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Após apresentar o Boletim de Eugenia como o primeiro periódico dedicado à ciência eugênica, Renato Kehl expôs o que chamou de “Propósitos”314 constatando que a realidade no Brasil consistia em poucas pessoas dedicadas especialmente ao estudo da ciência galtoniana, importante porque caracterizava-se como a chave magna da regeneração humana sendo preciso estudá-la muito bem para dominar o conhecimento da influência de fatores como hereditariedade, descendência, evolução, meio ambiente, condições econômicas, condições sociais, educação, costumes, mestiçagem e demais fatores identificados como passíveis de agir sobre o ser humano e sua constituição; apenas com o domínio do conhecimento pelo estudo da eugenia permitiria que ações fossem direcionadas de fato para o aprimoramento constante das descendências. O autor sintetizou sua compreensão do ideal eugênico: “aperfeiçoar as qualidades e reduzir ao mínimo as imperfeições humanas”315. Contudo, o autor destacava que a ciência criada por Francis Galton não ignorava os princípios humanitários utilizando-se de métodos de seleção com fundamentos científicos e preceitos humanos.

Renato Kehl insistia que a institucionalização da eugenia era uma necessidade que a criação de um Instituto Brasileiro de Eugenia supriria a contento. Referindo-se ao Instituto de Eugenia de Berlim, Kehl ressaltava o propósito da instituição em prezar pelo cuidado à nacionalidade germânica e destacava o sucesso obtido com iniciativas de incentivo a procriação de indivíduos aptos aproveitando-se destas informações para expressar como imaginava a estrutura de uma instituição eugênica no Brasil. Nesta exposição, três seções contemplariam as responsabilidades conferidas a uma instituição com fins eugênicos: uma seção seria responsável pelas ações de propaganda pelos diversos veículos existentes para popularizar ao máximo a ação eugênica; uma segunda seção reuniria os responsáveis pela promoção de ações eugênicas e promoveria um contato estreito com autoridades constituídas pelo Estado no intuito de que medidas legais de combate à degeneração fossem estabelecidas e bem desenvolvidas; a terceira e última seção seria dedicada a estudos científicos que englobariam a formação de um

314 Kehl, Renato. “Propósitos” In Boletim de Eugenia, Vol 1, nº 1, Janeiro, 1929, pp. 1-2 315 Idem, p. 1

arquivo genealógico, estudos sobre genética e pesquisas sociais e biológicas relacionadas aos problemas eugênicos316.

O grande destaque do artigo publicado por Renato Kehl em Maio de 1929 foi o 1° Concurso de Eugenia. O autor descreveu o concurso e suas etapas (inscrições de crianças entre 3 e 5 anos; usando critérios resultantes de sindicância dos ascendentes dos inscritos, enfermidades físicas e mentais foram investigadas tendo classificado-se 70 candidatos; numa segunda seleção, outras crianças foram eliminadas e sucessivas seleções desenvolveram-se até que restaram apenas 3 crianças para o julgamento final). Destacando a criança vencedora, o artigo de Renato Kehl traz a foto da mesma na primeira página do periódico (em anexo) e uma breve apresentação: Adenir, uma menina de 3 anos, possuía 8 irmãos vivos, 6 tios maternos e 7 tios paternos saudáveis caracterizando a linhagem da vencedora como excelente e de acordo com os princípios de Galton:

“Um dos mais importantes problemas da ciência de Galton consiste na seleção dos “bem dotados”, isto é, na escolha dos melhor prendados física e mentalmente. Dessa seleção derivam várias conseqüências de valor: em primeiro lugar, concorre para aumentar o interesse público, fazendo com que os pais se esclareçam no tocante à constituição de proles sadias e belas; em segundo lugar, serve para a organização de um ensaio de patronagem da futura elite nacional de eugenizados; finalmente, contribui com preciosos elementos para importantíssimos estudos relativos à hereditariedade, ao meio social e familiar, ao cruzamento de raças, etc317”.

316 Idem, “Instituto Brasileiro de Eugenia” In Boletim de Eugenia, Vol 1, nº 2, Fevereiro, 1929, p. 1 317 Kehl, Renato. “Pelo aperfeiçoamento da nacionalidade” In Boletim de Eugenia, Vol 1, nº 5, Maio,

Outro concurso citado no mesmo número do periódico foi o da Senhorita Brasil, um concurso de beleza em que jovens foram analisadas sob o ponto de vista eugênico com o objetivo de premiar a jovem que melhor representasse o modelo de mãe segundo os propósitos eugênicos: bons antecedentes familiares, saúde perfeita e consciência da importância da maternidade e da escolha de um bom marido318.

No mesmo número em que registrou o fato do Boletim de Eugenia passar a ser um suplemento da revista médica “Medicamenta”, Renato Kehl escreve um artigo319 em que apresenta o panorama peculiar do Brasil no que dizia respeito às condições mesológicas, sociais e étnicas dificultando as investigações sobre o cruzamento de raças no país. Estas poderiam ser justificativas para os estudos insipientes existentes sobre o assunto segundo a análise do autor que definia o Brasil como “um grande e completo laboratório no qual se fundem várias raças (...) Dessa mistura étnica surgiu uma miscelânea racial, de tal forma confusa, que só com o tempo se poderá saber o resultado final”. Este panorama multirracial foi apresentado com base em fichas antropológicas de médicos militares que examinavam indivíduos para o serviço militar: 50% de mestiços, 39% de brancos, 10% de pretos e 1% de caboclos (índios). Como perspectiva, o autor enfatizava a tendência de desaparecimento gradual de índios e negros em estado de pureza racial por morte e por cruzamentos predominando o elemento branco; os imigrantes europeus eram uma esperança d presença maciça de elementos brancos no Brasil. Mulatos e caboclos também apresentavam tendências ao desaparecimento gradual pelos mesmos motivos apontados anteriormente provocando uma modificação acentuada da população brasileira que adquiria um aspecto “europeu”.

Em relação aos mestiços brasileiros, Renato Kehl colocou-se com clareza: “Os mestiços brasileiros de branco e preto (mulatos) são, na maioria, elementos feios e fracos, apresentando, com freqüência, os vícios de seus ancestrais. Apresentam grande instabilidade de caráter e constituem elementos perturbadores de

318 Idem, “Concurso de beleza: senhorita Brasil” In Boletim de Eugenia, Vol 1, nº 5, Maio, 1929, p. 3. 319 Idem, “Questões de raça” In Boletim de Eugenia, Vol 1, nº 6-7, Junho-Julho, 1929, pp.3-4.

progresso nacional, sob o ponto de vista étnico e social. Os mestiços brasileiros de índio e branco (mamelucos) são superiores aos mulatos; fisicamente mais bem conformados e mais fortes; psiquicamente muito inteligentes, vivos e de caráter mais equilibrado. Ambos, porém, são em geral, muito sôfregos, impacientes e pouco amigos da disciplina”320.

Corroborando sua opinião, Renato Kehl recorre a Oliveira Vianna, que escreveu em 1922, “Populações Meridionais”321, uma análise sobre as assimetrias física e moral dos mestiços que causavam muitas dificuldades e implicavam a impossibilidade de qualquer ação educativa e de conscientização da importância de não gerarem novos descendentes; restava a Renato Kehl a esperança da predominância do elemento branco na nacionalidade mestiça brasileira. Renato Kehl também refere-se a Paulo Prado que em “O retrato do Brasil”322 afirmava existirem mestiços que contribuíam com a sociedade de forma positiva embora a população apresentasse, em geral, fraqueza física e muitos vícios; tudo indicava que esse estado era resultante dos cruzamentos desregulados entre raças e subraças. Para o autor, apenas com o tempo seria possível analisar os resultados da miscigenação no Brasil.

Renato Kehl encerrou seu artigo demonstrando otimismo em relação ao futuro étnico brasileiro em função da entrada de novas correntes européias no Brasil que pelos processos de cruzamento e pela ação da seleção natural, promoveriam a melhoria do estado geral da população delineando, assim, um caminho que apontava para a consolidação étnica brasileira. Neste artigo podemos ver que Renato Kehl mostra descontentamento com a miscigenação embora confira a alguns cruzamentos o poder de redenção; o estado dos mestiços presentes no Brasil não era o ideal por configurar-se como resultado de cruzamentos sem qualquer controle. Com a corrente imigratória européia, o processo de soberania do elemento branco permitiria uma constituição mais

320 Ibidem.

321 Idem apud Vianna, Oliveira. “Populações Meridionais”, 1922, p. 117. 322 Idem apud Prado, Paulo. “O retrato do Brasil”, s.d., p. 192.

forte e mais adequada dos descendentes. A idéia do branqueamento pelos cruzamentos sucessivos foi cogitada por Renato Kehl neste artigo como um futuro possível para o Brasil.

Ainda no mesmo número do Boletim de Eugenia, Renato Kehl discute a importância de boas escolhas entre os jovens que pretendiam casar-se e constituir família. Afirmando que nenhum casal possuía intenção de gerar filhos que definia como “estúpidos”, Renato Kehl afirma que havia um grande descuido por parte dos jovens que ignoravam a importância de analisar o grau de inteligência da metade com a qual iria unir-se em matrimônio influindo na formação intelectual da prole; as disposições hereditárias, segundo o autor, determinam o nível intelectual dos indivíduos. Casos esporádicos ocorrem e era possível uma inteligência superior como descendente de um casamento sem análise dos cônjuges pela união de um cônjuge da classe cultivada e o outro da plebe. Como sugestão Renato Kehl encerra seu artigo com uma indicação: “Todo indivíduo que pretender se casar deve preocupar-se em escolher sua “metade” dentro do círculo de sua comunidade, tendo em mente garantir não só a felicidade do casal como o futuro nível intelectual e social da prole”323.

Um editorial sem autoria foi publicado em Novembro de 1929. O movimento em prol da Eugenia foi destacado pelas ações em alguns estados da Federação. O mês de outubro foi destacado como um período em que iniciativas demonstraram o progresso das idéias e do interesse pelas questões do melhoramento físico e mental por parte das classes cultas do país. Em São Paulo, havia notícias da realização de um segundo Concurso de Eugenia; em Piracicaba, Octávio Domingues foi citado por uma conferência que seria proferida sobre eugenia para os estudantes das Escolas de Agricultura, Farmácia, Odontologia e Normal. No Rio de Janeiro, por iniciativa do Presidente da Academia Brasileira de Letras, Fernando Magalhães, inaugurou-se um curso de eugenia intitulado “As realizações da Eugenia”. O 5º Congresso de Higiene realizado em Recife (17 a 22 de outubro de 1929) debateu pontos referentes à ciência de Galton e reafirmou-se a necessidade de uma lei sobre o exame médico pré-nupcial.

323 Kehl, Renato. “Hereditariedade e inteligência” In Boletim de Eugenia, Vol 1, nº 6-7, Junho-Julho,

Trabalhos e artigos referentes à eugenia surgiram sendo interpretados como um interesse crescente por assuntos relacionados ao melhoramento da nacionalidade324. Uma preocupação constantemente presente nas discussões eugênicas era a natalidade nas diversas classes sociais porque era uma constatação que as classes em que se encontravam indivíduos aptos, as taxas de natalidade eram baixas ao contrário do que ocorria nas esferas mais baixas da sociedade. A preocupação com o crescimento da população de inaptos e a diminuição das classes média e superior foi expressa por Renato Kehl num artigo em dezembro de 1929325:

“(...) Em toda parte e em todos os tempos existe uma minoria selecionada amparando uma grande plêiade improdutiva e atrasada. No Brasil, é difícil calcular a porcentagem correspondente a um e a outro lado, podendo-se, entretanto, admitir que cada brasileiro útil carrega com o peso morto de vinte ou mais parasitas, tendo em conta a nossa produção econômica comparada com a de Cuba, por exemplo, que com pouco mais de três milhões de habitantes exporta algumas vezes mais do que o Brasil que conta cerca de 40 milhões de

indivíduos!”326.

Renato Kehl prosseguia em seu artigo defendendo a restrição à natalidade dos inaptos argumentando que de três camadas sociais existentes no Brasil, havia uma muito leve (de brancos); uma leve (tipos médios) e a última camada, composta por uma massa de inferiorizados que deveriam ser impedidos de procriar. A classe pobre deveria ser informada sobre a necessidade de restringir a natalidade. Para exemplificar práticas de limitação da natalidade, referiu-se a países como o Japão (a propaganda era facultada

324 Boletim de Eugenia, Vol 1, nº 11, Novembro, 1929, p.1

325 Kehl, Renato. “Limitação da natalidade” In Boletim de Eugenia, Vol 1, nº 12, Dezembro, 1929, pp. 1-

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para combater o excesso de natalidade) e a Alemanha (a propaganda para limitação de natalidade era realizada num contexto de dois milhões de desocupados e prescrições de medidas anticoncepcionais também eram feitas). Na América do Norte, a propaganda da limitação da natalidade refere-se às vantagens de um povo de boa qualidade física e moral em detrimento de uma massa mal selecionada. A adoção de medidas anticoncepcionais e esterilização de tarados e criminosos eram admitidas pelos eugenistas americanos que lutavam contra a má procriação; 23 estados americanos adotaram a esterilização com fins eugênicos dos considerados fracos de espírito, alienados, epilépticos, ébrios, criminosos e doentes portadores de males transmissíveis por herança. Referindo-se a corrente imigratória que chegava ao Brasil (italianos, portugueses, alemães e espanhóis), Renato Kehl afirmava mais uma vez que a miscigenação destes imigrantes com a população brasileira promoveria a melhoria das condições da nacionalidade brasileira. A frase que encerra o artigo resume sua idéia: “Precisamos de gente – mas gente boa, eugenicamente boa”327.

Um artigo intitulado “Inquérito eugênico” apresentou inicialmente a afirmação de que a eugenia, quando aplicada, constituía-se na higiene da raça. Em função disto era muito importante identificar os fatores sociais que favoreciam a procriação dos bem dotados e promover práticas que eliminassem progressivamente a eliminação dos inaptos. A preocupação dos eugenistas era conferir à hereditariedade um significado valoroso que despertasse no público a importância da higiene da raça com a defesa das proles mantendo a saúde e o vigor para os descendentes. Entre os meios utilizados pelo eugenista, observações de qualidades físicas e mentais eram realizadas e classificadas para a determinação dos fatores hereditários. Renato Kehl admitia que uma prática como esta precisava de contribuições como higiene e assistência social sempre com um foco na aplicação das práticas eugênicas e do compromisso da coletividade com as referidas práticas. Autor procurou demonstrar que o método eugênico possibilitava evidenciar índices de hereditariedade, identificação dos bem dotados e dos tarados; o método eugênico previa que o desenvolvimento de uma criança dependia de três condições: hereditariedade (a importância do casamento e da escolha do cônjuge determina o sucesso deste mecanismo), da saúde dos pais no momento da concepção (considerava-se que desta forma bons caracteres seriam transmitidos) e a saúde da mãe

durante a gestação (preservação do bebê além de evitar características adquiridas durante a gravidez).

O método eugênico também investigava e identificava as famílias consideradas perigosas por suas taras procurando controlar sua capacidade de procriação e perpetuação. A formação de um corpo de investigadores capazes de identificar as famílias deveria ser uma prioridade porque seriam os responsáveis por identificar famílias bem-dotadas e as taradas:

“O investigador eugênico não pode descuidar-se de nenhuma fonte de informações: autoridades civis e religiosas, escolas, asilos, prisões e hospitais. A redação da lista das pessoas perigosas pelas suas taras ou notáveis pelas suas qualidades constitui o ponto de partida do inquérito. O trabalho consistirá, por fim, na visita a cada habitante inscrito nessa lista, na averiguação de seus parentes diretos, de seus colaterais, de seus descendentes, etc. Como remate, organizar-se-ão fichas dos descendentes em que se anotarão os seus caracteres físicos, as suas medidas antropométricas, os dados sobre os seus caracteres mentais por meio de testes e as suas filiações hereditárias”328.

O artigo termina esclarecendo a parte de organização e arquivamento das fichas preenchidas com os dados dos indivíduos das famílias; uma classificação seria feita e agrupariam-se de acordo com a classificação dada à família, profissões, categorias sociais e elementos étnicos aproveitando alguns dados para métodos biométricos329 que determinariam graus de variação e semelhança das camadas e de sua descendência. Para exemplificar a proposta, foi apresentado um inquérito realizado nos Estados Unidos (Long Island) pelo Dr. Rosanoff e subsidiado pela Fundação Rockefeller. Com duração

328 “Inquérito eugênico” In Boletim de Eugenia, Vol 2, n° 13, Janeiro, 1930, p. 3

329 Na biometria, as características físicas são identificadas, classificadas e agrupadas depreendendo

destas análises, diferenças, semelhanças, fraquezas, riquezas e principalmente, definir que características eram consideradas apropriadas para a melhor composição da população brasileira.

de 4 meses, o inquérito, numa população de 10.000 habitantes, identificou 1.592 débeis mentais que eram troncos de famílias em que se observava atrasos mentais; de fato, havia 600 atrasados entre os 2.732 colaterais. Como fonte, o “Office Belge d´Eugenique” onde escreveram os Drs. A. Govaerts e W. Schaenen330.

Este artigo mostra o quanto Renato Kehl procurava distinguir os caracteres transmissíveis dos caracteres herdados; contudo, na descrição das possíveis heranças, alguns fatores não se configuravam como genéticos segundo nosso conhecimento atualmente. Em meu entendimento, ainda não havia subsídios suficientes nas pesquisas realizadas pela ciência mendeliana que determinassem, àquele contexto, os caracteres passíveis de transmissão genética. Seu interesse, contudo, permanecia num artigo procurava discutir de que forma caracteres mórbidos não observados em descendentes apareciam numa geração. Ainda que o artigo procurasse descrever o mecanismo da hereditariedade mórbida, Renato Kehl privilegiou a crítica à ineficácia da influência do ambiente sobre caracteres genéticos:

"Sabe-se que as influências do meio (nurture) têm ação indubitável tanto para auxiliar como para entravar e mesmo orientar o desenvolvimento de certas anomalias como dos caracteres normais de família. Sabe-se, também, que as influências do meio são, não obstante, incapazes de criar uma anomalia ou novos caracteres familiares fixos, isto é, transmissíveis através de gerações”331.

Renato Kehl encerra seu artigo afirmando que era possível intervir na criação de gerações seguindo princípios eugênicos de forma racional e objetiva:

“Assim como teoricamente se podem criar anormais, podem-se criar normais – normais

330 “Inquérito eugênico” In Boletim de Eugenia, Vol 2, n° 13, Janeiro, 1930, p. 3

331 Idem, “Qual o mecanismo da hereditariedade normal e mórbida?” In Boletim de Eugenia, Vol 2, nº 16,

superiores ou pelo menos – normais com determinado caráter elevado. A zootecnia criando pombos-correio e cavalos de corrida; a agricultura criando espécimes estupendos de vegetais belos e úteis, aí estão para reforçar o que afirmamos. Convenhamos, entretanto, que será mais consciencioso evitar pelas leis e regras da eugenia, o aparecimento de bastardos morais e de degenerados físicos deixando ao acaso o Fiat dos gênios que de tempo em tempo vem enriquecer a humanidade com a sua genialidade. Subordinemo- nos, pois, às leis naturais auxiliando-as a bem dos nossos semelhantes – segundo os ditames da ciência de Galton”332.

O meio ambiente foi bem delimitado como um solo que proporcionava um melhor desenvolvimento das sementes se possuísse boas condições; caso contrário, atrapalharia ou inviabilizaria o florescer das sementes. Em nenhum momento, contudo, as condições do solo poderiam interferir no conteúdo da semente. O eugenismo era responsável por assegurar, com suas práticas, a conservação do solo e a manutenção de boas condições que proporcionassem o desenvolvimento das características presentes nas sementes. Mesmo que as condições ambientais fossem favoráveis, o importante eram os caracteres presentes na semente que originaria uma nova geração; para isto, ações efetivas de aprimoramento genético deveriam ser desenvolvidas.

Utilizando-se da frase bíblica “crescei e multiplicai-vos”, Renato Kehl destaca em um artigo333, a necessidade de avaliar quem estava se multiplicando e cita o exemplo dos malefícios de um casamento consangüíneo. Mais uma vez, expressou sua crítica às práticas de assistência e afirmava que os propósitos eugênicos eram mais efetivos:

"Não é por meio de estacas, por meio de podas e de

332 Idem, p. 3.

simples artifícios deste gênero que se obtém belos espécimes de árvores frutíferas e ornamentais – mas sim pela seleção das sementes, pelos enxertos convenientemente feitos, pelo trato da terra e proteção da planta. Não é por simples meios legais e educativos e nem sempre por processos corretivos que se obtém tipos fortes, belos e moralizados de homem – mas sim, pelos frutos de uniões matrimoniais entre indivíduos sadios portadores, portanto, de sementes eugenizadas e em seguida pela proteção pré-natal dos mesmos (...) As bases do melhoramento dos homens não se assentam em leis nem em medidas de ordem paliativa, mas no terreno sólido da hereditariedade”334.

Outro editorial sem autoria trazia o sugestivo título “Não basta gritar: viva o Brasil!”, que reforçava mais uma vez a necessidade da constituição de uma instituição que pudesse reunir os eugenistas brasileiros (a idéia seria a criação do Instituto Brasileiro de

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Benzer Belgeler