duplicação de meios para fins idênticos, a fragmentação das faculdades de Filosofia, Ciências e Letras e a criação de uma Faculdade de Educação. O segundo decreto veio como complemento do primeiro e implantou o sistema departamental, em que os departamentos seriam as menores frações das unidades universitárias. Apesar da adoção do sistema departamental, que substituía as prerrogativas dos catedráticos, o sistema de cátedra somente seria extinto em 1968. Nessa lei, o chefe do departamento seria um professor catedrático. A resistência de professores conservadores, apegados às estruturas arcaicas, ainda se fazia sentir. O decreto também implementava as atividades de extensão, em busca de uma conexão entre a universidade e a sociedade. Juntas, as duas leis delineavam a maior parte dos aspectos básicos da futura reforma universitária.18

É necessário destacar que em meio a toda discussão sobre reforma universitária, a influência estrangeira se fazia presente e causava polêmicas. A presença da USAID no Brasil remontava ao início da década de 1960 e vinha em substituição a outros programas da área de educação estadunidense presentes no Brasil e no restante da América Latina desde a década de 1950. Os programas educacionais dos EUA tinham como objetivo levar o modelo educacional de sua sociedade de modo a desenvolver o ensino em todos os níveis nos países latino-americanos. Em um contexto de Guerra Fria, havia uma preocupação em buscar diminuir as mazelas da região e, principalmente, impedir a influência do pensamento comunista. Após a Revolução Cubana, soou o alerta vermelho em Washington em relação à região, e programas como esses, aliados a ações militares e de espionagem, intensificaram-se enquanto política externa dos EUA para a América Latina. Em 1961, John F. Kennedy criou a Aliança para o Progresso, que visou investir na região para impedir o avanço do “perigo

vermelho”. O Brasil e o Chile foram países que receberam vultosos investimentos na década de 1960, incluindo o setor educacional.19

Algumas universidades já haviam estabelecidos laços com a USAID durante o governo Jango, como, por exemplo, a Universidade Rural do Estado de Minas Gerais (futura Universidade Federal de Viçosa – UFV), a URGS (futura UFRGS), a Universidade do Ceará (futura UFC) e a USP (inicialmente na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz – Esalq, em Piracicaba). No entanto, foi após o golpe que os laços com a USAID se estreitaram com o Brasil. O financiamento proveniente da USAID se tornou importante nas contas dos governos da ditadura militar, e, em junho de 1965, foi assinado um convênio entre a agência estadunidense e o MEC. O convênio visava a constituição de uma Equipe de Planejamento do Ensino Superior (EPES) e estipulava a doação de quase 500 mil dólares em um período de dois anos por parte da USAID.20O convênio serviu como marco na mudança das relações

entre a USAID e o ensino superior brasileiro. Se antes os contatos se davam por meio de universidades isoladas, a partir da data do convênio oficializava-se uma cooperação com o governo ditatorial brasileiro, o que abrangeria todo o ensino superior.

Não é o objetivo da pesquisa aprofundar-se nas relações estabelecidas entre a USAID e a ditadura brasileira, mas sim compreender o contexto em que se deu o novo ciclo de repressão contra os professores, e para isso é fundamental compreender que a agência estadunidense era movida por interesses políticos, que às vezes iam ao encontro dos interesses dos militares brasileiros e, outras vezes, chocavam-se com estes. A USAID, enquanto programa do governo dos EUA, buscou financiar os programas e professores com os quais havia certa afinidade ideológica ou que, ao menos, não possuíam vínculos comunistas. Nos documentos da diplomacia estadunidense, analisados por Motta, é possível detectar esse discurso, que poupou e buscou ajudar professores perseguidos sem vínculos comunistas, como o professor da Escola de Medicina da USP, Isaías Raw, e tentou prejudicar professores comunistas como Mario Schenberg, físico da mesma instituição. Atitudes assim não eram novidade, já que, mesmo antes do golpe, alguns professores não conseguiram recursos da USAID, justamente por serem considerados subversivos e comunistas, como foi o caso de Darcy Ribeiro, que teve o seu pedido de financiamento para o Instituto de Química da UnB negado pela USAID em 1962.21 O pensamento do governo americano, dessa maneira, estava

19 MOTTA, Rodrigo Patto Sá. As universidades e o regime militar, p. 110-118

20 CUNHA, Luiz Antônio. A universidade reformanda, p. 162; MOTTA, Rodrigo Patto Sá. As universidades e o regime militar, p. 118-121.

mais próximo de uma modernização aliada a um autoritarismo moderado, como bem formulado por Motta:

Os funcionários americanos achavam aceitável o expurgo dos comunistas, e houve momentos em que consideravam as autoridades brasileiras pouco eficazes na repressão ao inimigo principal. Não obstante, desejavam que as ações repressivas fossem mantidas dentro dos limites, atingindo somente os comunistas. Se tais ações fugissem ao controle, poderiam comprometer o projeto de modernização, inclusive nas universidades. Muita repressão poderia ser contraproducente por três razões básicas: afastar desnecessariamente quadros importantes ao processo modernizador; oferecer aos comunistas argumentos para fazer propaganda contra o governo brasileiro, e assim aumentar sua influência na sociedade; gerar críticas internacionais e enfraquecer o apoio ao governo militar.22

A USAID não foi a única influência estrangeira a chamar a atenção nessa época. Em junho de 1965, quase ao mesmo tempo em que confirmava os acordos com a USAID, a Diretoria de Ensino Superior do MEC contratava o consultor Rudolph Atcon, que vinha ao país com a missão de analisar o ensino superior brasileiro e propor uma reestruturação das universidades. Atcon já havia estado no Brasil anteriormente e havia trabalhado com Anísio Teixeira, quando da implementação da Capes.23 Também era conhecido por ter efetuado

consultorias em outros países da América Latina, incluindo o Chile, quando, ao final da década de 1950, ajudou na criação de institutos centrais para a Universidad de Concepción. Em sua análise sobre o trabalho desenvolvido por Atcon, Cunha se mostra bastante crítico ao explicitar as ideias extremamente liberais e autoritárias de Atcon, que acreditava que somente assim seria possível reestruturar as universidades brasileiras seguindo os moldes do modelo estadunidense. Isso incluía a possibilidade de anuidades, o que foi extremamente combatido pelo movimento estudantil. Além disso, o autor mostra como as propostas trazidas para o