Vários são os fatores que influenciam o desenvolvimento educa- cional de um indivíduo. Em maioria, eles têm na sua base estreita
afinidade com as posições sociais discentes. Sociólogos da edu- cação, dos quais se destaca Pierre Bourdieu, fizeram longas aná- lises sobre o quanto a origem social impulsiona ou delimita as formações escolares, incluindo a de nível superior.
Sob esse prisma, Bourdieu trabalha aspectos ligados ao capital cultural que colocam discentes de estratos sociais mais elevados em situação de vantagem. O conceito de capital cultural foi for- mulado pelo autor para dar conta da desigualdade escolar entre indivíduos originários de diferentes meios, procurando relacionar o sucesso estudantil à distribuição desse capital entre as classes ou frações de classe (BOURDIEU, 1998).
De acordo com Nogueira e Nogueira (2002), as referências cultu- rais, os conhecimentos considerados eruditos e a fluência oral e escrita levados de casa pelos discentes facilitam o aprendizado na medida em que funcionam como ponte entre o mundo fami- liar e a cultura escolar.
Percuciente, Bourdieu (2005, p. 9) desvela que:
Os educandos provenientes de famílias desprovidas de capital cultural apresentarão com as obras de cultura veiculadas pela escola uma relação que tende a ser laboriosa, tensa, esforça- da; enquanto para os indivíduos originários de meios cultural- mente privilegiados essa relação está marcada pelo dilantis- mo, desenvoltura, elegância, facilidade verbal “natural”.
Assim, o capital cultural é referendado como um poderoso ins- trumento de diferenciação. Nessa ótica, Neves, Pronko e Men- donça (2012, p. 2) denunciam:
O sistema escolar realiza a operação de seleção mantendo a ordem social preexistente, isto é, separando alunos dotados de quantidades desiguais – ou tipos distintos – de ‘capital cul- tural’. Mediante tais operações de seleção, o sistema escolar separa, por exemplo, os detentores de ‘capital cultural’ herda- do daqueles que são dele desprovidos.
Destarte, verifica-se um sistema velado de privilégios no interior das escolas. A partir de tal percepção, Bourdieu e Passeron for- mularam a Teoria da Reprodução. Segundo os estudiosos, a te- oria supracitada ajusta-se à crença de que a escola colabora para a conservação do sistema de dominação existente, pondo termo à ideia de escola libertadora.
A instituição educacional, vista como instância modificadora da so- ciedade, passa a ser percebida como um espaço no qual se mantêm e se legitimam as desigualdades sociais; e o professor assume o papel de zelador dessa ordem. Várias de suas ações se orientam no sentido de privilegiar aqueles que têm uma maior bagagem cul- tural, julgando os discentes pela quantidade de conhecimento in- culcados no lar, além das várias heranças, como a postura e a habi- lidade de falar em público (BOURDIEU; PASSERON, 1992).
No escopo de conservação da ordem social o trabalho pedagó- gico é considerado muito eficaz, porque tem capacidade de per- petuar mais duravelmente uma atitude do que qualquer coerção política. No meio educacional, o dominado não se opõe ao opressor, já que não se percebe como vítima. Nesse sentido, as situações de exclusão no espaço educacional são tidas, mesmo por aqueles que a sofrem, como algo natural, inevitável, fruto unicamente de deméritos pessoais.
Ao denunciar a falsa estrutura de equidade dentro das organiza- ções educacionais, Bourdieu estabelece a definição de “os exclu- ídos do interior”, uma nova forma de perceber as desigualdades escolares. Ao invés da separação entre escolarizados e não esco- larizados, hoje a exclusão opera, conforme Bourdieu (1998, p. 13),
De modo bem menos simples, através de uma segregação interna ao sistema educacional que separa os educandos se- gundo o itinerário escolar, o tipo de estudo, o estabelecimen- to de ensino, a sala de aula, as opções curriculares. Exclusão ‘branda’, ‘contínua’, ‘insensível’, ‘despercebida’. A escola se- gue, pois, excluindo, mas hoje ela o faz de modo bem mais
dissimulado, conservando em seu interior os excluídos, pos- tergando sua eliminação e reservando a eles os setores esco- lares mais desvalorizados.
Tal exclusão está intimamente relacionada à ideia de eliminação adiada. Exemplificando: alunos que vinham se arrastando durante todo o ensino básico, nas seleções para IES, que apresentam ca- ráter eliminatório, têm grandes chances de terem a jornada inter- rompida, principalmente se intencionados ao ingresso em cursos mais concorridos; só aí, de fato, observa-se a exclusão operando de forma menos dissimulada. Destarte, vê-se nas oportunidades de acesso ao Ensino Superior o resultado de uma escolarização que pesa com desigual rigor sobre os indivíduos dos diferentes grupos que integram a sociedade (BOURDIEU, 1998).
Fica evidente que o posicionamento social faz com que as famí- lias adotem diferentes estratégias em relação à educação dos fi- lhos. Membros das classes mais elevadas, apesar de investirem fortemente na formação dos seus, encaram o processo educativo de maneira relativamente descontraída – “laxista” –, uma vez que o sucesso escolar, coroado com a conclusão de um bom curso superior, é tido como algo natural, não dependente de um grande esforço de mobilização familiar. Nesse meio social, o expressivo volume de capitais torna o fracasso muito pouco provável (BOURDIEU, 1998).
No outro extremo, para os discentes das camadas populares, po- bres em acúmulo de capitais, nota-se um investimento estudantil relativamente baixo. Tal grupo enxerga como reduzidas suas chances de sucesso escolar/acadêmico (faltam recursos econô- micos, sociais e culturais para o bom desempenho). Essa caracte- rística gera, por vezes, pouca expectativa quanto à aprovação nos processos seletivos universitários, mormente em IES públicas e/ ou curso de maior status, consubstanciando o fenômeno da au- toexclusão, em que os próprios jovens, em não se inscreverem para a disputa, operam a eliminação de si mesmos.
Em síntese, de acordo com o acúmulo histórico de experiência de êxito e fracasso, os grupos sociais constroem um conhecimento prático em relação ao que é possível ou não de ser alcançado. Ou seja, a realidade concreta na qual seus membros agem norteiam seus pensamentos com relação às escolhas a fazer, o que Bourdieu nomeia de Causalidade do Provável. As possibilidades de acesso ao Ensino Superior e a opção por um determinado curso estão, também, orientadas por esse conhecimento prático.
Santos (2009, p. 2) assevera que a Causalidade do Provável
implica na internalização das chances que os indivíduos dis- põem para alcançar determinado bem, ou seja, a partir da es- trutura social em que está inserido o indivíduo estabelece um
quantum de auto-estima no enfrentamento daquilo que é ou
não é próprio ou característico do seu grupo social de origem.
A Causalidade do Provável no campo educacional tem o seguinte desdobramento: para jovens empobrecidos, que somatizam uma série de deficiências, a expectativa é a de não acesso à universi- dade; para jovens de ambientes mais nobres, com bases educa- cionais positivas, a universidade é destino quase que inventável – há um acúmulo de causas que tornam o acesso provável. Segundo Bourdieu (1998), a correspondência das experiências com as probabilidades, das antecipações com as realizações, está no princípio da teoria de Causalidade do Provável enquanto sen- tido de realidade, fazendo com que, para além dos sonhos e das revoltas, cada um tenda a viver de acordo com suas condições e a tornar-se inconscientemente cúmplice dos processos que acre- ditam serem prováveis de realização. Essa dinâmica das escolhas e possibilidades assenta-se no que Bourdieu chama de habitus. Na concepção do sociólogo
Habitus são os princípios geradores de práticas distintas e
ou o mesmo bem pode aparecer como distinto para um, pretensioso ou banal para outro, vulgar a um terceiro (BOURDIEU, 2005, p. 22).
Salomont (2002) acentua que o habitus é reflexo de uma posição de classe, ou melhor, de uma consciência de classe e de uma visão de mundo, que funciona como memória coletiva tendente a reproduzir nos sucessores o que foi adquirido pelos anteces- sores, posicionando-se como um meio eficaz para perpetuação de grupos.
Sob tais aspectos, o ingresso na educação superior, sobretudo na seara pública, teria diminutas chances de escapar dos efeitos cí- clicos que beneficiam as altas camadas sociais em seus diversos microcosmos, assim como sugere, tomando como campo de análise a UFC, a seção seguinte.