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08 AĞUSTOS 2019 TARİHLİ 2018 HESAP YILI OLAĞAN GENEL KURUL TOPLANTISI
Ao comparar a repressão inicial efetivada contra os professores na UFMG e na UTE é preciso estar atento a três aspectos: o contexto geral vivido pelo país, o tipo de cada universidade analisada e as características dos docentes das duas instituições. Esses parâmetros ajudam a estabelecer o caminho para uma análise clara das unidades de comparação.
Os contextos vividos pelas duas sociedades eram diferentes em decisivos aspectos, apesar de se encontrarem algumas semelhanças. Fatores externos e internos impactaram o que é analisado nos dois lados da cordilheira.
Tanto o Brasil quanto o Chile estavam inseridos em um contexto global de Guerra Fria, em que as influências ideológicas dos blocos socialista e capitalista disputavam e equilibravam as disputas de poder. A influência da Revolução Cubana é ponto chave para se compreender os anseios de grande parte da esquerda, que a via como um exemplo a ser seguido, e os temores da direita e das forças conservadoras, defensoras de qualquer ação contra grupos políticos que aspiravam seguir os caminhos da ilha comandada por Fidel Castro. Junte-se a isso a constante presença norte americana que, desde a Doutrina Monroe, sempre considerou a América Latina como uma área de influência dos interesses dos Estados Unidos. O vizinho do norte apoiou, em diferentes graus, os golpes dados pelas forças de direita na América Latina. O Brasil foi o laboratório para os golpes que seriam desencadeados no continente na segunda metade do século XX e a participação dos EUA democrata foi significativa, apesar de mais atuante nos bastidores. O Chile sentiu com mais agressividade a influência de um EUA republicano, que não poupou dinheiro e estratégias para derrubar o governo socialista de Allende.
As diferenças maiores residem no contexto interno de cada nação. O governo Goulart, apesar de ser um governo que possuía o apoio dos trabalhadores e de significativa parte da esquerda, incluindo o PCB, não era um governo socialista, estava longe de propor uma
revolução proletária e possuía apoio, inclusive, de alguns setores do Partido Social Democrático (PSD), que era mais conservador e distante da esquerda. O programa de governo de Jango propunha reformas consideradas necessárias para desenvolver o país e diminuir a desigualdade social. Apesar de toda tensão social, greves e articulações políticas envolvendo movimentos sociais e militares, não ocorreu com a mesma intensidade no governo Goulart o enfretamento e polarização política que viveu o Chile dos anos Allende. Os grupos de esquerda não estavam no poder e a independência e força dos sindicatos brasileiros não chegou nem perto de experimentar a experiência que sucedeu aos trabalhadores, sindicatos e grupos da esquerda chilena.
O governo de Allende, eleito de forma democrática e ratificado pelo Congresso, possuía claramente em seu programa o projeto de fazer a revolução proletária no Chile, porém pelo que seria conhecido como a “Via chilena ao socialismo” ou a “Via democrática ao socialismo”. Os principais partidos da coalizão da Unidad Popular eram o Partido Comunista e o Partido Socialista, que abarcavam diferentes correntes ideológicas de esquerda, mas que culminavam no fim último da revolução proletária. Não cabe aqui discutir os erros e acertos do governo Allende, nem as várias correntes que compunham o governo. O que se deseja destacar é que o acirramento do debate entre as forças conservadoras - que assistiram horrorizadas a um governo abertamente revolucionário chegar ao poder no Chile e começar a efetuar as transformações nas estruturas da sociedade com amplo apoio da classe trabalhadora, principalmente dos setores mais marginalizados da sociedade – e as forças de esquerda que apoiavam a UP levaram a um impasse político, gerando uma divisão que podia ser observada não somente nas eleições, como nos confrontos diários das ruas, ocupações, universidades e fábricas. Em suma, a polarização política no Chile alcançou níveis de maior tensão do que no Brasil.
A situação interna e o grau de conflito dos dois países ajudam a compreender, em partes, o nível de repressão desencadeado contra as duas universidades estudadas e, consequentemente, contra seus professores. De certa maneira, a violência mais intensa e escancarada contra os docentes no Chile é explicável pelo maior temor e nível de paranoia que atingiu as forças conservadoras civis e militares chilenas por estarem combatendo um inimigo abertamente “comunista” ou “subversivo” que havia se implantado no governo e, consequentemente, em uma das mais importantes universidades chilenas, a UTE. E como abordado, ainda que de maneira parcial, os professores e dirigentes da UTE eram em sua maioria membros, militantes ou simpatizantes de partidos que faziam parte da UP. A
Universidad Técnica del Estado era considerada uma universidade “vermelha”, que apoiava e militava a favor do governo de Allende. Somente esse fator já seria suficiente para os militares desencadearem uma maior repressão contra a UTE.130
Outras universidades foram cercadas e invadidas, como a Universidad de Chile e a Universidad de Concepción, pois elas também possuíam um significativo número de integrantes ligados aos partidos da UP. No entanto, a UTE foi cercada, metralhada e bombardeada, algo que não ocorreu com nenhuma outra universidade na América do Sul durante os regimes militares. Esses acontecimentos servem para refletir a respeito de aspectos singulares da UTE. Ela não era somente uma universidade engajada e com grande número de integrantes de esquerda. A UTE era a universidade com maior porcentagem de professores e estudantes vindos da classe trabalhadora. Operários, camponeses e seus filhos passaram a ser cerca de 30% dos estudantes da UTE durante a gestão de Kirberg. A repressão que atingiu a UTE se relacionou diretamente com um preconceito de classe. A Técnica, como era chamada por alguns de seus integrantes, era considerada um perigo para os militares e para as classes conservadoras não somente pelo número de “subversivos marxistas”, mas também por dar acesso à educação e ao conhecimento à população de baixa renda, que não tinha condição de chegar da maneira tradicional ao ensino superior. Para os conservadores era a invasão de um espaço considerado privilégio das elites.
Em algumas das entrevistas, o aspecto social que diferenciava a UTE é mencionado e destacado como uma característica singular da instituição. Mario Navarro menciona a maior intensidade de repressão contra os “negros” no dia do golpe, ou seja, contra os operários e filhos de operários, grande parte de origem indígena. Joignant cita o caso de um colega, filho de um trabalhador de mina e formado na UTE, que era o primeiro da família a ter um título universitário. Para a professora, era o início de tomada de consciência de classe, uma transformação que não se dava da noite para o dia. Duhau relembra suas jornadas de trabalho noturno, quando, após ter passado o dia dando aula para os universitários, ministrava aulas para os operários à noite.131 Kirberg é bastante enfático em seus apontamentos sobre a relação
entre a UTE e os trabalhadores, principalmente por meio do convênio CUT-UTE. E os números, sejam do livro do reitor, do seu livro entrevista ou sejam do livro oficial da UTE- USACH produzido durante a ditadura mostram a dimensão que essa relação alcançou.
130 Não só a produção bibliográfica a respeito da UTE pontua o engajamento desta universidade, como alguns professores entrevistados. Cf. entrevistas com Marta Joignant, Carmen Vargas, Neuda Aguilar Duhau, Luis Cruz Salas e Mario Navarro.
O incômodo dos militares, e dos civis que os apoiaram, se mostra evidente com a desestruturação realizada na UTE logo após o golpe de 1973. Todos os programas voltados para os trabalhadores foram cancelados, especialmente os que envolviam as indústrias e as minas. Os convênios foram encerrados, assim como grande parte dos institutos tecnológicos. A ditadura, que colocou na ilegalidade a Asociación de Profesores y Empleados de la Universidad Técnica (APEUT) e a FEUT, não deixou de reprimir, com ainda mais violência, tudo o que fazia parte do universo dos trabalhadores. Por tudo isso, a UTE acabou sendo a universidade mais afetada do Chile.132
Já a UFMG não chegou a sofrer mudanças tão significativas quanto a UTE no período pré-golpe, apesar de também desenvolver e discutir, principalmente por meio do movimento estudantil, questões relacionadas a uma maior acessibilidade e democratização do ensino superior. A UFMG, assim como as outras universidades brasileiras, era um ambiente feito e ocupado pelas elites econômicas e intelectuais do estado. Por maior que tenha sido o movimento contestatório do status quo dentro desta universidade brasileira, não se chegou a abranger um número significativo de pessoas provenientes das classes trabalhadoras no meio acadêmico. A UFMG era, assim, uma universidade elitista, e muitos professores, principalmente os catedráticos e os que pertenciam às faculdades tradicionais, possuíam um perfil conservador.
Apesar de ser uma universidade de elite e de não possuir um quadro majoritário de professores militantes de partidos de esquerda, como era o caso da UTE, uma parcela de professores da UFMG se destacou em aspectos modernizadores e considerados progressistas. Como revela a documentação do DOPS/MG, havia um considerável número de professores da instituição considerados “esquerdistas” apenas por participarem de palestras sobre a reforma universitária e defenderem mudanças estruturais em todo o país. Outros professores, de fato, faziam parte de partidos e organizações de esquerda e defendiam mudanças mais amplas. O reitor, Aluísio Pimenta, não era um comunista como Enríque Kirberg, porém tampouco poderia ser identificado com os grupos de direita. Pelo contrário, Pimenta defendia a reforma universitária feita em diálogo com os estudantes, antes mesmo das grandes manifestações estudantis que tomaram conta do país em 1967 e 1968. E nessa questão, ele era acompanhado por outros jovens professores, que também construíram pontes de diálogo com os estudantes. Sob esses aspectos, e considerando a conjuntura brasileira, a UFMG poderia ser considerada uma universidade progressista. Se comparada com a UTE, as diferenças se fazem mais
visíveis, mas, como já mostrado, o contexto e o grau de polarização dos dois países devem ser considerados na análise do que ocorreu com os professores das duas universidades na primeira onda repressiva.
O número de docentes atingidos pela repressão dos militares na UFMG não foi tão alto como na UTE. Há raros casos de tortura contra os docentes da universidade brasileira e o número de exonerados políticos na instituição é quase nulo em relação ao seu corpo docente. Na UTE, além dos cinco professores assassinados, houve dezenas de docentes, de todas as categorias, torturados, incluindo seus principais dirigentes e professores de renome. Diferentemente da UFMG, não se pouparam as classes médias, formadas por intelectuais que possuíam destaque no âmbito nacional do país andino. Foram centenas de exonerações em apenas alguns meses na UTE. O Instituto Pedagógico Técnico da universidade chilena teve seu corpo docente quase todo demitido.133
Outra diferença que merece ser destacada diz respeito à origem das delações, das listas de pessoas passíveis de serem punidas e de como a ditadura em ambos os países instaurou a repressão nas duas universidades.
Na UFMG, os professores já eram vigiados desde antes do golpe pela polícia política. Listas de nomes de professores considerados “esquerdistas”, como foi mostrado, já constavam nos documentos do DOPS. Com o advento do golpe, professores foram presos e comissões especiais foram montadas para investigar os “crimes cometidos contra a segurança nacional” no âmbito interno da universidade. No entanto, os dirigentes da UFMG encontraram, em variados momentos, maneiras de acomodar-se com o Regime Militar, buscando medidas conciliatórias e que evitassem danos maiores à instituição e seus professores. A comissão de sindicância - instalada perto do prazo final de entrega de resultados para os agentes de repressão - não apontou culpados de “subversão” na universidade. A tentativa de resistência, em um primeiro momento, pelos dirigentes da UFMG foi eficaz. Professores deixaram de ser demitidos e o reitor, com o apoio de grande parte da comunidade acadêmica, evitou uma intervenção militar direta e conseguiu sair fortalecido, afastando o paranoico Guedes e levando a instituição mineira a desenvolver, precocemente em relação ao resto do país, a sua reforma universitária. A ação do reitor fez com que as decisões tomadas na intervenção da FAFI, em junho do mesmo ano, fossem anuladas, tranquilizando acadêmicos e alunos que estavam sendo perseguidos.
Os IPMs em que os docentes estavam arrolados continuaram em aberto e a vigilância sobre a universidade não cessou, apesar de ter diminuído em um primeiro momento. Alguns tipos de censuras e vetos ocorreram e o clima de medo e insegurança sempre existiu. Professores partiram para o exílio, mas retornaram em pouco tempo, acreditando que o pior havia passado. Em um primeiro momento, a experiência na UFMG revela que, assim como parece ter ocorrido em outras instituições de elite do Brasil, muitas vezes o diálogo e a conciliação serviram para que pessoas contrárias ao regime se acomodassem à nova realidade, e que os órgãos de vigilância e repressão fizessem “vista grossa” para os cidadãos incômodos à ditadura.
Na UTE, além das dezenas de professores presos e torturados, das centenas de professores exonerados e das mortes ocorridas, a delação veio, de maneira substancial, do interior da universidade. Listas de docentes considerados subversivos foram confeccionadas por grupos de extrema direita e por colegas da própria universidade, como revelaram alguns professores entrevistados. O reitor, encarcerado e enviado para um campo de trabalho forçado, foi substituído por um militar, ao qual a ditadura pinochetista concedeu plenos poderes, fazendo com que a UTE se transformasse em um microcosmo do Chile ditatorial. Sessões de torturas chegaram a ser realizadas até na reitoria, o que revela a extrema violência dos momentos iniciais pós-golpe e o grau de polarização ao qual o Chile havia chegado.
Com os nomes marcados em listas distribuídas por estabelecimentos de ensino em todo o Chile, muitos professores da UTE foram impedidos de conseguir emprego. Outros foram ameaçados de morte devido às suas ligações com os partidos políticos da UP. Posteriormente, até os militantes da DC seriam perseguidos. Muitos docentes não tiveram outra opção senão a de sair do país. Não seria um exílio de curta duração. Muitos só voltariam após a redemocratização. Transformados pela vida no exterior e pelas transformações internas do Chile, o processo de adaptação não seria fácil.
O exemplo da UTE evidencia que praticamente não houve meio termo no que tange à repressão. Houve, obviamente, casos de favores pessoais que salvaram vidas e até prolongaram carreiras, como nos casos de Salas, do marido de Duhau, do irmão de Joignant e de Medina. No entanto, na maioria foram casos extremos, que livraram os professores e seus parentes de serem torturados ou mortos. Os docentes que escaparam da prisão e da tortura não conseguiram evitar a onda demissionária, que foi intensa nos primeiros meses, mas também presente, ainda que em menor medida, nos anos seguintes. O exemplo da UFMG revela as
disputas existentes entre os grupos golpistas desde o início, que levaram a certa contradição na hora de punir os inimigos do regime. O discurso visava afastar todos os “subversivos”, majoritariamente a esquerda. Porém, na prática isso não ocorreu em um primeiro momento, em que pesem os esforços de alguns militares, como Guedes. Os grupos moderados tiveram mais força nesse momento. Além disso, relações pessoais foram usadas para contornar situações mais drásticas. Dessa maneira, na UTE, a cultura política dos professores foi fator primordial para a repressão no pós-golpe. Na UFMG, diversos fatores, além da cultura política, influíram na política repressiva contra os professores.
A relação entre os professores da UFMG e a ditadura militar não significa que a ditadura no Brasil tenha sido pouco violenta, nem mesmo nos anos iniciais, como certa memória liberal sobre o regime costuma afirmar. Pelo contrário, como revelado pela recente investigação desenvolvida pela Comissão Nacional da Verdade, a ditadura brasileira assassinou e torturou um número muito maior de pessoas que os que constavam nos dados oficiais até então.134
O tratamento dispensado à UFMG pela ditadura militar revela, portanto, uma característica social e política arraigada até hoje em nossa sociedade. Apesar de todos os abusos sofridos pela instituição, a UFMG não chegou a sofrer uma violência extremada após o golpe, como outros setores da sociedade brasileira sofreram, por ser um local de elite.
O fator classista no Chile deve ser tomado em alta consideração quando se trata da repressão contra a UTE, porém a violência não deixou de atingir os intelectuais e setores da classe média alta chilena. Em um primeiro momento, os setores da classe média e alta brasileira que eram vinculados ao governo Jango foram poupados de uma repressão mais intensa. No entanto, com o endurecimento do regime, esses setores também serão atingidos, obviamente que em menor proporção se comparado com os setores mais pobres.
Os próximos capítulos pretendem mostrar como a repressão, no Brasil, começou a atingir com mais intensidade as universidades e os docentes, em um contexto de protestos estudantis e de reforma universitária. Apesar disso, a ambiguidade do regime vai fazer-se presente também nesse momento. No Chile, após a brutal violência inicial, os atores de oposição da sociedade vão começar, timidamente, a se manifestar contra a ditadura. O movimento estudantil vai se tornar uma das principais vozes contra a ditadura, que também efetivará uma reforma universitária, porém a partir de uma ótica mais liberal do que a
brasileira. A partir dos casos da UFMG e da UTE buscarei analisar como ocorreu a repressão contra os professores nesse contexto, levando em consideração as particularidades de cada instituição e de seu corpo docente.
CAPÍTULO III
UM NOVO CICLO REPRESSIVO: REFORMA UNIVERSITÁRIA, MOVIMENTO