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V. TARİHLER TARİHLER

A Revolução de 193038 que deu a posse a Getúlio Vargas é sintomática, no plano político, do esgotamento da Primeira República, e contribui para desbancar as oligarquias agrárias do comando do Estado. A Era Vargas (1930-1945) permitiu a divisão do aparelho de Estado com outros grupos sociais, que não se sentiam contemplados pelo aparelho do Estado. Interrompe as eleições, dominadas pelo voto de cabresto, produzindo alterações no sistema eleitoral e político, que enfraqueceu no período o laço político das oligarquias, alijando-as de postos expressivos de poder. No plano social, o crescimento das populações urbanas e os efeitos do entre-guerras mundiais possibilitou o fortalecimento de ideais modernizantes.

No campo econômico, a revolta deu origem à Era Vargas, marcada pelo surgimento das políticas estatais internas modernizantes, industrializantes e cosmopolitas, de desenvolvimento nacional, num contexto internacional de desenvolvimento do imperialismo capitalista. A partir dos anos 1930, o Estado e sua relação com o capitalismo tornou-se fator fundamental para a formação do capitalismo brasileiro, que se desenvolve num contexto externo de capitalismo imperialista. No entanto, a discussão sobre a existência ou não de uma revolução burguesa no Brasil foi sempre recolocada. Nesse quesito, do ponto de vista histórico, concorda-se com Prado Júnior39 quando afirma que o Brasil desempenhou seu papel como elemento do capitalismo desde o processo de colonização.

Assim, observa-se que, a partir da Era Vargas, o país caminhou para encaixar-se no modelo de capitalismo existente nos países e potências industriais desenvolvidas daquele momento, o que foi realizado sem a precedência de uma revolução burguesa, no sentido clássico europeu de luta revolucionária que mobilizou, como na França, camponeses e espoliados para a derrubada sangrenta da nobreza, como trata Marx (2010), quando fala da emancipação política.

Se, por um lado, é difícil descrever essa particularidade brasileira, por outro, é possível localizar suas raízes históricas em nossa formação colonial. O país herdou desse período a organização social e política e a vocação cosmopolita da nossa elite econômica. Da mesma forma, é possível visualizar na Era Vargas os elementos e o contexto interno e externo

38 É tratado de Revolução de 1930 o movimento armado que resultou na deposição da presidência do país o paulista Washington Luís, em 24/10/1930, e impediu a posse do paulista Júlio Prestes, eleito para o próximo mandato. A indicação deste para sucessão presidencial pôs fim à política de café com leite, levando o governador de Minas Gerais Antônio C. R. de Andrada a juntar-se com a Paraíba e o Rio Grande do Sul no apoio ao gaúcho Getúlio Vargas, que, derrotado na disputa, foi conduzido à chefia do Governo Provisório, após o golpe.

39 Ver Prado Júnior (2014), obra que reúne os livros A Revolução Brasileira, publicado em 1966, e A Questão

Agrária, publicado em 1979; Formação do Brasil Contemporâneo (2011b), publicado pela primeira vez em 1942; e História Econômica do Brasil (2012b), publicada pela primeira vez em 1945.

que impulsionam a industrialização, formando as bases que caracterizam uma maior identificação do Brasil com as nações já industrializadas do Ocidente.

A Era Vargas findou-se em 1945, no contexto do fim da II Guerra Mundial. A participação do Brasil na guerra forneceu um ambiente para a maior ocidentalização do país e maior participação nos debates internacionais. Essa ocidentalização permitiu também que fossem internalizados em segmentos de nossa elite e segmentos das forças armadas os ideais da Guerra Fria, que tiveram como desdobramento o desenvolvimento de posicionamentos políticos alinhados com os existentes na Europa Ocidental e nos Estados Unidos. Isso possibilitou construir polos opostos, externamente, pela disputa entre países capitalista e socialista e, internamente, pela formação de dois campos políticos opostos entre nacionalistas e conspiradores socialista/comunista.

Assim que houve a abertura política de 1945, parte considerável das oligarquias (antigas, novas e recentes) mostrou-se capaz de reorganizar-se e realizar composição com os ideais de modernização. Essa recomposição oligárquica irá marcar o período posterior, entre 1946 e 1964, no qual houve a união da oligarquia, da burguesia nacional e do capital monopolista-imperialista. Sobretudo, em função do lugar que os Estados Unidos ocupou após a II Guerra Mundial como polarizador dos ideais ocidentais da Guerra Fria. De modo que passou a ser identificado como conspiração internacional qualquer movimento social de defesa da inclusão social ou de redução da desigualdade, bem como todo movimento político de defesa de interesse nacionalista-popular.

Em nome de uma euforia democrática, com a previsão de eleições livres, e oposta à presença autoritária do Estado, as oligarquias irão recompor-se durante o Governo Dutra e no intervalo entre a Era Vargas e o Segundo Governo Vargas (1951), utilizando-se o seu velho instrumento do voto de cabresto. A coalisão conservadora passou a defender a reintegração do país ao livre comércio internacional, o que implicou o recuo da industrialização pesada e seu complemento, o setor de bens de produção e de infraestrutura, reduzindo o papel do Estado na direção da expansão capitalista como problema de primeira ordem.

No campo político, a pretensa democracia foi abalada pela coexistência do poder coercitivo dos aparelhos repressivos do Estado contra os anseios da população, tornando inócuo o anseio de alargamento da participação e a ampliação da comunidade política, que se esperava a partir de 1945. Contra os trabalhadores, o Governo Federal editou o Decreto-lei nº 9.070, com a intenção de proibir greves e punir os trabalhadores; contra a participação política iniciou uma política de cassação de mandatos em janeiro de 1948, abalando a instituição do

voto democrático, ainda que em eleições viciadas, provocado pelo esbulho eleitoral do voto das eleições de dezembro de 1945 e as de janeiro e novembro de 1947, bem como a proibição do Partido Comunista do Brasil (PCB) de existir, nesse período.

A volta de Getúlio Vargas ao poder ocorreu por meio das eleições do pleito de 1950, mas já não foi mais possível deter a marcha da articulação dos interesses econômicos internos (industrial e oligárquico) com os econômicos externos das grandes potências ocidentais.

Da segunda metade do século XIX em diante, a fisionomia da sociedade nacional modificou-se. O comércio agrícola internacional do Brasil passou a ser ―determinado pela predominância da cafeicultura‖, ao mesmo tempo em que houve a diversificação de produtos agrícolas produzidos e o surgimento de novas regiões produtivas, criando ―surtos de prosperidade variável‖ com a comercialização da cana-de-açúcar, do algodão, da borracha, do fumo, do couro, da pele, da erva-mate, do arroz, do cacau, da madeira etc. (IGLÉSIAS et al., 2004, p. 351-352).

Segundo Leila Stein (2008)40, o período iniciado na segunda metade do século XIX transforma o ambiente social e agrário do país. A produção para o abastecimento interno passa a ganhar importância, produção que conta com o incremento de novas regiões produtivas e por mudanças internas às regiões ocupadas com produtos exclusivamente para exportação.

De qualquer modo, o período entre 1930 e 1964 intensificou a presença da indústria na economia brasileira, bem como aumentou a participação interna do capital multinacional, que ampliando a gama de produtos que internamente ficaram sob o controle de empresas multinacionais, aumentando a internacionalização da economia existente, baseada na produção agrícola, que deixa de ser exclusiva, mas não deixa de ser importante. O que se assistiu foi a crescente participação da produção interna de bens manufaturados para consumo interno e para a exportação, que foi incrementada pela importação e, ao mesmo tempo, pela exportação, num fluxo duplo, de produção industrial, de base e pesada, voltada para satisfação do mercado interno e para a exportação. No período:

A economia brasileira passa por um momento inteiramente particular, com o desenvolvimento da indústria pesada, de automotrizes e de energia (petróleo), enquanto isso, a agricultura continua a sofrer de um impacto negativo e se mantém presa a formas técnicas antiquadas. Socialmente, há um rejuvenescimento de problemas sociais; enquanto a maior parte da classe conservadora se mantém fechada a qualquer iniciativa renovadora, parte da

classe média luta por reformas de base, e a classe trabalhadora se subdivide em lutas ideológicas (CARONE, 1980, p. VII-VIII).

O período é marcado por questões econômicas, políticas e sociais que expressam: o aumento da dívida interna, externa e da inflação; as mudanças no padrão brasileiro de produção agrícola; a abertura de novas fronteiras agrícolas nacionais; a integração e diversificação de regiões produtoras e dos produtos agrícolas produzidos ao mercado interno e mundial; o início da produção industrial pesada; a ampliação da infraestrutura urbana e social; o aumento da infraestrutura de transporte; o crescimento da desigualdade social no interior das regiões e entre as várias regiões do país.

De maneira que esses dois polos (modernizantes-oligarquias) constituirão os dois lados da mesma moeda, e estarão unidos em torno do conservadorismo político interno e da abertura econômica ao capital internacional, que irá se firmar a partir do Golpe de 1964. O estreitamento de relações será mediado pelo capital internacional e significou a junção de todos eles (capital internacional, oligarquias e modernizantes) para, internamente, disputar os benefícios das políticas estatais e, mais ainda, construir um bloco com posições conservadoras e de direitas, que resultou na cruzada de combate interno contra o nacionalista, o popular, o populista, o socialista e o comunista. E que, com a contribuição do aparelho ideológico de imprensa e da linha dura do Exército Brasileiro, reproduziu internamente as posições internacionais dos EUA e da URSS, no âmbito da Guerra Fria.

Trata-se de uma época de ampliação dos conflitos sociais e, consequentemente, de radicalização tanto das posições ideológicas quanto das posições sobre as políticas estatais, representadas pelas disputas entre esquerda e direita, urbana e rural, mercado interno e mercado externo, nacional e internacional. Sem falar nas tensões geradas pelas disputas pelo financiamento público em cada setor e entre os diferentes setores (agricultura, infraestrutura e indústria) e, ainda, entre as diferentes regiões do país.

Nesse período, a base econômico-produtiva do país foi reorganizada e o Estado assumiu, claramente, o papel de apêndice do desenvolvimento, realizando políticas estatais e financiamento, com recursos públicos próprios ou por meio do endividamento interno e externo, que atendesse o setor produtivo agrícola e industrial, setor de infraestrutura produtiva e de transporte.

As ações estatais também resultaram em políticas destinadas a favorecer a produção, como formação de mão de obra e, principalmente, de inserção de direitos trabalhistas, sobretudo, dos setores urbanos, uma vez os trabalhadores rurais só foram comtemplados posteriormente, na década de 1960. Trata-se dos direitos da indústria, que

asseguravam a existência e a reprodução da mão de obra necessária para a indústria, para industrializar o país e levá-lo na direção do desenvolvimento, cujo modelo é o representado pelas potências industriais capitalistas da Europa e a nova potência mundial, os Estados Unidos.

Tais ações selaram o papel do Estado para organizar a trama social de uma nacionalidade e uma cidadania amparadas em relações que, supostamente, beneficiariam a todos e, por isso, eram vistas como fator de união de trabalhadores e empresários em favor da nação. Trata-se da construção da nacionalidade e da cidadania abstratas, para as quais o Estado agiu como instituidor e elemento fundamental da existência do capital e, do mesmo modo, da existência dos direitos e, portanto, da coesão social dos indivíduos. No entanto, essa construção tem como base o ideal liberal de Estado-nação, mas ocorreu num momento que o conceito de Estado-nação foi subvertido em seus fundamentos.

A Guerra Fria, como um resultado da II Guerra Mundial, concretizou, ao menos no plano ideal, a modificação do termo nacional, que havia como base as concepções liberais do Estado-nação, que tem um dos elementos básicos a união num território de povo com características culturais e históricas comuns, por exemplo, disso deriva a ideia de nacional. A ideia de nação passou, agora, a estar relacionada a um projeto moral de alcance mundial ou global, que divide e polariza o mundo, colocando, de um lado, as forças do bem e, de outro lado, as forças do mal e que, ao mesmo tempo, tem seus fundamentos no alinhamento ideológico, numa economia liberal e na globalização da economia.

Uma nova reorganização econômica e política que repõe os contornos políticos conservadores e reforça esse sentido de nação, foi possível com o golpe civil-militar de 01 abril de 1964, que durou até 15 de março de 1985.

Benzer Belgeler