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Em termos de origem sócio-histórica, essas duas políticas, a Assistência Social e a Assistência Estudantil, surgiram direcionadas às classes sociais distintas. Enquanto a política de Assistência Social nasce destinada a subsidiar a ordem no contexto de paupe- rização, não institucionalizada enquanto política pública de Estado, com traços paternalistas, punitivos, autoritários, focali- zados e paliativos, a Assistência Estudantil nasce de ações isoladas destinadas a subsidiar as necessidades das elites brasileiras. É possível perceber que os equívocos em relação à Assistência Social descendem de suas protoformas históricas, anteriores a sua sistematização enquanto política pública, dever do Estado. Pereira (2011) argumenta ao longo de seu texto que a escassez de braços para trabalhar nas fazendas após as grandes pestes que dizimavam a população na Grã-Bretanha por volta de 1351, impulsionou a relação entre trabalho e assistência social, uma vez que o acesso a essa era condicionado ao trabalho, ainda que forçado.

Dessa forma, as regulamentações contra a perambulância de pessoas em busca de melhores ocupações, ou a chamada “vagabundagem”, constituíram a origem da assistência social institucional (p. 62) [...] a indução compulsória do pobre váli- do (ou forte) ao trabalho, assim como a cobrança de contra- partida do beneficiário da assistência, sob a forma de presta- ção de serviços tornou-se, em 1576, um procedimento previsto em lei (PEREIRA, 2011, p. 63).

É necessária a compreensão da categoria direito social como produto histórico, resultado de embates da sociedade. A própria

Assistência Social, enquanto política pública para a garantia de direitos sociais, foi assegurada legalmente a partir da aprovação da Lei nº 8.742/1993 (Lei Orgânica da Assistência Social) no go- verno de Itamar Franco, cuja aprovação foi resultado do movi- mento de parcela da sociedade civil, de organismos de classe e da ação do Ministério Público, que ameaçava processar a União pelo descaso com a área (COUTO, 2010).

O atraso na institucionalização da Assistência Social no campo dos direitos sociais previstos em lei descende do fato de que, principalmente no governo Fernando Collor, o desenvolvimento social era concebido como uma decorrência do crescimento eco- nômico, de forma que o Estado deveria definir e executar polí- ticas complementares ao mercado; e a política de Assistência Social ficou à mercê da perspectiva marginal, residual e emer- gencial (RAICHELIS, 2011).

É possível observar que, contraditoriamente, foi justamente “no movimento pela redemocratização brasileira, no contexto do pe- ríodo pré-constituinte, com as consequências do processo de re- estruturação produtiva”, que se desenvolveu em escala mundial, “que a assistência social começou a ganhar visibilidade como po- lítica social, campo do direito social” (COUTO, 2010, p. 166-67).

Por isso, falar de assistência social como política, e não como ação guiada pela improvisação, pela intuição e pelo senti- mentalismo (por mais bem-intencionados que sejam), é falar de um processo complexo que, embora não descarte o senti- mento (de cooperação, de solidariedade e até de indignação diante das iniquidades sociais), é ao mesmo tempo racional,

ético e cívico.

Racional porque toda política de intervenção na realidade,

assumida pelos poderes públicos, com o aval e controle da sociedade, deve resultar de um conjunto articulado e discer- nido de decisões coletivas que, por sua vez, se baseia em indicadores científicos. Isso significa que a racionalidade dessa espécie de política está no fato de ela ser informada por estudos, pesquisas, diagnósticos e estar sujeita à perma-

nente avaliação, especialmente no que se refere aos seus re- sultados e impactos.

Ético porque o combate às iniquidades sociais, mais do que um

ato de eficácia administrativa, constitui uma responsabilidade

moral que nenhum governo sério deve abdicar. [...] cívico, por-

que deve ter vinculação inequívoca com os direitos de cidada- nia social, visando concretizá-los. Concretizar direitos sociais significa prestar à população, como dever do Estado, um con- junto de benefícios e serviços que lhe é devido, em resposta as suas necessidades sociais (PEREIRA, 2012, p. 224-225).

Entretanto, com a chegada do governo Fernando Henrique, a Assistência Social entre 1994 e 1998 praticamente não progrediu em termos de gestão e financiamento, pois não houve a imple- mentação dos mecanismos garantidos anteriormente na Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS). E ainda, ocorreu uma re- dução no número de atendimentos nos serviços, ao mesmo tempo em que o caráter universalizante da Assistência Social como política pública social foi trocado por iniciativas residuais e clientelistas como o Programa Comunidade Solidária. Programas estes e iniciativas estas que integraram o campo assistencial do governo Fernando Henrique, além da dificuldade impressa aos mecanismos de controle social, onde as decisões dos conselhos e conferências não eram consideradas (COUTO, 2010).

A identificação da assistência social com os direitos sociais se jus- tifica a partir da premissa de que são esses direitos que têm como perspectiva a equidade, a justiça social e exigem atitudes posi- tivas, ativas ou intervencionistas do Estado para, em articulação com a sociedade, materializar esses valores através de políticas, programas, serviços, projetos e benefícios sociais (PEREIRA, 2012). No caso da concepção da política de Assistência Estudantil como política pública, Dumaresq (2014, p. 44) afirma que:

A política pública é formada por diretrizes que visam à pro- moção e garantia dos direitos do cidadão. Portanto, a assis-

tência estudantil executada por meio de serviços sociais deve ser entendida como política de direito e jamais confundida com assistencialismo ou caridade.

Sobre o mesmo aspecto, Ramalho (2013, p. 76) afirma:

Assim, as políticas educacionais, em essência, podem ser consi- deradas políticas públicas sociais, por seus objetivos de forma- ção para a cidadania e por buscar propiciar aos indivíduos a melhoria de sua condição social. Nesse sentido, acreditamos que as políticas de assistência estudantil também podem ser inseridas nessa categorização, por seu aspecto redistributivo e pela sua preocupação com a equidade.

A Assistência Estudantil, tanto no campo teórico como no campo das práticas sociais no âmbito da educação superior pública, tem obtido relevância e centralidade política. Pode-se afirmar que, semelhante à centralidade adquirida pela política de Assistência Social no conjunto das políticas de Seguridade Social, a qual ocorreu a partir da predominância dos programas de transfe- rência direta de renda, a política de Assistência Estudantil adquire cada vez mais centralidade no processo educacional.

Essa centralidade adquirida pela política de Assistência Estudantil se dá a partir do ponto em que as discussões teóricas e a prática educacional a consideram como essencial para garantir o sucesso do processo de ensino e aprendizagem por meio da garantia pri- meira da condição de permanência com aprendizagem satisfatória. Mas também, devido à centralidade dos Programas de Auxílios Pecuniários que se constituem como programas de transferência direta de renda no âmbito da política de Assistência Estudantil.

A política de assistência estudantil, embora não possa pres- cindir da questão financeira, deve ser trabalhada em conso- nância com os aspectos pedagógicos e psicossociais, ou seja,

com suporte em uma política pública de assistência estudan- til não apenas voltada para a subsistência material, mas tam- bém preocupada com as questões emocionais, pensando a pessoa como um todo (DUMARESQ, 2014, p. 45).

A política de Assistência Estudantil assim como a política de Assistência Social tem, em termos orçamentários e operacionais, características similares, quais sejam: orçamento próprio e sua operacionalização a partir da estruturação de equipes multipro- fissionais constituídas no mínimo por assistentes sociais e psicó- logos na perspectiva de consideração dos sujeitos como com- postos por dimensões biopsicossociais.

Assistência Estudantil entre marcos